No meio da noite, em todas as casas do Egito, ao mesmo tempo começou um choro nas casas dos ricos e nas casas dos pobres, no Palácio do Rei e na Cabana mais simples. Em todo lugar onde havia um filho mais velho, naquela noite havia uma morte. E foi esse choro, não as rãs, não o sangue, não as trevas, que finalmente abriu a mão que segurava um povo inteiro. Deixa eu te contar como chegou essa noite. Você acompanhou a história. Praga atrás de praga, caindo sobre o Egito e o faraó, o rei, dizendo não para soltar o povo de Israel da escravidão. Ele cedia e voltava atrás, cedia pela metade, nunca soltava de verdade.
E aí Deus avisa o Moisés que vai vir uma última praga. Só mais uma. E que depois dessa, o faraó não só vai deixar o povo ir, ele vai praticamente expulsar todo o mundo de lá. A última praga é a mais pesada de todas. Deus diz, por volta da meia noite, eu vou passar pelo meio do Egito e vai morrer o primeiro filho de cada família, desde o filho mais velho do faraó, que ia herdar o trono, até o filho mais velho da escrava mais simples, e até as primeiras crias dos animais. É uma coisa terrível de ouvir. E é, a Bíblia não esconde o peso disso, mas, junto com o aviso, Deus dá ao povo de Israel um jeito de escapar.
E é aqui que entra uma coisa que vai marcar esse povo pra sempre. Deus manda a cada família de Israel fazer o seguinte, pega um cordeiro, um animal sem defeito, mata o cordeiro ao entardecer, pega um pouco do sangue dele e passa nos dois lados da porta de casa e em cima da porta. E aí dentro de casa, assa o cordeiro e come, com a família toda junta. E tem um detalhe no jeito de comer. Deus diz, comam já prontos pra viajar, com as sandalhas nos pés, com o cajado na mão, comendo as pressas. Porque essa não é uma refeição pra relaxar. É uma refeição de quem vai partir a qualquer momento.
E então vem a promessa que dá o nome a tudo isso. Deus diz, nessa noite, quando eu passar pela terra do Egito, quando eu vi o sangue na porta de uma casa, eu vou passar por cima daquela casa. A morte não vai entrar ali. Passar por cima. Em hebraico, essa ideia de passar por cima, de poupar, de pular aquela casa, virou uma palavra. Pesach, é de onde vem a palavra Páscoa. A Páscoa nasce literalmente da noite em que a morte passou por cima das casas marcadas com sangue. Repara como é simples e como é radical. Não importava se a família era grande ou pequena, rica ou pobre, forte ou fraca.
A única coisa que importava era, tem sangue na porta, se tinha, a casa estava protegida, se não tinha não estava. A salvação não dependia de quem você era, dependia de você ter confiado o suficiente pra fazer o que foi dito, e o povo fez. Passada por casa, naquela noite eles mataram o cordeiro, passaram o sangue na porta e ficaram dentro, comendo e esperando, prontos pra partir. E chegou à meia-noite. O texto diz que o Senhor passou pelo Egito, e em cada casa que não tinha o sangue na porta, o filho mais velho morreu. No palácio do Faraó, morreu o príncipe, o herdeiro do trono. Na prisão, morreu o filho do preso, em toda parte, e o Faraó se levantou de noite.
Ele, os servos dele, o Egito inteiro, e houve um grande clamor, porque não havia uma casa sequer onde não tivesse alguém morto. Naquela mesma noite, ainda no escuro, o Faraó mandou chamar o Moisés, e o irmão dele, o Arão. E o homem que tinha dito quem é esse Deus pra eu obedecer, o homem que tinha jurado matar o Moisés e o vice de novo? Esse homem agora implora, ele diz, levantem, saiam do meio do meu povo, vocês e os filhos de Israel, vão, adorem o seu Deus como vocês pediram. Levem os rebanhos, levem o gado, levem tudo, só vão. E ele acrescenta uma frase de joelhos. Ele diz e abençoem a mim também, o orgulho tinha quebrado, por inteiro, não pela metade dessa vez.
E o povo do Egito empurrava os israelitas pra fora, com pressa dizendo, vão logo, senão a gente todo vai morrer. Eles saíram tão depressa que nem deu tempo de o pão crescer. Levaram a massa ainda crua, nas vasilhas enrolada nas roupas, nos ombros. Depois de 430 anos no Egito, naquela mesma noite, o povo saiu. Eu fico pensando numa coisa nessa história, é uma história pesada e eu não vou fingir que não é. Mas tem um detalhe nela que eu não consigo soltar, é a porta. Repara que, naquela noite, a diferença entre uma casa e outra não era riqueza, não era força, não era ser egípcio ou israelita.
A diferença era uma marca na porta, era um sinal de que ali dentro, alguém tinha ouvido, tinha confiado e tinha agido enquanto ainda era de dia, antes da noite chegar. E tem uma coisa que me toca aí, a proteção não veio porque aquelas famílias eram melhores que as outras, veio porque elas se abrigaram debaixo de uma coisa maior que elas, elas não se salvaram pela própria força, elas se salvaram porque entraram, fecharam a porta e confiaram que aquela marca ia bastar. E isso fala muito comigo porque a gente quase sempre quer se salvar pela própria força, quer dar conta de tudo sozinho, segurar o mundo nas costas, não depender de nada nem de ninguém.
E tem uma certa coragem nisso, mas também tem uma certa solidão, aquelas famílias fizeram o contrário. Elas reconheceram que tinha uma coisa grande demais vindo, que elas não iam conseguir enfrentar sozinhas, e em vez de tentar lutar contra a noite, elas se recolheram, ficaram juntas e confiaram num abrigo, tem horas na vida que a coragem não é enfrentar a tempestade de peito aberto, é reconhecer que tem coisa que a gente não dá conta sozinho, e ter a humildade de entrar, fechar a porta e ficar perto de quem a gente ama. Aqui vai uma coisa pra hoje, pensa numa coisa que você vem tentando carregar completamente sozinho, um peso que você acha que só você pode resolver, que você não divide com ninguém, que acha que pedir ajuda é fraqueza, hoje, só conta essa coisa pra uma pessoa, uma só, não pra resolver, só pra não estar sozinho debaixo dela.
Porque naquela noite, as casas que ficaram em pé não foram as mais fortes, foram as que tiveram a humildade de se abrigar, juntas, debaixo de algo maior que elas.