O martelo de ferro e o fim dos sacrifícios sangrentos

Budismo · Temporada 12 · Episódio 47 de 50 — em ordem cronológica

Uma pergunta pode ser mais forte que uma espada? Hoje, vamos ver como a clareza pode desarmar o medo mais antigo.

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Transcrição

Imaginam o rei poderoso, cercado de sacerdotes, prestes a derramar o sangue de centenas de animais num altar de pedra, convencido de que aquilo vai comprar a paz dos deuses. E aí aparece um único homem, sozinho, sem exército, sem trono, com uma pergunta simples na ponta da língua que ameaça desmontar tudo aquilo. Será que uma pergunta pode ser mais forte que uma espada? Nesse conto ela é. E o que segura a mão erguida do carrasco não é a força, é a clareza. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas. Os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava no longo caminho de se tornar Buda, vida após vida, juntando virtude.

Nessas histórias ele aparece às vezes como gente, às vezes como bicho, às vezes como uma árvore, um pássaro, um sábio. E em todas elas ele faz, com gentileza, aquilo que a gente costuma adiar à vida inteira. Escolhe o certo quando o errado seria mais fácil. Nesse, o futuro Buda nasceu numa família rica e respeitada de um reino antigo. Desde menino ele era diferente. Enquanto os outros corriam atrás de barulho e de coisa nova, ele ficava observando, reparava como as pessoas se machucavam por causa de medo, como faziam coisas terríveis convencidas de que era pelo bem maior. E o que mais doía nele desde cedo era o costume dos sacrifícios, porque naquele tempo, quando o reino enfrentava seca, ou doença, ou guerra, os sacerdotes diziam que os deuses estavam com fome e que era preciso alimentá-los com sangue.

Então levavam para o altar cabras, carneiros, búfalos, aves, às vezes a centenas, a fumaça subia, o sangue corria e todo mundo voltava para casa achando que tinha feito a sua parte, que tinha pagado a conta com o céu. O futuro Buda olhava aquilo e pensava que Deus é esse que tem fome de sangue de quem não fez nada de errado. Que paz é essa que começa com o terror de um bichinho amarrado? Aconteceu que o rei daquele reino caiu doente, uma febre que não passava, uma fraqueza que ia comendo o corpo dele dia após dia. Os médicos tentaram tudo. E quando os médicos desistem, sabe quem aparece, os que vendem milagre.

Os sacerdotes do palácio chegaram com a cara séria e disseram, majestade, a doença é castigo. Os deuses exigem um grande sacrifício, não cabras, não carneiros. Dessa vez exigem sangue de gente, sem homens, sem mulheres, sem crianças, sem de cada animal. Só assim o Senhor vai se levantar dessa cama. E o rei, com medo de morrer, disse sim, mandou prender as pessoas, mandou erguer o altar, marcou o dia. O reino inteiro mergulhou num silêncio de horror porque ninguém sabia se a sua família ia ser arrancada de casa na manhã seguinte. Foi quando o futuro Buda decidiu agir. Ele não juntou o gente, não pegou em arma, não pregou na praça.

Ele foi direto, sozinho, até o palácio, e pediu para falar com o rei. E por uma daquelas coisas que acontecem, conseguiu. Entrou no quarto onde o rei jazia, cercado dos tais sacerdotes, e fez uma reverência. Aí ele disse, majestade, ouvi dizer que o Senhor vai oferecer esse grande sacrifício para sarar. Me responde uma coisa, com honestidade, esses deuses que vão receber tanto sangue, eles são felizes, eles estão num lugar bom, num lugar de paz, os sacerdotes responderam, todos orgulhosos. Claro que sim, estão no céu, vivem em felicidade, em luz, em abundância. O futuro Buda balançou a cabeça devagar e disse, então me expliquem, se esses deuses são tão poderosos a ponto de curar um rei e se vivem cercados de tudo de bom, por que é que eles precisam que a gente os alimente? Por que é que se eles tão plenos teriam fome do sangue de cabras, de aves, de homens, de crianças? Quem tem tudo não pede nada.

E quem pede sangue de inocente não é Deus nenhum, majestade. É a crueldade vestida de fé, o quarto ficou em silêncio. E então ele continuou, com uma calma que cortava mais fundo que grito. Tem mais. Se o sacrifício realmente compra vida, então digam aos sacerdotes que se ofereçam eles mesmos, que ofereçam os próprios filhos, as próprias esposas, se eles têm tanta certeza de que sangue cura, que comecem pelo deles. Mas reparem, ninguém aqui quer ser a cabra do altar, todo mundo quer que outro morra no seu lugar. Isso não é devoção, majestade, é medo querendo achar uma vítima.

E aí ele ergueu uma imagem que ficou. Ele disse, a morte de um inocente não é uma oferenda, é um martelo de ferro, cada golpe desses cai de volta, mais cedo ou mais tarde, sobre a cabeça de quem ergueu o braço. O Senhor quer comprar saúde, mas está pagando com o peso mais pesado que existe, que é o sofrimento causado de propósito a quem não podia se defender. O rei, deitado naquela cama, olhou para os sacerdotes. E pela primeira vez viu medo nos olhos deles, não medo dos deuses, medo de serem desmascarados. Foi ali que ele entendeu. Mandou soltar todos os presos, cancelou o sacrifício e, conta o jataca, ou pela paz que voltou ao seu coração, ou pela febre que cedeu sozinha como a maioria das febres cede, o rei melhorou.

Mas o que de fato curou aquele reino foi outra coisa, o fim de uma crueldade que todo mundo achava sagrada. Agora, repara no que esse conto está dizendo, porque ele é mais atual do que parece. A gente não ergue autares de pedra hoje, mas a gente faz sacrifício o tempo todo. A gente sacrifica o descanso, o tempo com quem ama, a própria saúde, em nome de um Deus moderno que promete que, se a gente entregar mais sangue e venha a recompensa. E ninguém pergunta, esse Deus que eu sirvo, ele é mesmo feliz, ele me devolve alguma coisa ou só pede mais. E pior, quantas vezes a gente arruma uma vítima para carregar o peso no nosso lugar? Descontamos no mais fraco, terceirizamos a dor e chamamos isso de necessidade.

O conto fala de a insa, a não violência, mas fala junto de sabedoria, a coragem de fazer a pergunta que desmonta o medo, porque quase toda a crueldade do mundo se sustenta numa única coisa, a gente ter parado de perguntar por quê. Aqui vai uma coisa para hoje. Pensa numa exigência que você vem cumprindo sem questionar, achando que precisa, achando que é o preço de alguma paz, pode ser no trabalho, numa relação, num hábito que te custa caro, e faz a pergunta do futuro Buda, esse Deus que eu estou alimentando, ele realmente precisa disso, e quem é que está pagando a conta, eu ou alguém que não tem como se defender? Se a resposta te incomodar, talvez seja a hora de baixar o martelo.

Ninguém precisa sangrar para você ter paz.