Tem uma coisa que ninguém te conta sobre liderar. Não é o inimigo lá na frente que mais cansa, é a gente que está do seu lado. E nesse dia, o homem que tirou um povo inteiro da escravidão ouviu de novo a mesma reclamação. Só que dessa vez, a coisa quase virou um motim. Eles quase apedrejaram ele. Deixa eu te contar. Lembra que o povo de Israel estava caminhando pelo deserto. Deus já tinha dado comida, aquele maná que caía toda manhã. Mas agora veio outro problema e talvez o pior de todos no deserto, a sede. Eles chegaram num lugar para acampar e não tinha água, nada. E você sabe o que é a sede no deserto com sol em cima, com crianças, com os animais.
E o povo, de novo, foi para cima do Moisés. Mas dessa vez com raiva de verdade, eles disseram "Da água para a gente beber". O Moisés respondeu "Por que vocês estão brigando comigo? Porque vocês estão testando Deus", mas o povo estava com a sede falando mais alto. E eles foram ainda mais longe, reclamaram "Pra que você nos tirou do Egito? Foi para matar a gente e os nossos filhos e os nossos animais de sede e olha o tamanho do desespero do Moisés". Ele clamou para Deus assim "O que é que eu faço com esse povo? Falta pouco para eles me apedrejarem". Pensa nisso. O homem que abriu o mar estava com medo do próprio povo.
As pessoas que ele tinha libertado estavam quase matando ele. E aí Deus responde. E a resposta é estranha, do jeito que as respostas de Deus costumam ser nessa história. Deus diz para o Moisés "Passa na frente do povo, leva contigo alguns dos líderes mais velhos e pega na mão aquele bastão, o mesmo bastão com que você bateu nas águas do Rio lá no Egito". E aí vem a parte estranha. Deus diz "Olha, eu vou estar parado ali em cima de uma rocha, você vai bater na rocha e vai sair água dela e o povo vai beber, bater numa pedra para sair água, no meio do deserto, faz tão pouco sentido quanto construir um barco sem chuva ou andar em direção a um mar para escapar de um exército".
Mas o Moisés fez. Na frente dos líderes do povo, ele bateu na rocha com o bastão. E a água saiu, da pedra, a água de verdade, para um povo inteiro beber. E o Moisés deu aquele lugar dois nomes que querem dizer mais ou menos briga e teste. Por causa da reclamação do povo e por causa de uma pergunta que eles tinham feito ali, uma pergunta meio assustadora. Eles tinham perguntado "Será que Deus está no meio da gente?" ou "Não". No meio de toda aquela água que tinha acabado de jorrar da pedra, a dúvida deles era essa. "Será que Deus está com a gente?" Para nessa pergunta um cês. Eles tinham visto o mar se abrir, tinham comido pão que caía do céu toda manhã.
E mesmo assim, no primeiro dia de sede, a pergunta voltou "Será que ele está mesmo com a gente?" É impressionante como o medo apaga o que a gente já viu. Cada novo aperto e a gente esquece tudo o que já foi resolvido antes, como se fosse a primeira vez. E a história continua. Logo depois da água, veio a guerra. Apareceu um povo chamado Amalek e esse povo veio atacar os israelitas no deserto, sem motivo nobre, atacando justo um povo cansado, com fome e sede no meio do caminho. E aí o Moisés chama um homem. O nome dele era Josué. Guarda esse nome, porque ele vai ser muito importante mais pra frente nessa história toda.
O Moisés diz pro Josué, escolhe alguns homens e vai lutar contra Amalek amanhã. Enquanto isso, eu vou subir ali no alto do monte, com o bastão de Deus na mão. E no dia seguinte foi exatamente isso. O Josué foi lá embaixo lutar. E o Moisés subiu o monte, com mais dois homens, o irmão dele a Arão e um amigo chamado Ur. E aí acontece uma das cenas mais curiosas dessa história inteira. Enquanto Moisés segurava as mãos levantadas pro alto, com o bastão, o povo de Israel vencia a batalha lá embaixo. Mas quando Moisés cansava e abaixava as mãos, o inimigo começava a vencer. Pensa nisso.
A batalha lá embaixo dependia de uma coisa lá em cima, de um homem com os braços levantados. Mas o Moisés era um homem, e braço de gente cansa. Depois de um tempo ele não conseguia mais manter as mãos no alto. E aí o Arão e o Ur fizeram uma coisa simples e linda. Eles pegaram uma pedra, colocaram pro Moisés sentar. E aí um de cada lado eles seguraram as mãos dele. Um segurava um braço, o outro segurava o outro braço. E as mãos do Moisés ficaram firmes, levantadas, até o sol se pôr. Pensa na cena de longe, lá embaixo no vale a batalha pra valer, espadas, gritaria gente lutando pela vida.
E lá em cima, no alto do monte, três homens, um sentado numa pedra, exausto. E dois, um de cada lado segurando os braços dele no ar. Nenhum dos três embaixo, no meio da luta. E mesmo assim, o que acontecia lá em cima, decidia tudo lá embaixo. E foi assim que o Josueve venceu a batalha. Não foi só com a espada lá embaixo. Foi com três homens no monte. E dois deles segurando os braços do terceiro pra ele não desabar. Eu acho essa imagem uma das mais bonitas de toda a Bíblia. Porque a gente tem essa ideia do líder forte, do herói que aguenta tudo sozinho, que nunca cansa, e o Moisés era o maior líder daquele povo.
E mesmo assim, sozinho, ele não dava conta. Os braços dele caíram. Ele precisou de uma pedra pra sentar e de dois amigos pra segurar. E não teve vergonha nenhuma nisso. A vitória não foi menos vitória porque ele precisou de ajuda. Pelo contrário, a ajuda foi parte da vitória. A gente vive achando que pedir ajuda é fraqueza, que segurar tudo sozinho é força. Mas olha o que essa história mostra. As vezes a coisa mais importante que alguém pode fazer não é vencer a batalha lá na frente. É segurar o braço de quem tá cansado pra que ele não desabe. E tem outra coisa que eu acho fácil ignorar.
Foi o dia inteiro. Arão e Ur não seguraram os braços do Moisés por cinco min. Foi do começo da batalha até o sol se pôr. Ajudar de verdade quase nunca é um gesto rápido e bonito. Quase sempre é uma coisa sem glória nenhuma, repetida, cansativa, ficar do lado de alguém pelo tempo que durar o aperto. Ninguém vai escrever música sobre quem segura braço, mas sem eles não tem vitória. Aqui vai uma coisa pra hoje. Pensa em alguém ao seu redor que tá segurando muita coisa, uma pessoa que parece forte, que parece dar conta de tudo, mas que talvez esteja com os braços cansados sem ninguém perceber.
Um amigo, um familiar, um colega e hoje faça uma coisa pequena por essa pessoa. Uma mensagem, uma ajuda concreta, um como você tá de verdade, segura um braço dela mesmo que ela não tenha pedido. Você não precisa vencer a batalha por ninguém. Arão e Ur não lutaram. Eles só sentaram do lado do Moisés e seguraram os braços dele até o sol se pôr. E isso mudou o resultado de tudo.