A travessia do Mar Vermelho · Êxodo 13:17–14:31

A Biblia · Temporada 2 · Episódio 11 de 23 — em ordem cronológica

Você está encurralado: um mar intransponível à frente, um exército implacável atrás. Parece o fim, mas a verdadeira saída nunca esteve onde você imaginou.

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Transcrição

Imagina que você finalmente conseguiu fugir. Depois de uma vida inteira preso, você corre, e aí você chega na frente e vê uma parede de água. Um mar inteiro, sem barco, sem ponte, sem volta, e quando você olha para trás, o exército que te perseguia já está chegando, encurralado, mar na frente, inimigo atrás. É exatamente aqui que esse povo se viu. E o que aconteceu depois é uma das cenas mais impressionantes de toda a Bíblia. Deixa eu te contar como eles chegaram nesse aperto. Lembra que o povo de Israel tinha passado a vida inteira escravizado no Egito, trabalho forçado, sofrimento, geração após geração.

E depois de muita coisa acontecer, depois de dez pragas, o faraó finalmente deixou eles irem embora. Milhares de pessoas, com seus filhos, seus animais, o que conseguiram carregar, saindo enfim, livres. Mas tem um detalhe que o texto faz questão de contar. Deus não levou eles pelo caminho mais curto. Tinha um atalho, uma estrada que ia direto para a terra prometida, mas Deus não levou por ali. Por quê? O texto explica. Porque por aquele caminho eles iam encontrar guerra logo de cara. E um povo que acabou de sair da escravidão, assustado, ainda não estava pronto para isso. Eles podiam se apavorar e querer voltar correndo para o Egito.

Então Deus levou por um caminho mais longo, dando a volta, em direção ao deserto e ao mar. Isso por um cesta. O caminho mais curto não era o melhor caminho. O atalho ia jogar eles direto numa luta para a qual eles ainda não tinham coração. Às vezes o caminho mais longo é exatamente o que cuida da gente. Mas naquela hora, claro, ninguém entendia. Eles só sabiam que estavam andando para o lado errado, se afastando da terra prometida, em direção a um deserto e ao mar. E tem um detalhe lindo que o texto guarda nesse momento. O Moisés levou consigo os ossos de um homem chamado José.

Lembra do José lá no fim do Egito? Antes de morrer? Muito tempo antes. Ele tinha pedido uma coisa. Quando vocês saírem daqui, levem meus ossos com vocês. E eles levaram. Carregaram a promessa de um homem que tinha morrido séculos atrás. Uma promessa que finalmente estava se cumprindo. E tinha uma coisa caminhando na frente deles. De dia, uma coluna de nuvem, mostrando o caminho. De noite, uma coluna de fogo dando luz. Para que eles pudessem andar de dia e de noite. Essa coluna nunca saía da frente do povo. Era como uma presença visível dizendo "eu tô aqui, eu vou na frente, é por aqui".

Agora, do outro lado, no Egito, o faraó mudou de ideia. Sabe quando a pessoa toma uma decisão na raiva e depois se arrepende? Foi mais ou menos isso. Ele olhou em volta e pensou "o que foi que eu fiz?". Deixei todos os meus escravos irem embora. Quem vai fazer o trabalho agora? Quando ele juntou o exército dele, os melhores carros de guerra, os cavalos, os soldados, e saiu atrás do povo para trazer eles de volta à força. E foi assim que os israelitas, acampados perto do mar, levantaram os olhos e viram o exército do Egito vindo na direção deles. O pavor tomou conta. As pessoas começaram a gritar.

E olhe o que elas falaram para o Moisés, porque essa frase diz muito sobre o coração humano. Eles disseram "não tinha sepultura no Egito?". Foi por isso que você nos trouxe para morrer no deserto? Era melhor a gente continuar escravo do que morrer aqui. Pensa nisso, eles estavam livres, pela primeira vez na vida, livres. E mesmo assim, no primeiro aperto, o que veio na cabeça foi. Era melhor a escravidão. Pelo menos a escravidão a gente conhecia. E o Moisés responde com uma frase que eu acho uma das mais lindas de toda essa história. Ele diz "não tenham medo". Fiquem firmes e vejam o que Deus vai fazer hoje.

Esses egípcios que vocês estão vendo agora, vocês nunca mais vão ver. Fiquem quietos. Vocês não precisam nem lutar. Fiquem quietos. Que pedido estranho na hora do desespero. E aí Deus fala com o Moisés. E o que ele diz é quase um empurrão. Ele diz "por que você está clamando para mim?". Diz para o povo que siga em frente. Siga em frente. Para onde? Para o mar. Para a parede de água. E aí vem a ordem. Nos diz para o Moisés. Levanta a tua mão sobre o mar e divide as águas para que o povo passe no meio dele em chão seco e enquanto isso uma coisa muda. Aquela coluna de nuvem que ia na frente do povo se moveu, foi para trás.

Ficou entre o exército do Egito e o povo de Israel. E o texto diz uma coisa linda. Pro lado dos egípcios era escuridão. Pro lado de Israel era luz. A mesma nuvem escura de um lado, iluminada do outro. E aquilo segurou os egípcios a noite inteira. Eles não conseguiram chegar perto. E então Moisés estendeu a mão sobre o mar. E Deus mandou soprar um vento forte do leste. A noite inteira. Um vento tão forte que empurrou as águas. E o mar se abriu. As águas se separaram para um lado e para o outro. E no meio, ficou o chão seco. Pensa nessa imagem. Uma estrada no meio do mar. Paredes de água de cada lado.

E um povo inteiro. Milhares de pessoas atravessando, no escuro, com a água em pé do lado esquerdo e do lado direito. E eles atravessaram. Todos. Pisando em chão seco no meio do oceano. Quando os egípcios perceberam, foram atrás. Entraram com os carros de guerra, com os cavalos, no meio do mar aberto, perseguindo o povo. Mas aí as coisas começaram a dar errado para eles. As rodas dos carros começaram a atolar, a sair do lugar. E eles entenderam, tarde demais, o que estava acontecendo. Eles disseram, vamos fugir, porque Deus está lutando por esse povo. Mas já era tarde, porque Deus falou de novo com o Moisés.

Estende a mão sobre o mar. E quando o Moisés estendeu a mão, na hora que o dia começava a clarear, as águas voltaram. Voltaram com tudo. Pro lugar onde estavam antes. E o exército inteiro do Egito, que tinha entrado no meio do mar, ficou no caminho da água que voltava. O mar cobriu os carros, os cavalos, os soldados. Não sobrou nenhum. E o povo de Israel já estava do outro lado, em segurança, olhando para trás. O texto termina essa parte com uma frase simples. Diz que naquele dia o povo viu o poder de Deus e teve temor e confiou. Eles atravessaram a noite inteira no medo e chegaram do outro lado vivos.

Eu fico pensando muito nesse momento em que eles estavam encurralados. Porque a coisa mais natural do mundo naquela hora era olhar para o mar e pensar. Acabou. Não tem saída. De um lado a morte e do outro a morte. Mas a saída não estava nem na frente e nem atrás. A saída estava num lugar onde ninguém olha. Através. Bem no meio daquilo que parecia o fim. E tem outra coisa que me pega. O Moisés disse "Fiquem quietos, Deus vai lutar por vocês". Mas depois Deus disse "Agora andem". Tem um Egito ficar quieto e confiar. E tem um adida ao passo mesmo com a água na frente. As duas coisas, juntas, confiar e andar ao mesmo tempo.

E o que eu mais admiro é que o primeiro a colocar o pé na lama do mar não tinha garantia de nada. A água estava aberta sim. Mas você confiaria numa parede de água segurando em pé enquanto você passa embaixo. Eles passaram mesmo assim. E tem ainda uma coisa que eu acho fácil de passar batido. Aquele povo passou a noite inteira com medo. Não foi uma travessia rápida e tranquila. Foi no escuro, com o vento forte oivando, com o inimigo logo atrás, com a água em pé dos dois lados parecendo que ia desabar a qualquer momento. A coragem deles não foi a ausência de medo. Foi andar com o medo do lado.

Foi continuar pisando. Um pé na frente do outro, mesmo com o coração disparado. Coragem quase nunca é não sentir medo. É só não deixar o medo decidir se você anda ou não. Aqui vai uma coisa pra hoje. Tença numa situação na sua vida em que você se sente encurralado. Um problema que parece sem saída. De um lado uma coisa difícil, do outro outra coisa difícil e nenhuma parece dar certo. E hoje, só por um momento, considera uma possibilidade que você ainda não tinha olhado. Não há da frente, não há de trás. Há do meio. Aquele caminho que parece impossível que você nem cogitou porque parece loucura.

Você não precisa atravessar o mar inteiro hoje. Só precisa dar o primeiro passo na areia molhada. O resto do caminho costuma se abrir enquanto a gente anda.