Imagina que o teu professor, o homem mais respeitado da cidade, sai todo dia pelas estradas parando estranho por estranho para dar conselho, querendo consertar a vida de gente que nem pediu. E imagina que você, o aluno mais quieto da turma, resolve um dia começar a fazer uma coisa completamente sem sentido na frente dele. Coisa de doido mesmo. Por quê? Porque às vezes a única forma de mostrar a alguém o absurdo do que ele faz é fazer um absurdo ainda maior bem debaixo do nariz dele. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda. De quando ele ainda não era o Buda, ainda estava no longo caminho de se tornar Buda, nascendo vida após vida como pessoa ou como bicho, aprendendo e ensinando as virtudes pelo caminho.
Nesse aqui ele nasce gente, nasce como um jovem chamado Carandia, e era o mais brilhante de todos os alunos de um mestre muito, muito famoso. O mestre dava aulas numa cidade grande daquelas universidades antigas onde os filhos das melhores famílias mandavam os rapazes para estudar. 500 alunos, e entre eles o primeiro de todos, o que o mestre amava como amaria um filho, era Carandia. O futuro Buda, agora, esse mestre tinha um hábito, um hábito que vinha de um lugar bom no coração dele, repara nisso, mas que tinha virado uma mania cega, ele não conseguia ver uma pessoa sem tentar reformá-la.
Saiia a passeio com os alunos e se cruzava com um caçador parava, largue essa caça, isso é violência, isso traz sofrimento, cruzava com um pescador, solte essas redes, você tá acumulando mal-carma. Encontrava qualquer um na estrada, qualquer um, e despejava em cima dele a moral budista, não mate, não roube, viva com retidão, abandone seus vícios, bonito, né? A primeira vista bonito, mas presta atenção no que acontecia. Aquela gente não tinha pedido conselho nenhum, estavam vivendo a vida deles, do jeito que sabiam viver, muito sem outra forma de pôr comida na mesa, e o mestre, do alto da sua sabedoria, sem conhecer a história de ninguém, sem ser convidado, ficava ali pregando.
Os homens ouviam de cabeça baixa, alguns por respeito, outros com raiva escondida, e seguiam o caminho deles exatamente como antes, ninguém mudava, nenhum, porque conselho jogado na cara de quem não pediu não entra, escorrega, garantia, via tudo aquilo e ficava incomodado. Não porque o que o mestre dizia fosse errado, era certo, era a virtude verdadeira, o problema era o como, e era o pra quem, e era o sem fim daquilo, o mestre gastava o sopro da sabedoria com quem fechava a porta e voltava pra casa exausto e frustrado, sem entender porque o mundo não escutava. Carandia pensava, como é que eu mostro pra ele, sem desrespeitar, que ele está espalhando o ensinamento como quem joga semente na pedra, e aí um dia, andando todos juntos pela floresta, o jovem viu a sua chance, tinha ali, na beira do caminho, uma caverna na encosta da montanha, uma boca de pedra, funda, escura, Carandia parou, esperou todo o grupo passar um pouco à frente, o mestre incluído, então pegou uma pedra do chão, depois outra, e outra, e começou a jogar pedra dentro da caverna, com toda a força, pedra atrás de pedra, ombro suado, sem parar, os outros alunos pararam, olharam, o mestre se virou, Carandia, o que é isso, o que você está fazendo meu filho, e o rapaz, sem interromper o serviço catando mais uma pedra, respondeu mais sério do mundo, estou enchendo essa caverna mestre, vou nivelá-la com o resto do chão da montanha, vou deixar a terra toda plana e lisa, o mestre quase rio de espanto, mas rapaz, você ficou louco, uma única pessoa, jogando pedrinha, nunca, nunca em mil vidas, vai conseguir encher uma caverna dessas, e apleinar uma montanha inteira, isso é impossível, é um absurdo, para com isso.
E foi aí que Carandia largou a pedra, virou pro mestre e disse, com toda a gentileza e toda a coragem, mestre, se um homem não consegue apleinar uma montanha jogando pedra, como é que o senhor espera apleinar o coração de toda a gente do mundo jogando o conselho? O senhor sai por aí tentando endireitar cada pessoa que cruza o caminho, gente que não pediu, gente que não quer, gente que nem para pra ouvir. A caverna não enche mestre, e o mundo não muda só porque a gente grita virtude na cara dele, silêncio na floresta, o mestre ficou ali parado, e, porque era um homem de verdade sábio, daqueles raros que conseguem receber uma lição em vez de só dar ele entendeu, baixou a cabeça, e depois levantou os olhos pro aluno com gratidão.
"Carandia", ele disse, "você me ensinou hoje o que eu não tinha aprendido em toda a minha vida, e nunca mais saiu pelas estradas despejando o ensinamento em quem não havia pedido. Agora, repara no que esse conto está dizendo, porque ele é mais afiado do que parece. Ele não está dizendo pra você guardar a verdade no bolso e deixar todo mundo errar. Não, o mestre estava certo no conteúdo. O que estava torto era a postura, a pressa de consertar os outros, a certeza de que sabia o que cada um precisava, a vontade de apleinar o mundo inteiro a imagem do que ele achava bonito. Isso, no fundo, é uma forma de orgulho disfarçada de bondade, e olha como a gente faz isso o tempo todo hoje.
A gente vive numa época que transformou o dar palpite num esporte. Abre qualquer tela e tá todo mundo apleinando a montanha dos outros, corrigindo desconhecido comentando a vida alheia, escrevendo o sermão perfeito pra alguém que nem vai ler. A gente acha que se explicar mais alto mais vezes com mais razão, o outro finalmente vai mudar. E não muda. A caverna não enche. A gente só fica exausto, frustrado, sem entender porque o mundo não escuta. Igualzinho ao mestre antes da lição. A verdadeira virtude aqui tem nome, e os budistas chamam de saber a hora e o lugar, de respeitar o ritmo do outro.
Pedoria não é só ter razão, é saber quando a sua razão cabe e quando ela só vai escorregar na pedra. O melhor ensino quase nunca é o conselho que você empurra, é o exemplo silencioso da sua própria vida, que a pessoa pega quando ela quiser pegar, do jeito dela. Aqui vai uma coisa pra hoje, pensa numa pessoa que você anda querendo consertar, aquela que você já explicou mil vezes como ela deveria viver, comer, pensar, gastar, criar os filhos. E só por hoje, faz como Carandia fez sem dizer uma palavra, para de jogar pedra na caverna. Guarda o conselho que ninguém pediu. Em vez disso, vive você mesmo, com calma, a virtude que você queria ensinar.
Quem precisar ver, vai ver. E você vai descobrir uma paz enorme, em parar de tentar aplenar uma montanha que nunca foi sua pra aplenar.