O cântico de Moisés e Miriã · Êxodo 15:1–27

A Biblia · Temporada 2 · Episódio 12 de 23 — em ordem cronológica

Você reza no aperto, mas esquece de celebrar a vitória. A força pra próxima batalha não se encontra na súplica, e sim na festa que você se recusa a fazer hoje.

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Transcrição

Tem uma coisa que a gente quase sempre esquece de fazer. A gente reza quando tá no aperto. A gente pede quando tá com medo. Mas quando a coisa dá certo, a gente já tá correndo atrás do próximo problema. Esse povo, no entanto, parou. Eles tinham acabado de escapar da morte por um tris. E a primeira coisa que fizeram, antes de qualquer outra, foi cantar. Deixa eu te contar. Lembra que o povo de Israel tinha acabado de atravessar o mar. As águas se abriram, eles passaram em chão seco, e o exército que perseguia eles ficou pra trás, coberto pelas águas que voltaram. Eles estavam do outro lado, vivos, livres de verdade, pela primeira vez.

E aí, naquele momento, o Moisés e o povo todo começaram a cantar uma música. Não é um detalhe pequeno, é a primeira música que aparece na Bíblia. E ela nasce assim, do alívio de quem escapou. A música começa mais ou menos assim. "Vou cantar pra Deus, porque Ele venceu de forma gloriosa. Ele é a minha força e a minha canção. Ele se tornou a minha salvação." Repara nessa frase. "Ele é a minha força e a minha canção. Não é só Ele me deu força. É, Ele é a minha força. Como se a coragem deles não viesse mais de dentro deles, mas de fora, de alguém maior?" E a música vai contando, em forma de poesia, o que tinha acabado de acontecer.

Fala dos carros de guerra do faraó que foram lançados no mar. Fala das águas que se juntaram com o sopro de um vento. Fala do inimigo que dizia "vou perseguir, vou alcançar, vou dividir o que conquistar." E que no fim foi engolido pelo mar como chumbo nas águas profundas. Repara como é a estrutura da música. Primeiro eles cantam a ameaça. O inimigo se gabando, dizendo tudo o que ia fazer com eles. E logo em seguida cantam o que de fato aconteceu. O inimigo afundando como uma pedra. É como se a música colocasse lado a lado o medo que eles sentiram e o desfecho real. Tudo aquilo que parecia que ia destruir eles.

Virou letra de uma canção de vitória. O que de noite era pavor. De manhã virou poesia. É uma música de gente que olha pra trás e não acredita que escapou. E tem um trecho que vira uma pergunta. Eles cantam. "Quem é como você, Senhor? Quem é como você, grandioso e santo? Não tem ninguém igual." E a música não para no passado. Ela começa a sonhar com o futuro. Eles cantam que Deus vai guiar esse povo que ele resgatou. Que vai levar eles até um lugar de descanso. Que vai plantar eles numa terra própria. Eles ainda nem chegaram lá, mas já estão cantando como se fosse certo. Quando a música termina, acontece uma coisa bonita.

Tem uma mulher chamada Miriam. Ela era irmã do Moisés. E o texto chama ela de profetiza. Uma pessoa que falava por Deus. A Miriam pega um pandeiro nas mãos. Um instrumento para fazer barulho, marcar o ritmo, dançar. E todas as mulheres saem atrás dela, também com pandeiros, dançando. Pensa nessa cena. Acabaram de fugir de um exército inteiro. Estão no meio do deserto, sem casa, sem nada decidido sobre o futuro. E o que elas fazem? Dançam, batem pandeiro, comemoram com o corpo inteiro. E a Miriam canta de volta para elas. Repitindo o começo da música, cantem para Deus, porque ele venceu de forma gloriosa.

Foi a primeira festa de um povo livre, mas a história não termina na festa. E é aí que ela fica interessante de verdade. Porque logo depois disso, o povo entrou no deserto para valer e começaram a andar. Um dia, dois dias, três dias andando no deserto e não acharam água. Três dias sem água, no deserto, com crianças, com animais, com idosos. Dá para imaginar a sede. E aí eles chegam num lugar onde finalmente tem água. Que alívio, né? Só que tinha um problema. A água era amarga. Não dava para beber. Tão amarga que eles deram para aquele lugar um nome que quer dizer amargura.

E olha como o povo virou rápido. A pouco estavam cantando e dançando, dizendo que Deus era a força deles. Agora estão reclamando com o Moisés. O que a gente vai beber? Sabe, eu acho isso profundamente humano. A gente também é assim. A alegria de ontem não paga a sede de hoje e Moisés então clamou a Deus. Repara que ele não brigou de volta com o povo. Ele levou a reclamação para cima, para Deus. E Deus mostrou para ele um pedaço de madeira, uma árvore. O Moisés jogou aquilo na água. E a água amarga ficou doce. Virou água boa de beber. Tença nessa imagem por um momento. A água não mudou de lugar.

Era a mesma fonte, a mesma poça. O que mudou foi o que entrou nela. Uma coisa de fora caiu ali dentro e transformou o gosto de tudo. A amargura não foi removida. Ela foi adossada. E ali naquele momento Deus disse uma coisa para o povo. Ele disse, mais ou menos, se vocês prestarem atenção em mim, se andarem do jeito certo, eu cuido de vocês. E ele se apresentou com um nome bonito. O Deus que cura você. E depois disso eles seguiram caminhando e chegaram num lugar diferente. Um oasis tinha 12 fontes de água e 70 palmeiras. Um lugar verde no meio do deserto seco. E ali eles acamparam, perto das águas, da água amarga para o oasis.

Foi mais ou menos esse o caminho. Eu fico pensando no contraste dessa história inteira. Primeiro a música, a dança, a celebração. E pouco depois, a sede, a reclamação, a água amarga, a gente costuma achar que depois de uma grande vitória vem a paz, que uma vez resolvido o problema grande, acabou. Mas não é assim que funciona. Eles atravessaram o mar e três dias depois estavam com sede de novo. A vida segue dando aperto, mesmo depois das grandes vitórias. E olha quem puxou a celebração. A Miria. Uma mulher. O texto chama ela de profetiza, dá um instrumento na mão dela, e faz dela a primeira pessoa da bíblia a liderar um louvor, num tempo em que a voz das mulheres quase não aparecia.

É ela quem pega o pandeiro e puxa todas as outras para dançar. Não é um detalhe pequeno. É a Irmã do Moisés liderando o povo na alegria. Mas tem uma coisa que eu não consigo deixar de notar. Eles cantaram, antes de tudo dar certo para sempre, antes de estarem seguros, antes de saber se ia ter água amanhã. Eles pararam para agradecer o que já tinha acontecido. E eu acho que tem uma sabedoria escondida aí. Quem aprende a comemorar o que deu certo, carrega uma reserva de força para quando vier a próxima sede. Aqui vai uma coisa para hoje. Pensa numa coisa que deu certo na sua vida.

Não precisa ser grande, pode ser pequena. Uma conta que você conseguiu pagar, uma conversa difícil que você teve coragem de ter. Um dia que simplesmente foi bom, e hoje, em vez de já correr para o próximo problema, para um momento. Só um. E reconhece, em voz alta ou só por dentro. Isso aqui deu certo. Você não precisa de pandeiro, nem de música. Miriam usou um, mas a festa de verdade começa quando a gente para para perceber que escapou de alguma coisa, e que ainda está aqui.