Imagina que a coisa mais bonita da sua vida, aquela que você jurou guardar para sempre, some no meio de uma noite de tempestade. Ninguém viu nada, só ficou o cheiro de chuva e um vazio do tamanho do mundo. E agora me diz, o que você faz quando a perda é tão grande que nem dá para acreditar que aconteceu. E mais. E se, lá no fundo, a coisa perdida não estivesse exatamente sofrendo por estar longe de você? Deixa eu te contar. Parece um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, quando ele ainda estava se tornando o Buda. Vida após vida, às vezes como gente, às vezes como bicho.
Aqui ele aparece como um músico, um tocador de Alaudi, alguém que a gente normalmente não colocaria no centro de uma grande história. E é justamente por isso que esse conto pega a gente de jeito. Tinha um rei, nessa época antiga, que reinava numa cidade às margens do mar. E esse rei tinha uma rainha, de nome Sussonde, que era de uma beleza de tirar o fôlego. O rei a amava com aquele amor que se agarra sabe, que quer ter perto o tempo todo, que tem medo de soltar. E, para divertir a rainha e a corte, o rei tinha contratado o melhor músico do reino. Esse músico era o nosso Bodhisatta, o futuro Buda.
Ele tocava de um jeito que parava o vento. Quando os dedos dele tocavam as cordas, as conversas paravam, os pássaros desciam dos galhos, e até o rei esquecia das preocupações do trono. Mas tinha um outro ser, muito longe dali, que também tinha ouvido falar da beleza de Sussonde. Um Garuda. Pra você que não conhece, o Garuda é uma criatura dos contos antigos da Índia, uma ave imensa, poderosa, meio pássaro, meio espírito, capaz de levantar tempestades só como bater das asas, capaz de cruzar oceanos num voo. Esse Garuda, tomado pelo desejo, se disfarçou de homem bonito, entrou na corte e começou a jogar dados com o rei, sentando-se à mesa como se fosse um nobre visitante.
E dia após dia, os olhos dele e os olhos da rainha se encontravam. E ali, devagarinho, nasceu uma paixão escondida. Numa noite, o Garuda usou o poder dele. Levantou uma escuridão sobrenatural sobre a cidade inteira, um breu de assustar, e no meio daquele caos, arrebatou Susande e voou com ela para muito longe, para uma ilha no meio do oceano, uma ilha de árvores e de prata chamada, nos contos, a ilha dos Garudas. Lá ele a escondeu, e lá viveu com ela. E repara num detalhe importante, a rainha não foi exatamente arrastada chorando. Uma parte dela queria ir, o rei, quando a escuridão se desfez e ele viu que a rainha tinha assumido, quase enlouqueceu de dor, mandou procurar por toda parte.
Nada. O narar era grande demais, o mundo era grande demais. E aí ele chamou o nosso músico, o Bodhisatta, e mandou que ele fosse junto com os marinheiros que partiam num navio mercante, na esperança vaga, quase sem esperança, de ouvir alguma notícia da rainha pelos portos do mundo. O navio usarpou, e o destino, ou o karma, fez o que faz. A embarcação foi parar justamente perto daquela ilha de prata. E lá, sob as árvores, o Garuda tinha saído para uma de suas viagens. O músico, sem saber de nada, sentou-se a sombra, pegou o a laude e começou a tocar, como sempre fazia, mais para acalmar o próprio coração do que para qualquer outra coisa.
E a música atravessou a ilha, Susundi reconheceu aquele som, era a música da corte, era o som da casa que ela tinha deixado, ela veio e os dois se encontraram. E o que o músico viu ali, deixa eu te dizer, não foi uma rainha desesperada implorando para ser salva, ele viu uma mulher que tinha feito uma escolha, eles conversaram, e quando Garuda voltou, o músico se escondeu no navio e voltou para o reino. Diante do rei, o Bodhisatta contou a verdade inteira, sem maquiar, disse onde a rainha estava, disse como ela estava, e disse, com toda a delicadeza de quem entende o coração humano, que ela não estava sendo mantida lá só pela força, quando Garuda, por sua vez, soube que o segredo dele tinha sido visto, que aquele esconderijo no meio do Oceano não era esconderijo nenhum, ele perdeu o gosto pela coisa toda, o desejo que parecia tão sólido se desmanchou na hora em que deixou de ser secreto e perigoso, ele largou a rainha e devolveu o Susundi ao palácio, e o rei, depois de tudo, teve que olhar de frente uma verdade dura, o coração que ele tentava aprender nunca tinha sido realmente dele para aprender.
Agora, repara no que esse conto está dizendo, a gente lê uma história dessas e quer logo um vilão para odiar e uma vítima para salvar, mas o Jataka é mais sábio que isso, ele mostra três tipos de apego, e nenhum deles dá certo, o rei se apega por posse, querendo guardar a rainha como se guarda uma joia num cofre, o Garuda se apega por desejo, e o desejo dele só vivia enquanto era proibido e escondido, e a rainha se deixa levar pela atração do palácio para a ilha, sem encontrar paz em lugar nenhum, cada um deles está correndo atrás de uma forma de prazer, agarrando, e cada um descobre que aquilo que se agarra escorrega entre os dedos, o Buda chamava isso de tanha, a sede, esse querer que nunca se sacia e que é a raiz do nosso sofrimento, e olha como isso é nosso, hoje, a gente vive numa cultura que ensina a agarrar, agarra o relacionamento com ciúme, querendo localização, querendo senha, querendo provar amor pelo controle, agarra as coisas, as experiências, os likes, sempre achando que a próxima aquisição vai finalmente preencher o buraco, e igual ao Garuda, a gente muitas vezes só quer aquilo que é difícil, escondido, proibido, e na hora em que vira nosso de fato perde a graça, o conto não está dizendo que a mar é errado, está dizendo, com muita gentileza, que querer possuir as pessoas e as coisas é uma forma de prisão, e quem segura mais apertado é quem aperta as próprias correntes, e tem o nosso músico no meio de tudo, o Bodhisatta, repara que ele não é o herói de espada que salva ninguém à força, a virtude dele é outra, mais quieta, ele vê as coisas como elas são, e fala a verdade com cuidado, ele não inventa um final romântico para agradar o rei, nem condena a rainha, ele só ilumina o que existe, e é isso que solta o nó, aqui vai uma coisa para hoje, pensa numa pessoa ou numa coisa que você está segurando com a mão fechada, com medo de perder, pode ser alguém que você ama, pode ser uma posição, uma ideia de como a sua vida deveria ser, e experimenta só hoje abrir um pouquinho a mão, não é desistir, não é não se importar, é deixar a coisa existir sem o seu controle por cima dela, repara no que acontece com o seu próprio peito quando você afrouxa o aperto, quase sempre, o que a gente sente é alívio, porque o que prende o outro também prende a gente, e o caminho do Buda, no fundo começa exatamente aí, na coragem de abrir a mão.