O homem mais poderoso do mundo, na época, olhou para um pastor que gaguejava e disse uma coisa muito perigosa. Ele disse "e quem é esse seu Deus pra eu obedecer?" Quem é ele? Essa pergunta vai ser respondida, não com palavras. Com o rio inteiro do Egito virando outra coisa na frente dos olhos de todo mundo. Deixa eu te contar como começa. Lembra do Moisés, aquele homem que tinha fugido do Egito anos atrás e que Deus chamou de dentro de um arbusto em chamas pra voltar. A missão dele era uma só, ir até o faraó, o rei do Egito e dizer pra ele soltar o povo de Israel, que vivia ali como escravo.
Só que tem um detalhe, o Moisés tinha medo de falar, achava que enrolava a língua que ninguém ia ouvir ele, então Deus deu um companheiro pra ele, o irmão, o arão. O arão falava bem, o Moisés dizia o que Deus mandava, e o arão repetia em voz alta pro faraó. Deus avisou o Moisés de uma coisa difícil logo no começo, ele disse "eu vou endurecer o coração do faraó", ele não vai ouvir vocês de primeira, vai resistir. E é por causa dessa resistência que o Egito inteiro vai acabar entendendo quem eu sou. Repara nisso porque é estranho, Deus já avisa que o rei vai dizer não, várias vezes.
A história não vai ser um pedido educado que dá certo na hora, vai ser um braço de ferro. E começa com um sinal, o Moisés e o arão entram na frente do faraó, o arão joga o bastão dele no chão, e o bastão vira uma cobra, o faraó nem se assusta direito, eles chamam os mágicos dele e os feiticeiros do Egito, e eles fazem a mesma coisa, jogam os bastões no chão, e os bastões viram cobras também. Mas aí acontece uma coisa, a cobra do arão engole todas as cobras dos mágicos, mesmo vendo aquilo, o coração do faraó continuou duro, ele não quis ouvir, então vem a primeira praga, de manhã cedo o faraó desce até o rio Nilo como ele fazia sempre, e o Moisés está lá esperando, com o recado de Deus, deixa o meu povo ir, para que ele me adore no deserto, você não quis ouvir até agora, então olhe o que vai acontecer, o arão estende o bastão sobre as águas do rio, e o rio vira sangue, não só o rio, todas as águas do Egito, os canais, os assudes, os lagos, a água que estava guardada nos potes de dentro de casa, tudo virou sangue, pensa no que isso significava para aquele povo, o Nilo era tudo pro Egito, era de onde vinha a água para beber, para plantar, para viver, os egípcios até adoravam aquele rio como se fosse um deus, e de repente o rio inteiro apodrece, os peixes morrem, a água começa a feder, e ninguém consegue beber, com pergo, por sete dias foi assim, mas o faraó deu de ombros, os mágicos dele também conseguiram fazer um truque parecido, e ele virou as costas, entrou em casa, e nem ligou, o coração dele continuou duro, aí vem a segunda praga, Deus manda o Moisés de novo, deixa o meu povo ir, se você não deixar, eu vou encher o seu país de rãs, rãs, aqueles bichinhos do brejo, o arão estende a mão sobre as águas, e as rãs começam a subir, milhares, milhões, saem do rio, dos canais, e invadem tudo, sobem nas casas, entram nos quartos, sobem nas camas, entram nas cozinhas, dentro dos potes de comida, dentro dos fornos, para qualquer lado que o egípcio olhasse, tinha rã, imagina acordar com o chão se mexendo de tanto bicho, não teram de pisar, não teram de dormir, a coisa que era pequena e inofensiva, agora em quantidade tão absurda que vira um pesadelo, e aí pela primeira vez o faraó dobra um pouquinho, ele chama o Moisés e o arão e diz, pede pro seu Deus tirar essas rãs, e eu deixo o seu povo ir oferecer sacrifícios pra ele, olha que interessante, o orgulhoso pediu ajuda, quando o aperto chegou perto demais ele cedeu, o Moisés diz ta bom, marca a hora, quando você quer que as rãs sumam, e o faraó responde amanhã, amanhã, repara nisso, ele tava num inferno de rãs, e mesmo assim escolheu passar mais uma noite com elas, em vez de pedir alívio agora, como se ainda quisesse manter alguma pose, algum controle, no dia seguinte o Moisés ora, e as rãs morrem, todas, nas casas, nos quintais, nos campos, o povo junta os bichos mortos em montes e montes, e o cheiro toma conta do país inteiro, mas no momento em que o faraó sentiu que o aperto tinha passado, ele voltou atrás na palavra, o texto diz, vendo que tinha vindo alívio, o faraó endureceu o coração de novo, e não deixou o povo ir exatamente como Deus tinha avisado, eu fico pensando muito nesse faraó, porque é fácil olhar pra ele e achar ele só um vilão burro, como é que o cara vê o rio virar sangue, vê o país coberto de rãs, e ainda diz não, mas aí eu olho mais de perto e vejo uma coisa que não tem nada a ver com inteligência, tem a ver com orgulho, repara no padrão dele, quando a dor aperta ele sede, promete, diz está, eu deixo, mas no instante em que o alívio chega, ele esquece a promessa e volta a ser quem era, ele só muda enquanto está sofrendo, assim que para de doer, volta tudo, e isso, isso eu conheço, não é só do faraó, quantas vezes a gente promete mudar uma coisa quando está no fundo do poço, promete que vai cuidar da saúde quando está doente, que vai dar mais valor para alguém quando está quase perdendo, que vai mudar um jeito quando o jeito já machucou alguém, e aí o aperto passa, e a gente esquece, volta tudo a ser como era, a mudança que só dura enquanto dói não é mudança, é só alívio, o faraó tinha o país inteiro gritando com ele que era hora de soltar a mão, e ele endureceu de novo assim que o sangue secou e as ran sumiram, aqui vai uma coisa para hoje, pensa numa promessa que você já fez para si mesmo no meio de um aperto, uma daquelas que você jurou quando isso passar eu vou mudar tal coisa, e que quando passou você deixou para lá, não precisa resolver ela inteira hoje, só traz ela de volta para sua cabeça, olha para ela com o coração calmo, agora que não está doendo, porque o teste de verdade de uma mudança não é o que você faz quando está no fundo do poço, é o que você faz no dia em que o alívio chega e ninguém mais está te obrigando a nada.