Imagina que você está livre, seguro, longe do perigo. E aí você escuta um chamado de socorro vindo de quem ama, presa numa armadilha com o caçador chegando. Você foge para salvar a própria pele ou volta correndo para dentro do laço. Esse conto responde essa pergunta de um jeito que não dá para esquecer. Deixa eu te contar. Esse é um dos de atacas. Os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, ainda estava se tornando Buda, vida após vida, juntando coragem, paciência e bondade. A gente chama esse ser em formação de Bodhisatta. E nesse aqui, ele não nasceu como homem, nasceu como um servo.
Um servo de pelagem dourada, que brilhava como ouro polido ao sol da manhã, com olhos que pareciam duas joias e cascos lustrosos como laca. Esse servo dourado vivia bem no fundo da floresta, longe das aldeias, longe das estradas, longe das armadilhas dos homens. Ele sabia onde os caçadores costumavam armar os laços e ensinava a manada inteira a desviar daqueles cantos perigosos. Era prudente, esse servo. Não era medroso, era cuidadoso, que é uma coisa diferente. E entre todos os que viviam ao redor dele, havia uma corça que ele amava com o amor inteiro daqueles que não calculam, pois um dia, deixa eu te contar, essa corça estava pastando um pouco mais perto da orla da mata, num lugar onde a grama era mais doce, e sem perceber, ela pisou bem no meio de um laço de couro que um caçador tinha escondido entre as folhas.
O laço se fechou na pata dela com aquele estalo seco que todo animal da floresta aprende a temer. Ela puxou, puxou, e quanto mais puxava, mais o couro apertava e cortava. E ela soltou um grito, um grito de bicho assustado, que ecoou pela mata. O servo dourado escutou, reconheceu a voz na hora, do jeito que a gente reconhece a voz de quem ama no meio de uma multidão. E aqui está o ponto do conto. A manada toda, ouvindo aquele grito, fez o que o instinto manda, fugiu, disparou floresta dentro, cada um salvando a si mesmo. Era o mais sensato a se fazer. Onde tem um laço, logo vem o caçador, e onde vem o caçador, vem a morte.
Mas o servo dourado não fugiu, ele correu na direção contrária, correu para dentro do perigo, para o lugar de onde todos estavam fugindo. Chegou perto da cor sapresa, tremendo, com a pata sangrando, e ele não entrou em pânico. Ficou ali, ao lado dela, firme, e disse com a voz mais calma que conseguiu reunir, não chora, eu não vou te deixar. Enquanto eu tiver fôlego, eu fico aqui com você, repara que ele não tinha como abrir o laço, servo não tem mãos, ele não podia roer o couro a tempo, a única coisa que ele tinha era a presença dele e uma ideia. Então ele esperou, e não demorou, o caçador apareceu por entre as árvores, com a lança na mão, vindo conferir o que tinha caído na armadilha, e o que o caçador viu parou no meio do passo.
Ele esperava encontrar uma corça assustada, mas encontrou, ao lado dela, um servo de ouro reluzente que não fugia, que olhava para ele de frente, sem ódio e sem medo. O servo dourado, então, falou com o homem, e falou não com a fúria de quem quer brigar, mas com a serenidade de quem já decidiu o que vai fazer. Ele disse mais ou menos assim, Amigo Caçador, eu sou maior, minha carne é mais farta, minha pele dourada vale muito mais do que essa corça magra que caiu no seu laço, solta ela e fica comigo no lugar dela, toma a minha vida e poupa dela, eu me ofereço, o caçador ficou paralisado.
Ele tinha passado a vida inteira caçando, e nunca, em todos aqueles anos, tinha visto um animal se oferecer para morrer no lugar de outro. Aquilo não cabia na cabeça dele, bicho foge, bicho luta, bicho não se entrega por amor, e ali estava aquele ser dourado, falando com voz humana, oferecendo o próprio corpo com a calma de quem oferece um presente, e uma coisa começou a se mexer dentro do peito daquele homem. Uma coisa que ele talvez tivesse deixado endurecer fazia muito tempo. Ele baixou a lança e disse e a voz dele falhou um pouco, eu nunca vi nada igual, nenhum homem faria por outro homem o que você está pronto para fazer por ela, eu não vou tirar a vida de nenhum dos dois, vão, os dois, livres, e ele se abaixou, soltou o laço da pata da corça, com cuidado, do jeito que a gente cuida de uma coisa que aprendeu, de repente a respeitar, a corça se levantou, mancando, e o servo dourado ficou ao lado dela enquanto ela achava o equilíbrio, e os dois entraram de volta na floresta, juntos, e dizem que aquele caçador, daquele dia em diante, largou os laços e nunca mais armou uma armadilha na vida.
Agora, repara no que esse conto está dizendo, a virtude no centro dele é o que os budistas chamam de meta misturada com dana, o amor que não exclui ninguém e a disposição de dar até de si mesmo, o servo dourado tinha tudo para fugir, ele era o sábio da floresta, o prudente, o que sabia onde estavam os perigos, ninguém ia culpá-lo se tivesse corrido com os outros, e talvez essa seja a parte mais difícil de engolir, a coisa mais inteligente a fazer era fugir, e ele escolheu não fazer a coisa mais inteligente, escolheu a coisa mais amorosa, e a gente vive num tempo que faz o caminho oposto com muito orgulho, a gente aprendeu a se proteger primeiro, a colocar limites em tudo, a recuar de qualquer situação que custe demais, e olha, cuidar de si tem o seu lugar, não é disso que estou falando, estou falando da facilidade com que a gente debanda quando alguém que a gente diz amar cai no laço, a mensagem some, a ligação fica sem retorno, a gente racionaliza, cada um carrega sua cruz, eu também tenho meus problemas, agora não dá, e vai embora com a manada, sentindo que foi só sensato, o servo dourado expõe essa saída pelo que ela é, às vezes correr pra dentro do perigo, e não pra fora dele, é o que o amor pede, e tem mais, repara que o servo não venceu o caçador com força, venceu com presença e com oferta, ele se ofereceu, e foi essa entrega que derreteu o coração endurecido do outro, a bondade desarmada tem um poder que a luta não tem, aqui vai uma coisa pra hoje, pensa em alguém que você ama, e que está, agora, preso num laço qualquer, uma doença, uma crise, um aperto, uma fase escura, e pensa no impulso de se afastar, de mandar só um emoji e seguir a sua vida, hoje faz o contrário, corre pra dentro, liga, aparece, senta do lado, fica, diz a frase do servo dourado, com as suas palavras, eu não vou te deixar, você não precisa ter mãos pra soltar o laço de ninguém, às vezes basta não fugir.