Imagina uma criança de sete meses, ainda sem firmeza nas pernas, ainda baubuciando as primeiras sílabas, e o próprio pai dela, sentado num trono, dando ordem para que cortem as mãos desse bebê. E agora imagina que, no meio desse horror, quem mantém a calma, quem não guarda raiva nenhuma, quem perdoa, é a vítima, é a criança. Como é que alguém consegue não odiar quem está fazendo isso com ele? Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava no longo caminho de se tornar Buda. Naquele tempo a gente chama ele de Bodhisatta, o ser desperto em formação, e ele aparece nessas histórias hora como um animal, hora como um homem, hora como uma criança.
Aqui ele nasce como um menininho, um pequeno príncipe, e o nome dele nessa vida é Kula Damapala, que quer dizer mais ou menos o pequeno guardião do dama, o pequeno guardião da verdade. Repara nesse nome, porque ele vai pesar até o fim. A história se passa num reino antigo, o rei se chamava Marra Patapa, e o nome já diz quase tudo, era um homem de temperamento feroz, vaidoso, cheio de orgulho, daqueles que não suportam contrariedade, a rainha era doce, e os dois tiveram um filho, esse bebê de quem eu te falei, o Bodhisatta. A mãe amava aquele menino de um jeito que parecia ocupar o mundo inteiro dela, onde ela ia, o bebê ia, no colo dela, no peito dela, vivia grudado, um dia o rei estava no salão, sentado no seu lugar de honra, e a rainha entrou trazendo o filho, ela vinha tão tomada de ternura por aquela criança, tão derretida de amor de mãe, que passou bem na frente do rei sem fazer a reverência que se devia a ele.
Foi só isso. Um descuido de quem está com o coração cheio, ela nem percebeu, mas o rei percebeu. E o orgulho dele, aquele orgulho ferido que não cabe em si, virou fogo na hora. Olha, ele pensou, essa mulher passou na minha frente confiando no menino. Acha que, por causa do filho, pode me desrespeitar, pois eu vou mostrar pra ela o tamanho do erro. E o que ele decidiu fazer não foi punir a rainha, foi punir através do que ela mais amava, ele mandou chamar o carrasco. Ali, no salão, diante da mãe, ordenou que estendessem o bebê no chão e que cortassem as duas mãozinhas dele, a rainha se atirou de joelhos, implorou, ofereceu a própria vida no lugar, não adiantou, o rei estava possuído pela sua fúria e a fúria não escuta ninguém, as mãos do menino foram cortadas, como brotos tenros cortados de um galho.
E aqui acontece a coisa mais espantosa do conto, o bebê não gritou de ódio, nem chorou de desespero contra o pai, diz a história que o Bodhisatta, mesmo tão pequeno, mesmo naquele sofrimento, não deixou nascer dentro de si nenhuma raiva, nenhuma, ele não maldice o pai, não desejou mal de quem o estava destruindo, o rei, ainda não saciado, mandou cortar também os pezinhos, e depois, num delírio de crueldade, mandou que cortassem a cabeça da criança, a mãe abraçava o corpo do filho, banhada de lágrimas e de sangue, sem entender como o mundo podia conter tanta maldade num só homem.
Mas o que ficou, o que atravessou os séculos nessa história, não foi a crueldade do rei, foi o coração do menino, porque, mesmo em pedaços, mesmo sendo destruído pela mão de quem deveria protegê-lo, aquele pequeno ser não largou a paciência, não largou a bondade. Os antigos diziam que ele manteve o que em palície chama kanti, a paciência paciente, a tolerância que não se quebra, e meta, o amor que deseja o bem até de quem te fere, que morreu sem ódio, e é por isso que o nome dele, o pequeno guardião do dama, faz sentido, ele guardou a verdade do coração até no último instante, quando teria todo o direito do mundo de odiar, e o rei, o rei segundo o conto, não escapou do peso do que fez.
A própria violência que ele plantou voltou para ele, como sempre volta, quem semeia crueldade cole mais cedo ou mais tarde, o fruto amargo dela, essa é a lei silenciosa que os jatacas não cansam de mostrar, agora repara no que esse conto está dizendo, porque ele é duro, mas é preciso, ele não está pedindo pra gente aplaudir o sofrimento, está mostrando uma coisa difícil de engolir, que existe um lugar dentro da gente que ninguém consegue mutilar, o rei cortou as mãos, os pés, a cabeça, mas não conseguiu tocar na bondade do menino, aquilo era inacessível pra ele, e a gente no nosso tempo vive convencido do contrário, a gente acha que qualquer ofensa nos autoriza a revidar, alguém te fecha no trânsito, alguém te responde mal, alguém te deixa no vácuo numa mensagem, e na mesma hora o orgulho ferido pega fogo, igualzinho ao do rei Mahapatapa, a gente acha que reagir com raiva é força, mas repara, o personagem mais fraco dessa história é justamente o rei, o homem mais poderoso de todos, ele era escravo do próprio orgulho, não conseguia tolerar nenhum descuido, e o mais forte é o bebê sem mãos, porque a paz dele não dependia de ninguém, ninguém podia tirar, a gente terceiriza a nossa paz o tempo todo, eu fico bem se ela me responder, eu fico bem se ele me der razão, eu fico bem se o mundo se comportar do jeito que eu quero, e aí qualquer um, com um gesto pequeno, vira dono do nosso dia, o conto vira isso de cabeça pra baixo, diz que a paciência, a cante, é uma coisa que ninguém te dá e ninguém te tira, é sua, aqui vai uma coisa pra hoje, hoje, escolhe uma situação pequena, dessas que costumam acender o seu pavio, uma mensagem ríspida, uma fila, alguém que não te tratou como você merecia, e antes de revidar, faz uma pausa de três respirações, e te pergunta, a paz que eu tenho agora, ela é minha, ou eu acabei de entregar ela de presente pra essa pessoa, você não precisa virar santo, só precisa, uma vez hoje, não cortar de volta, deixa o golpe passar sem virar fogo, esse pequeno gesto, repetido, é exatamente o coração que o menino guardou até o fim.