A Páscoa — a noite da libertação · Êxodo 12:31–51

A Biblia · Temporada 2 · Episódio 10 de 23 — em ordem cronológica

Quatrocentos e trinta anos de prisão. A liberdade não é um dom, é uma cicatriz que te lembra o valor de cada passo.

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Transcrição

Quatrocentos e trinta anos. É quanto tempo um povo inteiro viveu preso numa terra que não era a dele? E a liberdade, quando finalmente chegou, não chegou num dia ensolarado, com bandas tocando. Ela chegou de noite. As pressas, com o pão ainda cru nas costas, e o coração ainda batendo de medo. Deixa eu te contar como foi essa noite. Você acompanhou tudo até aqui. O povo de Israel, escravo no Egito, havia séculos. O Moisés pedindo a libertação. O faraó dizendo não praga após praga. E, na última noite, a praga mais pesada de todas, em que morreu o filho mais velho de cada casa egípcia, enquanto as casas de Israel, marcadas com o sangue do cordeiro na porta, foram poupadas.

Foi essa noite que finalmente quebrou o rei. Ainda no escuro, o faraó mandou chamar o Moisés e o irmão dele, o Arão. E o homem mais poderoso daquela terra, que tinha resistido tanto tempo, agora dizia, "Levantem, saiam do meio do meu povo. Vocês e todos os filhos de Israel vão, sirvam ao seu Deus, do jeito que vocês pediram." E ele soltou tudo. Os rebanhos, o gado, as famílias, as crianças, tudo, sem segurar um pedacinho dessa vez. Ele até pediu e abençoe a mim também. E os egípcios empurravam o povo pra fora, com pressa. Eles diziam, "vão agora, rápido, senão a gente todo vai acabar morto." Tanto que o povo de Israel saiu com tanta pressa que nem deu tempo de o pão crescer.

Eles pegaram a massa ainda sem fermento antes de ela enchar, embrulharam nas suas vasilhas e levaram enrolada na roupa, nos ombros. Repara nesse detalhe do pão, porque ele guarda uma coisa bonita. Aquele pão achatado sem fermento virou a lembrança permanente da pressa daquela noite. O pão de quem não teve tempo nem de esperar a massa crescer, porque a liberdade chegou e não dava pra perder um mim e então o povo se pôs a caminho. O texto até dá um número, eram cerca de 600 mil homens a pé, sem contar as mulheres e as crianças. Um povo inteiro, gigantesco, saindo junto no meio da noite e não foram sozinhos.

O texto diz que uma multidão de outras pessoas saiu junto com eles, gente de outros povos que tinha vivido ali no ovo e que resolveu ir embora também atrás daquela esperança e levaram seus rebanhos, suas ovelhas, seu gado, uma quantidade enorme de animais. Então o texto faz uma conta que pesa. Ele diz. O tempo que os filhos de Israel moraram no Egito foi de 430 anos e aconteceu que, no fim desses 430 anos, naquele mesmo dia, todo o exército do Senhor saiu da terra do Egito. Naquele mesmo dia, como se um AQ marcada lá no fundo do tempo e ela tivesse finalmente chegado. E aí o texto chama essa noite de uma coisa linda.

Ele diz que foi uma noite de vigília em honra ao Senhor. Uma noite pra ficar acordado, lembrando, e manda que, daquele dia em diante todos os anos, na mesma data, o povo se reúna pra celebrar aquela noite, pra contar de novo a história, pra comer o cordeiro e o pão sem fermento. Pra nunca esquecer, essa é a páscoa. A festa de lembrar a noite em que um povo escravo virou um povo livre. E Deus deu até uma instrução sobre como celebrar. Ele disse que era pra ser uma festa de família, que quando os filhos crescessem e perguntassem por que a gente faz isso todo ano, os pais deviam contar a história inteira, contar que um dia eles foram escravos e que foram escravados naquela noite.

Repara que coisa interessante. A liberdade não vinha só com a saída do Egito. Ela vinha com a obrigação de lembrar, de contar, de passar a história adiante, geração após geração, pra que nenhum filho nascesse achando que sempre tinha sido livre, como se a liberdade caísse do céu de graça. Eu fico pensando muito nesse pedido de lembrar, porque seria tão natural e contrário. 430 anos de escravidão. Era de imaginar que aquele povo ia querer apagar tudo aquilo. Virar a página. Nunca mais falar no assunto. Nunca mais lembrar da dor. Mas o que eles foram chamados a fazer foi o oposto.

Foram chamados a lembrar todo ano. A sentar com os filhos e contar, olha, a gente já foi escravo. A gente já esteve preso. E a gente foi tirado de lá. E eu acho que essa sabedoria é enorme nisso. Porque quem esquece de onde saiu, esquece o tamanho da liberdade que tem. Quem nunca olha pra trás, pra noite escura de onde veio, começa a achar que a luz onde tá agora sempre esteve ali, que é normal, que é pouco. A lembrança da escravidão não era pra prender o povo no passado. Era pra que ele soubesse o valor exato do chão livre onde pisava agora. A gente faz um cenário muitas vezes.

A gente sai de um lugar difícil. Uma fase ruim. Um relacionamento que prendia. Uma época pesada. E a primeira coisa que a gente quer é esquecer tudo. E aí sem perceber, a gente esquece também o quanto custou sair. E começa a tratar a liberdade que conquistou como se fosse pouca coisa. Lembrar de onde a gente saiu não é viver no passado. É saber dar valor ao presente. Aqui vai uma coisa pra hoje. Pensa numa coisa difícil de onde você já saiu. Um lugar, uma fase, uma situação que te prendia e da qual você se livrou. Pode ser algo grande ou algo pequeno. Hoje, em vez de fugir dessa lembrança, pra um mim e olha pra ela de propósito.

Lembra como era estar lá dentro. E lembra que você não está mais. Não pra reviver a dor. Só pra sentir, por um momento, o tamanho da liberdade que você tem agora. E que talvez você tenha começado a achar normal demais. Porque a Páscoa não foi a festa de esquecer o Egito. Foi a festa de lembrar dele todo ano. Pra nunca mais tratar a liberdade como se fosse pouca coisa.