O príncipe Ghata que enfrenta a perda com sabedoria

Budismo · Temporada 13 · Episódio 5 de 25 — em ordem cronológica

E se a vida te tirasse tudo em um dia, e você, em vez de desabar, simplesmente se recusasse a chorar? Essa é a história de quem descobriu que sofrer não é amar.

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Transcrição

Imagina que você perde tudo num único dia, o reino, a casa, a herança, o nome que carregava com orgulho. E imagina que, no meio dessa ruína, alguém olha pra você e percebe, espantado, que você não chorou, nenhuma lágrima. Você não enlouqueceu de tristeza nem se trancou no escuro. Você continua de pé, sereno, como quem perdeu um guarda-chuva num dia de sol. A pergunta que essa pessoa te faz é a mesma que esse conto faz pra gente. Como? Como é que você consegue? Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda e tava só se tornando vida após vida aquilo que um dia ele seria.

Nessas histórias, o futuro Buda, o Bodhisatta, aparece às vezes como animal, às vezes como rei, às vezes como um homem comum. Nesse aqui ele aparece como um príncipe chamado Gata. A história começa num palácio, como tantas começam. Havia um rei que tinha dois filhos, o mais velho subiria ao trono, isso era o esperado, era o costume, mas as coisas nem sempre seguem o costume, por uma reviravolta da vida, uma daquelas que ninguém planeja, o reino que pertenceria ao príncipe Gata acabou indo pras mãos de outro. Talvez o irmão tenha tomado, talvez a corte tenha virado, talvez o trono simplesmente tenha escorregado pelos dedos dele como areia, o detalhe importa menos do que o que aconteceu depois.

Gata perdeu o que era pra ser dele, a coroa, o palácio, o futuro inteiro que estava desenhado, tudo se desfez, e aí entra a parte estranha da história, a parte que fez todo mundo parar e olhar. Gata não sofreu, os outros não entenderam. Tem uma versão desse conto em que o próprio irmão, ou os conselheiros, ou as pessoas à volta ficam intrigados, quase irritados. Porque repara, quando alguém perde muito, a gente espera que a pessoa desabe, a gente quase precisa que ela desabe, sabe? O sofrimento dos outros confirma pra gente que as coisas importavam. Se você perde um reino e fica de boa, parece que você está mentindo, ou que o reino não valia nada, ou que tem alguma coisa errada com você, então vieram perguntar pra ele.

Gata, você perdeu tudo, porque você não está lamentando, porque você não chora a sua perda como qualquer pessoa choraria, e aqui está o coração do conto. A resposta de Gata, dita com a calma de quem realmente entendeu uma coisa lá no fundo, ele disse, mais ou menos assim, de que serve lamentar pelo que já passou, a lamentação não traz de volta o que se foi. Eu choraria pelo reino perdido, o choro não me devolveria nenhuma pedra do palácio, eu me consumiria por dentro de tristeza, a tristeza só somaria uma segunda perda à primeira. Já perdi o reino, por que perderia também a minha paz, quem chora pelo que não pode voltar só envelhece mais rápido, adoece o próprio corpo, queima a si mesmo por dentro, e mesmo assim não muda nada do que aconteceu, o que se foi, se foi, eu não vou correr atrás do que já passou, nem vou me afligir pelo que ainda nem chegou, eu vivo aquilo que existe agora, e por isso a minha cor não some do rosto, e o meu sono não me abandona.

Rapara na sabedoria fina disso, Gata não estava dizendo que não se importava, ele não era frio, ele não era indiferente, ele simplesmente tinha visto com clareza uma coisa que a maioria de nós não vê, que a perda já aconteceu uma vez, lá no momento em que aconteceu, e que toda lamentação depois disso é a gente perdendo de novo e de novo e de novo a mesma coisa, é a gente reescrevendo a dor todo dia de manhã, o reino se perdeu num dia só, mas a tristeza pelo reino, se a gente deixar, se perde todo santo dia, pelo resto da vida, e ouvindo a serenidade de Gata, dizem que o próprio irmão se comoveu, que a paz daquele homem desarmou a disputa, e que no fim houve reconciliação, a virtude dele não só o salvou por dentro como mudou o mundo a volta dele por fora, agora repara no que esse conto está dizendo pra gente hoje no nosso tempo, a gente vive numa época que transformou o lamento numa espécie de profissão, a gente rumina, a gente pega uma perda, uma rejeição, uma oportunidade que escapou, um relacionamento que acabou, e a gente revisita aquilo mil vezes, de madrugada, no chuveiro, no trânsito, a gente refaz a cena, imagina o que poderia ter dito, o que poderia ter feito diferente, e tem até uma cultura inteira em volta disso, como se sofrer muito por uma perda fosse prova de que a gente é profundo, de que a gente amava de verdade, de que a gente leva a vida a sério, acante a paciência serena diante do que dói, virou quase suspeita, se você aceita uma perda com calma, vão achar que você não se importa, mas o buda nesse conto está dizendo o contrário, ele está dizendo que ruminar não é amar, ruminar é só sofrer duas vezes, a primeira perda a vida te entregou, a segunda, a terceira, a milésima, essas você está se entregando sozinho, e nenhuma delas, nenhuma devolve o que se foi, aceitar não é desistir de sentir, reparar de se ferir de novo numa ferida que já doeu o que tinha que doer, aqui vai uma coisa pra hoje, pensa numa perda que você fica reabrindo, alguma coisa que já passou mas que você ainda revisita na cabeça, refazendo a cena, sofrendo de novo um sofrimento antigo, pode ser pequena ou pode ser grande, e faz a pergunta de gata, o meu lamento de agora vai trazer isso de volta, se a resposta honesta for não, então repara que a única coisa que a sua tristeza de hoje está conseguindo mudar é você mesmo, o seu sono, a sua cor, a sua paz, a perda já foi cobrada uma vez, você não precisa pagar de novo todo dia, solta o que já passou, não corre atrás do que ainda nem chegou, e vive, com calma, o pedaço de vida que de fato está aqui, agora, na sua mão.