O maná e as codornizes no deserto · Êxodo 16:1–36

A Biblia · Temporada 2 · Episódio 13 de 23 — em ordem cronológica

E se o medo de estocar o amanhã fizesse o seu pão de hoje apodrecer? No deserto, uma comida misteriosa nos obriga a viver um dia de cada vez.

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Transcrição

Imagina acordar um dia, abrir a porta de casa e o chão inteiro estar coberto de comida, comida que ninguém plantou, que ninguém comprou, que simplesmente apareceu durante a noite como orvalho. Imagina que isso se repete todo santo dia, por 40 anos, parece história de fada, mas é uma das partes mais estranhas e mais bonitas da jornada desse povo no deserto. Deixa eu te contar. Lembra que o país Israel tinha saído do Egito, atravessado o mar e agora estava caminhando pelo deserto. E deserto é deserto, não tem mercado, não tem plantação, não tem nada. E o que eles tinham trazido do Egito começou a acabar.

A comida foi diminuindo e a fome chegou e aí de novo o povo começou a reclamar com o Moisés e o irmão dele, o Arão. E olha de novo o que eles disseram, porque é a mesma coisa de sempre, só que com outro tema. Eles disseram, ah, era melhor a gente ter morrido lá no Egito, lá pelo menos a gente sentava perto das panelas de carne e comia pão até se fartar. Vocês trouxeram a gente para esse deserto para matar todo mundo de fome. De novo a saudade do Egito, de novo era melhor antes, tinham esquecido que no Egito eram escravos. A barriga vazia faz a gente esquecer um coisa e olha que curioso.

A memória deles tinha enfeitado o passado. Panelas de carne, pão até se fartar. Será que era bem assim mesmo para um povo de escravos? A fome de agora pintou ontem de uma cor mais bonita do que ele realmente teve. A gente faz muito isso. No meio de um deserto qualquer Egito parece um paraíso. E aí Deus fala com o Moisés e olha o que ele diz. Ele não fica bravo de cara. Ele diz eu vou fazer chover pan do céu para vocês. Pan do céu. Pensa nessa imagem. Mas tinha uma regra junto. Deus disse todo dia o povo vai sair e juntar só o que precisa para aquele dia. Nem mais, nem menos. Só o suficiente para um dia.

E tinha um motivo nessa regra. Deus disse que era para testar uma coisa simples. Se o povo confiava ou não. Confiava que amanhã ia ter de novo. Ou se desesperava de estocar tudo hoje. E aconteceu assim. A tardinha vieram umas aves, umas codornices em bando e cobriram o acampamento. E o povo teve carne para comer naquela noite. E de manhã, quando o orvalho da noite secou, ficou no chão uma coisa fina, mildinha como flocos. Parecia geada cobrindo o deserto. O povo olhou aquilo e perguntou um para o outro. O que é isso? Eles nunca tinham visto nada igual. E a palavra que eles perguntaram para perguntar o que é isso virou o nome daquela comida.

Por isso ela ficou conhecida como Maná. Maná quer dizer mais ou menos o que é isso. E o Moisés explicou. Isso é o pão que Deus deu para vocês comerem. O Maná era branquinho. Parecia uma sementinha. E tinha gosto de mel. E o povo saía toda manhã e juntava. E tinha um jeito certo de juntar. Cada pessoa pegava mais ou menos a quantidade que dava para cada um da família. E o texto conta uma coisa curiosa. Quem juntava muito na hora de medir não sobrava nada além do que precisava. E quem juntava pouco na hora de medir não faltava. No fim, todo mundo tinha exatamente o suficiente. O ganancioso não conseguia acumular.

Quem pegou pouco não passou fome. Era como se a própria comida ensinasse uma coisa. Ali ninguém tinha muito mais do que precisava. E ninguém ia ter menos. Mas, como sempre, teve gente que não obedeceu a regra. Deus tinha dito "Junte em sol o dia um dia". Mas teve gente que pensou. E se amanhã não tiver, melhor guardar um pouco. E guardaram o Maná para o dia seguinte. No outro dia, o Maná guardado tinha estragado. Criou bicho. Ficou fedendo. Não dava mais para comer. Sabe o que manava. Que não dava para estocar a confiança. Cada dia tinha o pão daquele dia. E só, mas tinha uma exceção.

Uma exceção importante. Seis dias eles juntavam o Maná. Mas no sexto dia, Deus mandou juntar o dobro. Por quê? Porque o sétimo dia era um dia de descanso. Um dia de parar, de não trabalhar. O dia que eles chamavam de sábado. Então no sexto dia eles juntavam para dois dias. E olha que interessante. O Maná do sexto dia, guardado para o sábado, não estragava. Não criava bicho. Não fedia. O mesmo Maná que estragava em qualquer outro dia. No dia do descanso se conservava. Mas de novo, teve gente que não acreditou. No sábado de manhã, algumas pessoas saíram para procurar Maná no chão.

E não acharam nada. Naquele dia não caía. Era para descansar e comer o que foi juntado. E o povo comeu esse Maná todos os dias. E teve mais uma coisa. Deus mandou o Moisés guardar um pouco de Maná dentro de um pote. Para sempre. Não para comer. Para lembrar. Para que as próximas gerações, os filhos e os netos pudessem olhar aquele pote e saber, foi assim que Deus alimentou nossos pais no deserto todo dia por anos. Era um pedacinho de comida virado memória. Para esquecer. O texto conta que isso durou 40 anos. Toda a caminhada pelo deserto até eles chegarem numa terra habitada. 40 anos de uma comida que aparecia toda manhã e que eles tinham que coletar a cada novo dia.

40 anos. Pensa no tamanho disso. Não foi um milagre de um dia daqueles espetaculares que todo mundo conta. Foi um milagre pequeno e repetido. Milhares de manhã seguidas. Tão constante que normalmente virou rotina. Virou normal. E talvez seja esse o tipo de cuidado mais fácil de não enxergar. O que se repete todo dia. Calado. Sem alarde. Eu fico fascinado com essa regra de juntar só o de um dia. Porque pensa bem. Era a coisa mais natural do mundo querer guardar. Estavam no deserto sem garantia de nada. Quem não ia querer um estoque. Um pouquinho a mais. Só por segurança. Mas a maneira justamente o contrário.

Era aprender a viver um dia de cada vez. A confiar que o amanhã teria o pão do amanhã. A não carregar hoje o peso de uma semana inteira. E tem uma coisa que me toca demais. O maná que sobrava por medo. Estragava. Mas o maná que era guardado por confiança. Para honrar um dia de descanso. Esse se conservava. A diferença não estava no maná. Estava no motivo de enxergar. Um era medo. O outro era confiança. A gente vive cheio de medo do amanhã. Estoca preocupação. Carrega problemas que ainda nem chegaram. E muito do que a gente junta por medo só apodrece dentro da gente. Aqui vai uma coisa para hoje.

Pensa numa preocupação que você tá carregando que não é de hoje. Uma coisa que talvez aconteça semana que vem. Meis que vem. Ou que talvez nem acessa. Mas que você já tá carregando agora. Hoje. No peito. E hoje. Só por hoje. Tenta deixar essa preocupação para o dia em que ela realmente chegar. Se ela chegar. Como um maná. Pega só o pão de hoje. O dia amanhã. Você pega amanhã. Você não precisa resolver a vida inteira de uma vez. Ninguém junta o maná de 40 anos numa manhã só. Só o de hoje. Amanhã o chão amanhece coberto de novo.