Imagina uma escuridão tão grossa que você consegue quase tocar nela com a mão. Uma escuridão em que ninguém vê ninguém. Em que ninguém levanta da cadeira por três dias inteiros. Porque nem dá pra saber onde ficar a porta. Foi assim que o Egito ficou. E ainda assim não foi a escuridão que quebrou o rei. Deixa eu te contar como a gente chega nesse ponto. Você já conhece a história. O Moisés, em nome de Deus, pedindo para o Faraó, o rei do Egito, soltar o povo de Israel da escravidão. E o Faraó dizendo não. De novo e de novo, mesmo com praga atrás de praga caindo sobre o país, o rio em sangue, as rãs, os piolhos, as moscas, a doença nos animais, as feridas na pele e o coração do rei, sempre duro.
Toda vez que o aperto passava, ele esquecia a promessa. Agora vem as três últimas. E elas são as maiores. Vem a praga do granizo. Deus manda um aviso novo dessa vez e repara como é justo. Ele diz para o Faraó. Amanhã, nessa hora, vai cair um temporal de gelo como o Egito nunca viu. Então recolham, quente vergado e gente no campo. Traz para dentro de casa, para debaixo de um teto, porque o que ficar lá fora vai morrer. Olha que detalhe. No meio do julgamento, vem um aviso para salvar quem quisesse ouvir. E o texto diz que alguns dos servos do Faraó já tinham aprendido a temer a palavra de Deus e correram para recolher tudo.
Outros não ligaram e deixaram seus animais e seus empregados no campo e veio o granizo. Pedras de gelo caindo do céu, com trovões e fogo correndo pelo chão. Foi o pior temporal da história daquela terra. Quebrou as árvores, destruiu as plantações, matou tudo o que tinha ficado no campo, menos num lugar. Na terra de Gossem, onde morava o povo de Israel, não caiu nenhuma pedra de gelo. Lá ficou tudo em paz, e aí o Faraó faz uma coisa que não tinha feito antes. Ele chama o Moisés e diz, dessa vez eu pequei. Deus é justo, e eu e o meu povo é que somos errados. Para com esse temporal e eu deixo vocês irem.
Pela primeira vez ele admite o erro com a boca. O Moisés ora, o granizo para. E, no instante em que parou, o Faraó endureceu o coração outra vez. Ele tinha dito a frase certa, mas só com a boca. E vem a praga dos gafanhotos. E agora os próprios conselheiros do rei perdem a paciência com ele. Eles dizem, até quando esse homem vai ser uma armadilha para a gente, deixa esse povo ir embora. Você ainda não percebeu que o Egito está arruinado. Os homens dele já estavam implorando, e vieram os gafanhotos. Uma nuvem deles tão grande que escureceu o chão. Eles comeram tudo o que o granizo tinha deixado.
Cada folha, cada talo, cada grão, não sobrou nada de verde em todo o Egito. O Faraó chama o Moisés às pressas. Eu pequei, perdoa, tira essa praga. O vento leva os gafanhotos para o mar. E, de novo, assim que o alívio chegou, o coração dele endureceu. E aí vem a praga das trevas. Sem aviso dessa vez. O Moisés estende a mão para o céu. E cai sobre o Egito uma escuridão densa, espessa, que durou três dias. O texto descreve de um jeito impressionante. Diz que ninguém via o outro, que ninguém se levantava do lugar onde estava, por três dias. Era uma escuridão tão pesada que parava a vida inteira, e, de novo, a linha.
Onde morava o povo de Israel, tinha luz. Cada um na sua casa, enxergando, vivendo normal, enquanto o resto do país estava submerso na noite. O Faraó chama o Moisés uma última vez. E ele cede quase tudo. Ele diz "vão, levem as crianças, levem todo mundo, só deixem os rebanhos pra trás". Quase. Faltava só um pedacinho. Ele queria soltar, mas ainda queria segurar alguma coisa na mão, alguma garantia, algum controle. E o Moisés diz "não, vamos levar até o último animal, nenhum casco vai ficar pra trás". Aí o Faraó explode. Ele grita pro Moisés "sai da minha frente". E cuidado, no dia em que você ver a minha cara de novo, você morre.
E o Moisés responde "calmo, você falou certo, eu nunca mais vou ver a sua cara, eu fico pensando muito nesse rei, repara no que ele fez na praga do Granizo e de novo nas trevas". Ele já tinha quase chegado lá. Ele disse "eu pequei", ele disse "vão, levem todo mundo". Ele tava a um passo, a um único passo, mas ele sempre queria guardar alguma coisa. Os rebanhos, uma garantia, um pedacinho de controle, ele nunca conseguia abrir a mão por completo. E é isso que me pega nessa parte da história. O Faraó não era um homem que nunca cedia, ele cedia o tempo todo, pela metade. Ele dizia sim com a boca e segurava firme com a mão.
E uma entrega pela metade não é entrega nenhuma, é só uma forma mais educada de continuar dizendo "não, a gente faz muito isso, a gente diz que vai mudar, mas guarda uma cedinha". Ele diz que perdoou, mas segura uma mágoa de reserva. Diz que vai deixar uma coisa pra trás, mas leva um pedacinho dela no bolso, por garantia, e aí fica preso naquele lugar do Faraó, sempre quase saindo, nunca saindo de verdade. O que entregar de verdade dá medo. Significa ficar sem o controle, sem a garantia, sem o pedacinho que a gente guardava. E é justamente esse pedacinho que prende a gente no escuro.
Aqui vai uma coisa pra hoje. Pensa numa coisa que você já decidiu mudar ou largar, mas da qual você ainda guardou um pedacinho por garantia, aquele plano bem escondido, aquele contato que você não apagou, aquela mágoa que você diz que soltou, mas ainda visita de vez em quando. Hoje só identifica qual é esse pedacinho. Não precisa largar ele agora, só dá um nome pra ele e admite, pra você mesmo que ele ainda tá na sua mão, porque às vezes não é a coisa grande que prende a gente no escuro. o pedacinho que a gente jurou que tinha soltado e não soltou.