As pragas continuam — piolhos, moscas e doenças · Êxodo 8:16–9:12

A Biblia · Temporada 2 · Episódio 7 de 23 — em ordem cronológica

Imagine seus próprios aliados virando as costas e admitindo: 'Isso é o dedo de Deus'. O que acontece quando o orgulho é a última coisa a ceder, mesmo diante da catástrofe?

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Transcrição

Tem um momento nessa história em que os próprios feiticeiros do rei param de tentar copiar os milagres. Eles olham para a mão deles, cheia de feridas, e dizem para o Faraó uma frase que ninguém esperava ouvir da boca deles. Eles dizem "isto aqui é o dedo de Deus". Os homens do próprio rei viraram para o lado de quem o rei estava combatendo. E mesmo assim o rei não ouviu, deixa eu te contar como a gente chega nisso. Lembra do que estava acontecendo no Egito. O Moisés e o irmão dele, o Arão, estavam indo até o Faraó, o rei mais poderoso da terra, pedir para ele soltar o povo de Israel da escravidão.

E o Faraó dizia não, de novo e de novo, já tinha vindo o Rio virando sangue. Já tinha vindo a praga das rãs. E o rei, toda vez que o aperto passava, voltava a endurecer o coração e dizer não. Agora as coisas vão apertar mais. Vem a terceira praga, Deus manda o Arão bater com o bastão no pó do chão e o pó vira piolho. O pó da terra inteira do Egito vira uma nuvem de bichinhos miúdos que se grudam nas pessoas e nos animais. Em todo o mundo, cobrindo a pele, andando no corpo, sem parar. E aqui acontece uma virada importante. Lembra que até agora os mágicos do Faraó conseguiam imitar os truques, o Rio em Sangue, as rãs? Eles davam um jeito de fazer parecido e isso deixava o Faraó tranquilo, achando que não era nada demais, mas os piolhos eles não conseguiram fazer.

Tentaram e não saiu. A mágica deles bateu no muro e foi aí que os próprios feiticeiros do rei viraram para o Faraó e disseram aquela frase. "Isso é o dedo de Deus." Em outras palavras, "Chefe, isso aqui não é truque, não é coisa que a gente saiba fazer. Isso é poder de verdade, de um Deus de verdade." Mas o coração do Faraó continuou duro. Nem os homens dele conseguiram fazer ele ouvir. Aí vem a quarta praga. E agora aparece um detalhe novo, que vai se repetir até o fim. De manhã cedo, o Moisés espera o Faraó na beira do Rio e dá o recado. Deixa o meu povo ir. Se não deixar, eu vou mandar em chames sobre o teu país.

Núvens e nuvens de moscas e insetos entrando em todas as casas, cobrindo o chão, mas Deus acrescenta uma coisa. Ele diz dessa vez, "vai ser diferente." "Onde mora o meu povo, numa região chamada Gossin, não vai ter nenhum enxame, nenhuma mosca." "Pra você entender que eu, o Senhor, estou aqui no meio dessa terra e que eu faço diferença entre o meu povo e o teu." Repara nesse detalhe, porque ele muda tudo. Até agora as pragas atingiam todo mundo. Agora Deus traça uma linha. De um lado da linha, o caos. Do outro lado, paz. E a linha não é por sorte. É exatamente em cima de onde o povo dele morava.

E foi o que aconteceu. O Egito ficou arruinado pelos enxames. E na terra de Gossin, onde morava Israel, não tinha uma mosca sequer. Aí o faraó cede de novo, do jeitinho dele. Ele chama o Moisés e diz, "tá, vão oferecer sacrifício para o seu Deus." "Mas façam isso aqui dentro do Egito mesmo." E o Moisés diz, "não dá, tem que ser no deserto, três dias de viagem." E o faraó, apertado, concorda, "tá bom, vão para o deserto, mas não vão muito longe." E aí ele faz o pedido que entrega ele por inteiro. Ele diz, "e roguem por mim, roguem por mim." Olha que coisa. O homem que dizia quem é esse Deus para eu obedecer, agora pede para rezarem por ele.

O Moisés ora, os enxames vão embora, não sobram um inseto. E assim que o alívio chegou, de novo, o faraó endureceu o coração e não deixou o povo ir. Aí vem a quinta praga e ela é mais pesada. Deus avisa, se você continuar segurando o meu povo, uma doença grave vai cair sobre os seus animais. Os cavalos, os jumentos, os camelos, o gado, as ovelhas e, de novo, os animais do meu povo não vão ser tocados. No dia seguinte, foi exatamente isso. Os rebanhos do Egito começaram a morrer e os do povo de Israel, nenhum morreu, nenhum só. O faraó até mandou conferir se era verdade. Mandou alguém olhar e sim, do lado de Israel, tava tudo vivo.

Mesmo assim, o coração dele continuou pesado e ele não deixou o povo ir. E vem a sexta praga e essa atinge a pele. Deus manda o Moisés pegar punhados de cinza de um forno e jogar para o alto na frente do faraó. A cinza se espalha como pó fino pelo ar e onde toca, na pessoa ou no animal, vira feridas, feridas abertas, doloridas, em todo o corpo, em todo o Egito. E aí tem um detalhe quase irônico. Os feiticeiros do faraó, aqueles que no começo tentavam copiar os milagres, dessa vez eles nem conseguiram ficar em pé na frente do Moisés, porque eles também estavam cobertos de feridas.

Os homens que duelavam de mágica agora não conseguiam nem aparecer. E o faraó, mais uma vez, não ouviu. Eu fico pensando numa coisa nessa parte da história. Repara no caminho que esse rei está fazendo. Lá no começo, ele tinha os mágicos do lado dele dizendo "Relacha, a gente faz igual". Depois esses mesmos mágicos disseram "isso é o dedo de Deus, não dá pra lutar contra". Depois eles ficaram tão feridos que nem conseguiram aparecer. O mundo inteiro ao redor do faraó foi, aos poucos, dizendo a mesma coisa pra ele. "Para, solta a mão, você não vai ganhar essa". Os conselheiros dele entenderam.

Os animais já tinham morrido. A pele do povo já doía. Todo mundo, menos ele, já tinha percebido qual era o tamanho da força que ele estava enfrentando. Mas o orgulho tem uma capacidade assustadora de ser a última coisa a aceitar a realidade. Tem uma coisa muito humana nisso. Às vezes todo mundo ao nosso redor já enxergou uma verdade sobre a gente, que aquele relacionamento faz mal, que aquele hábito está nos destruindo, que aquele caminho não leva a lugar nenhum. As pessoas que nos amam dizem. Até as pessoas que não gostam tanto da gente dizem. E a gente é o último a admitir. Não porque a gente é burro, mas porque admitir significa abrir a mão.

E abrir a mão dói no orgulho. Aqui vai uma coisa pra hoje. Pensa numa coisa que as pessoas perto de você já te disseram mais de uma vez. Aquele recado que volta pode vir de um amigo, da família, de alguém do trabalho. Aquilo que você costuma ouvir e logo descartar pensando, eles não entendem. Hoje, só por um momento, considera a hipótese de que eles estão certos. Não precisa concordar. Não precisa mudar nada ainda. Só abre uma festinha pra ideia de que, se várias pessoas estão te dizendo a mesma coisa, talvez quem esteja vendo torto seja você. O faraó tinha o reino inteiro dizendo para.

E o orgulho dele preferiu o desastre a dizer "vocês tem razão".