O príncipe cruel cego pela própria maldade

Budismo · Temporada 13 · Episódio 3 de 25 — em ordem cronológica

E se a pessoa mais perigosa do reino fosse o futuro rei? Uma raiva tão cega que ele nem enxergava o amor.

▶ Ouvir o episódio

Transcrição

E se a pessoa mais perigosa do reino fosse exatamente aquela que vai herdar a coroa? E se o futuro rei já tivesse, dentro do peito, uma raiva tão grande que o cegava para tudo, até para o conselho de quem mais o amava? Esse conto é sobre um príncipe assim, um homem que tinha tudo para ser sábio e justo e que escolheu, dia após dia, alimentar a crueldade dentro de si até que ela tomou conta dele inteiro. Deixa eu te contar, esse é um dos de atacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava a caminho de se tornar Buda, nascendo vez após vez como pessoa ou como animal, aprendendo nas as perezas da vida o que mais tarde ele iria ensinar ao mundo.

Nessa história, o futuro Buda nasceu como um homem sábio e bondoso, um conselheiro do rei, alguém que tinha a coragem rara de dizer a verdade mesmo quando a verdade não agradava ninguém. Naquele tempo, num reino antigo, reinava um rei que tinha um único filho, e esse filho, o príncipe herdeiro, era de uma dureza que assustava. Desde menino, ele não conhecia gentileza, os criados tremiam quando ele passava, os animais fugiam dele, quem cruzava o caminho do príncipe aprendia depressa a baixar os olhos e a sicalar, porque uma palavra fora de hora podia render um castigo, o povo lá no fundo sussurrava o que ninguém usava dizer em voz alta, que o dia em que aquele rapaz subisse ao trono seria um dia de luto para todos, o rei que não era cego, via tudo isso e o coração dele pesava, ele amava o filho como todo o pai ama, mas amar não é o mesmo que aprovar, e o rei sabia que a crueldade do menino não era uma fase, não era birra de criança, era uma raiz e a raiz estava crescendo, então um dia ele chamou o seu conselheiro mais sábio, aquele que era o futuro Buda, e disse "eu não sei mais o que fazer com o meu filho, você que enxerga as coisas como elas são, me diga o que será desse rapaz", o sábio não respondeu na hora, ele observava, repara que o conselheiro não saiu falando o que o rei queria ouvir, nem o que o medo mandava falar, ele queria ver com clareza antes de dizer qualquer coisa, e aí surgiu uma oportunidade, estava muito calor e o príncipe quis ir se banhar no rio com sua comitiva, o sábio foi junto, quando chegaram as margens, o céu que estava limpo, de repente se fechou, veio um vento frio, uma escuridão pesou sobre as águas, e começou a cair uma chuva gelada com trovões, o príncipe, que esperava um banho agradável, se viu de repente no escuro, no frio, encharcado e tremendo, e aquilo, uma coisa tão pequena, uma simples mudança de tempo que ninguém podia controlar, acendeu nele uma fúria descomunal, quem fez isso comigo, ele gritava, quem trouxe esse escuro, esse frio, essa chuva sobre a minha cabeça, alguém vai pagar por isso, ele olhava em volta procurando um culpado, um rosto onde despejar a raiva, como se as nuvens tivessem se juntado de propósito para ofendê-lo, como se o trovão fosse um insulto pessoal, e foi ali, naquela cena, que o sábio enxergou tudo, ele viu um homem incapaz de aceitar até o que vem do céu, um homem que diante de uma chuva, de um pouco de frio, de um desconforto que a vida traz pra qualquer um, não sabia dobrar, não sabia dizer está chovendo, vamos nos abrigar, só sabia procurar alguém pra punir, e o sábio pensou consigo, se ele não suporta nem o frio de uma tempestade, sem culpar ninguém, sem ferir ninguém, imagina o que ele fará com gente de verdade, quando tiver o poder de um reino nas mãos, imagina o que será quando ele puder de fato mandar punir, quando voltaram ao palácio, o rei perguntou de novo, e dessa vez o conselheiro falou, falou com cuidado, com tristeza, mas falou a verdade inteira, meu senhor, eu vi seu filho diante de uma simples chuva, e o que vi foi um homem cego, não cego dos olhos, mas cego pela própria maldade, a raiva tomou tanto espaço dentro dele que não sobra lugar pra enxergar os outros, nem pra enxergar a si mesmo, se ele subir ao trono assim como está, vai ser uma desgraça pra o povo, os bons vão sofrer, os fracos vão ser esmagados, e o reino inteiro vai viver no medo, foi uma coisa dura de ouvir, mas o sábio não falou aquilo pra condenar o rapaz pra sempre, ele falou porque a verdade dita tempo ainda é um remédio, e o rei com o coração partido, entendeu que precisava agir, que o amor de pai não podia ser desculpa pra entregar tantas vidas nas mãos de alguém tão fechado pra compaixão, agora, repara no que esse conto está dizendo, a crueldade do príncipe não nasceu grande, ela cresceu de um detalhe que a gente reconhece muito bem, a incapacidade de aceitar o desconforto sem culpar alguém, olha que coisa, caiu uma chuva, e ele já queria um culpado, e hoje, será que a gente é tão diferente, o trânsito travou e a gente xinga o mundo, a internet caiu e a gente trata mal quem está do lado, um plano deu errado, e a primeira coisa que a mente faz é procurar de quem é a culpa, em vez de simplesmente lidar com o que aconteceu, o budismo tem uma palavra bonita pra virtude que faltava nesse príncipe, canti, a paciência, a tolerância serena diante do que não está do nosso jeito, canti não é fraqueza, não é engolir tudo calado, é a força de não deixar o desconforto virar veneno, de não transformar uma frustração pequena num rastro de dano pra quem está em volta, o príncipe não tinha isso, cada incômodo virava raiva, e a raiva, sem ninguém pra freá-la, vira crueldade, e a crueldade repara, é uma cegueira, quem está possuído por ela não consegue mais ver o sofrimento que causa, acha sempre que tá certo, que o outro mereceu, que o mundo é que tá errado, e tem mais uma coisa nesse conto, que é a coragem do sábio, era muito mais fácil dizer ao rei o que ele queria ouvir, ah, é só uma fase, vai passar, mas o futuro Buda escolheu a verdade gentil e firme, porque o silêncio diante de um mal que está se formando também é uma forma de consentir com ele, aqui vai uma coisa pra hoje, na próxima vez que alguma coisa pequena der errado, uma chuva no seu plano, um atraso, um imprevisto que ninguém podia controlar, repara no primeiro impulso da sua mente, se ele for procurar um culpado, pega esse impulso pela mão e segura, respira uma vez, e diz pra si mesmo, isso não está do meu jeito, e está tudo bem, ninguém precisa pagar por isso, esse pequeno gesto repetido é o que impede a raiva de virar raiz, é cantice construindo dentro de você um desconforto de cada vez, porque a diferença entre o sábio e o príncipe cego não estava no poder que tinham, estava em quem aprendeu a não cobrar do mundo um culpado por cada gota de chuva.