Imagina que o teu filho mais novo, cheio de vida, sai de casa de manhã pra trabalhar na roça. E na hora do almoço, alguém vem te avisar que ele caiu morto, picado por uma cobra, debaixo de uma árvore. E imagina que, ao receber essa notícia, ninguém na tua casa chora, nem a mãe, nem o pai, nem a irmã. Ninguém grita, ninguém se joga no chão. Você ia achar que aquela gente não amava o rapaz? Ou ia desconfiar que ela sabia de alguma coisa que a maioria de nós ainda não sabe? Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o desperto, mas caminhava como bode sata, o ser que vida após vida vai pulindo o coração.
Nesse aqui, ele nasce como um lavrador simples, um homem de mãos calejadas que mora nos arredores da cidade de Savate, com a esposa, um filho, uma filha, uma nora e uma serva. Gente pobre, gente de trabalho, mas gente que tinha, dentro de casa, um tesouro que dinheiro nenhum compra. Era uma família que conversava sobre a morte, não por mórbida, não por triste, era o contrário. Todo fim de tarde, depois da labuta sentados ao redor do fogo, o pai dizia mais ou menos assim, "A vida é como o orvalho na ponta da folha de capim, o sol nasce e ele já era. Tudo o que tem começo tem fim, quem nasce morre, não tem jeito de fugir disso, então é melhor a gente se acostumar com gentileza." E os outros escutavam e concordavam e iam vivendo cada dia já sabendo que aquele dia podia ser o último de alguém.
Eles não negavam a morte, eles faziam as pazes com ela enquanto ainda dava tempo. Pois bem, numa manhã quente, o pai e o filho foram juntos arar a terra. O pai puxava o arado, o rapaz ia atrás, juntando o mato seco e queimando os tocos numa pequena fogueira. Acontece que numa daquelas tocas de cupinha havia uma serpente enrolada. A fumaça subiu e irritou os olhos da cobra e ela, no susto, deu o bote. Pegou o rapaz na perna e em poucos instantes ele tombou ali mesmo, no meio da roça, sem vida. O pai repara, olhou pro filho caído, sentiu a dor, claro que sentiu, ele era pai, mas não se desesperou.
Ele pegou o corpo do menino, levou com cuidado pra debaixo de uma árvore, cobriu com um manto como quem acomoda alguém pra dormir, e continuou arando. Por quê? Porque o trabalho daquele dia precisava ser feito e o choro não traria o filho de volta. A dor dele era funda, mas era serena, sem revolta contra a vida por a vida ser o que é. Aí passou por ali um vizinho indo pra cidade e o lavrador pediu um favor, quando você passar lá perto da minha casa, avisa que hoje é pra mandar comida só pra um e não pra dois, e pede pra minha mulher vir até aqui com roupa limpa e flores. A mensagem chegou, a mãe entendeu na hora o que tinha acontecido, e não desabou, banhou-se, juntou flores, perfume, e veio com a família toda atrás.
Quando chegaram na árvore e viram o rapaz morto, ninguém se atirou ao chão chorando. Eles fizeram a pira, acenderam o fogo e ficaram ali ao redor em silêncio. Não era frieza, era um tipo de paz que a maioria de nós nunca viu de perto. Conta o jataca que esse silêncio sereno foi tão fora do comum que fez o trono de saca, o rei dos deuses, esquentar lá no alto. Ele desceu pra ver com os próprios olhos, encontrou aquela gente ao redor da pira, calma e estranhou. Vocês estão queimando uma caça, um inimigo, porque ninguém chora, e aí veio uma das cenas mais bonitas dos contos. Cada um respondeu, a sua maneira, a mesma verdade.
O pai disse, ele veio sem eu chamar, e foi sem se despedir. Veio como veio, foi como foi. De que adianta eu me lamentar. O morto não escuta o meu choro. A mãe disse, ele era como um hóspede que ficou um tempo na minha casa, e seguiu viagem. Eu não chamei pra ele vir, não posso mandar ele ficar. A irmã disse, se eu chorasse, eu só ia secar de tristeza, e ele não voltaria. Eu prefiro guardar minha força. A Nora disse, chorar pelo morto é como uma criança chorando pela lua no céu. Por mais que chore, não alcança. E a serva comparou o pranto pelo dono a um pote de barro que se quebra.
A gente recolhe os cacos com cuidado, mas não passa a vida grudando aquilo que não tem mais conserto. Saca ouviu tudo aquilo e ficou tomado de admiração. Aquela gente pobre, sem títulos, sem fama, tinha compreendido com o corpo inteiro o que tanto sabe o só sabe repetir com a boca. Então o rei dos deuses encheu a casa deles de ouro e tesouros, em sinal de respeito, e voltou para o céu. Agora repara no que esse conto está dizendo. Ele não está pedindo pra você não amar, nem pra fingir que não dói. A dor estava lá, em cada um deles. O que mudou foi a relação com a dor. Eles não brigaram com a realidade.
Não ficaram repetindo. Isso não devia ter acontecido. Logo comigo, a vida é injusta. Eles tinham no peito aquilo que o budismo chama de aceitação serena da impermanência. Tudo passa. As pessoas que a gente ama são todas elas, hóspedes de passagem e nós também somos. E olha como a gente hoje anda na contramão disso. A gente vive numa cultura que esconde a morte, empurra os velhos pra longe, abafa a palavra morte como se fosse palavrão, transforma a vida toda numa fuga apressada de qualquer sinal de fim. A gente não quer envelhecer, não quer adoecer, não quer perder nada. E aí, quando a perda chega e ela sempre chega, a gente é pego completamente despreparado, como quem nunca tinha ouvido falar que isso era possível.
A família do lavrador sofria menos não porque sentia menos, mas porque tinha treinado o coração antes. Eles olhavam pra impermanência todo dia, de frente, com mansidão. E quando o golpe veio, o coração deles já tinha onde se apoiar. Aqui vai uma coisa pra hoje. Hoje, em algum momento de calma, escolhe uma pessoa que você ama de verdade e deixa, por um instante só, esse pensamento entrar com gentileza. Um dia, ou ela ou eu, vamos partir. E eu não sei quando. Não pra te entristecer. É justamente o contrário. Deixe esse pensamento te fazer pegar o telefone, dar o abraço, dizer o que precisa ser dito agora, enquanto a folha de capim ainda segura o orvalho.
Quem se lembra que tudo passa aprende, sem pressa, a amar melhor o que ainda está aqui.