A codorniz que provocou a queda do elefante orgulhoso

Budismo · Temporada 13 · Episódio 7 de 25 — em ordem cronológica

Esqueça o tamanho. A verdadeira força se esconde onde ninguém espera e pode derrubar qualquer gigante.

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Transcrição

O que pode uma codorniz, esse passarinho miúdo que cabe na palma da sua mão, contra um elefante gigante que pisa a floresta inteira como se ela fosse dele? Quase nada, você vai dizer. E é exatamente aí que a gente se engana, porque tem uma força que não mora no tamanho. Mora na paciência de quem espera o momento certo. Deixa eu te contar, esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, mas estava se tornando Buda, vida após vida, juntando virtude. A gente chama esse futuro Buda de Bodhisatta, e ele aparece nessas histórias às vezes como rei, às vezes como mestre, e às vezes, como nessa de hoje, como um animal da floresta que tem mais sabedoria do que muita gente.

Nessa vida, o Bodhisatta tinha nascido como chefe de uma grande manada de elefantes. Imagina, oitum elefante seguindo ele pela floresta, e ele à frente, calmo, enorme, mas gentil, um líder de verdade, daqueles que cuidam, que pisam com cuidado para não esmagar o que não precisa ser esmagado. E numa clareira dessa floresta vivia uma codorniz, uma fêmea pequenina que tinha acabado de botar os ovos num ninho no chão, bem rente a terra, escondido no meio do capim, filhotes prestes a nascer. Você sabe como é uma mãe assim, o mundo inteiro dela cabe naquele punhado de ovos, pois bem, a manada de elefantes vinha passando justamente por ali.

E a codorniz viu aquela parede de bichos enormes chegando, sentiu o chão tremer, e o coração dela quase parou. Os ovos. Os ovos estavam bem no caminho, mas ela não entrou em pânico. Ela voou até a frente da manada, pousou diante do grande elefante-chefe, fez uma reverência e falou, com toda humildade, "Senhor, eu te saúdo, você é o rei desses oitutenta mil elefantes, eu sou só uma codorniz fraca, sem força nenhuma, mas aqui, bem onde você vai pisar, está o meu ninho com meus filhotes, eu te imploro, em nome da bondade, passa por outro lado, ou pisa com cuidado, e poupa minha cria." E o Bodhisatta, o grande elefante, parou, olhou para baixo, para aquele bichinho corajoso, e disse, "Não tenha medo, pequena, eu vou proteger seus filhotes." E ele mesmo se postou em cima do ninho, abrindo as quatro patas como um teto, e deixou os oitocenta mil elefantes passarem por baixo dele, em volta dele, sem que uma única pata tocasse o ninho.

Quando o último passou, ele disse a codorniz, "Tenha ainda um elefante que vem atrás de nós, sozinho, esse não obedece a mim." Quando ele chegar, suplica ele também, para salvar tua cria, e seguiu seu caminho. A codorniz esperou, e logo apareceu o tal elefante solitário, um bicho ranzinza, sem manada, daqueles que andam só porque ninguém aguenta a arrogância deles. E a codorniz fez de novo a mesma coisa, voou, reverenciou, suplicou com toda dussura. "Senhor elefante, eu te imploro, poupa meus filhotes, são tão pequenininhos." Sabe o que o elefante orgulhoso respondeu? Ele riu. "Rio daquele passarinho.

E o que você pensa que pode fazer contra mim? Eu posso esmagar mil como você só com a sola do meu pé." E para humilhá-la ainda mais, levantou a pata bem devagar, olhou nos olhos da mãe, e pisou, esmagou os ovos. E ainda urinou em cima do ninho, soltou uma gargalhada de desprezo e saiu por aí, todo cheio de si, certo de que não havia no mundo nada que pudesse alcançá-lo. A codorniz não chorou aos berros, ela ficou ali, no galho de uma árvore quietinha e disse baixinho para si mesma. "Você confia na sua força. Eu confio na minha inteligência. Vamos ver de quem é a vitória." E ela começou a trabalhar.

Foi até uma grália, sua amiga, e fez um favor por ela. Em troca, pediu, quando aquele elefante orgulhoso aparecer, voou e bica os olhos dele. A grália topou. Depois a codorniz foi até uma mosca varejeira e fez o mesmo acordo. Depois que a grália bicar, você põe suas larvas nos olhos feridos dele. A mosca topou. E por fim, a codorniz foi até uma rã. Quando o elefante estiver cego, sofrendo de sede louco atrás de água, você coaça lá do alto de um barranco. Ele vai pensar que tem um lago embaixo e vai na direção do seu canto, tudo armado. O dia chegou. A grália voou e bicou os dois olhos do elefante.

A mosca pôs suas larvas, e os olhos do bicho infeccionaram, arderam, cegaram. Cego, faminto, ardendo de febre e de sede. O elefante começou a procurar água desesperado. E aí, lá do topo de um precipício, ouviu o coaxar da rã. Água? Mal, pensou ele. E correu na direção do som. Só que não havia lago nenhum embaixo. Havia o abismo. E o elefante orgulhoso despencou o roxedo abaixo e morreu. A codorniz pousou no corpo dele, lá no fundo do precipício, e disse sem ódio na voz, quase com pena. Quem é forte, mas se enche de soberba e despreza o fraco, acaba assim. E voou de volta, leve, para o seu lugar na floresta.

Agora, repara no que esse conto está dizendo. Não é uma história de vingança, não é sobre passar a perna em ninguém. É sobre uma coisa muito simples que a gente esquece o tempo todo. A força bruta não é a maior das forças. O elefante-chefe, o Bodhisatta, era o mais forte de todos e justamente por isso parou, se abaixou, fez do próprio corpo um abrigo para um ninho de passarinho. Essa é a verdadeira força, a que serve, a que protege. Já o elefante solitário tinha o mesmo tamanho, mas a soberba dele era a fraqueza disfarçada de força e olha como isso fala com a gente hoje. A gente vive num tempo que adora o poderoso barulhento, o que grita mais alto, o que tem mais seguidores, o que pisa firme e despreza quem está embaixo.

A gente confunde a arrogância com competência o tempo inteiro e aprende a desprezar o pequeno, o lento, o que parece não ter como revidar, mas a vida tem uma memória longa, o desprezo que você joga nos fracos quase sempre volta por um caminho que você jamais imaginaria, uma grália, uma mosca, uma rã, coisas miudas que juntas derrubam um gigante e tem o outro lado, mais bonito ainda, que é a Codornis não ter agido pela força que não tinha, mas pela paciência e pela inteligência que tinha. Ela não bateu de frente, ela esperou, pensou, articulou, fez alianças, isso é a virtude que os budistas chamam de paciência madura, acante, que não é resignação covarde, é firmeza serena de quem sabe que o momento certo chega.

Aqui vai uma coisa pra hoje, pensa numa pessoa que você, sendo bem honesto consigo mesmo, costuma tratar como se ela não importasse. Alguém pequeno aos seus olhos, o atendente, o estagiário, o motorista, sei lá, hoje, faz uma coisa só, trata essa pessoa com a mesma reverência com que o elefante sabe o se abaixou diante da Codornis, não por medo do que ela poderia fazer com você, mas porque a verdadeira grandeza é exatamente essa, a de quem é forte e mesmo assim se curva pra proteger o menor. Repara como, ao fazer isso, é você que fica maior.