Imagina um homem que perdeu o pai e, em vez de seguir a vida, vai todos os dias até o túmulo. A joelha, chora, varre a terra, leva flores, fala com a pedra como se ela pudesse responder. Um mês assim, dois meses, um ano, e o luto, em vez de cicatrizar, vai apodrecendo por dentro, comendo o homem por inteiro. Agora me diz, como é que você cura alguém assim? Com palavras, com sermão, com vai-supera, a resposta desse conto não veio de um conselho, veio de uma encenação, de um filho jovem, esperto, que fingiu uma loucura tão absurda que o pai não teve escolha a não ser acordar. Deixa eu te contar, esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, ainda estava se tornando vida após vida, juntando virtude e sabedoria.
A gente chama esse ser de Bodhisatta, o futuro desperto e nessas histórias ele aparece de mil jeitos, ora rei, ora animal, ora artesão, aqui ele aparece como um menino, um filho, e é ele quem vai salvar o próprio pai de um luto que não acabava, a história se passa numa cidade antiga, numa família próspera, gente de bem, o avô da casa morre, coisa natural, ele já era velho, viveu o que tinha que viver, partiu em paz, mas o pai do menino, o filho do morto, não conseguiu aceitar, o pai dele tinha ido, e algo dentro dele foi junto, ele mandou cremar o corpo com todo o respeito, juntou as cinzas e os ossos, e construiu um pequeno monumento de terra ali no jardim, um montinho sagrado, e começou o ritual.
Todo santo dia ele ia até aquele montinho, levava guirlandas de flores, varria a terra ao redor com a própria mão, chorava, gemia o nome do pai, meu pai, meu pai, por que você me deixou, e voltava pra casa sem comer direito, sem se lavar direito, sem trabalhar, sem rir, os dias viraram semanas, as semanas viraram meses, e o homem foi murchando, a pele ficou cinzenta, os olhos fundos, o corpo magro, ele não estava honrando o pai, ele estava se enterrando junto com ele, a família tentou de tudo, já chega irmão, ele está em paz, deixa ele descansar, não adiantava, você tem mulher, tem filho, tem uma casa que precisa de você, não adiantava, o luto tinha virado uma cova onde o homem se deitava todo dia, de boa vontade, e aí entra o menino, o Bodhisatta, sabe o mesmo sendo criança, reparou no estado do pai, e reparou também que palavra nenhuma estava entrando, sermão batia na parede e voltava, então ele pensou, se a razão não entra pela frente, eu vou entrar por outro lugar, eu vou mostrar pra ele, com os olhos dele mesmo, o tamanho da loucura em que ele caiu, foi pra fora da cidade, achou um boi morto na beira do caminho, dessas caraças que ficam ao leu, trouxe um feixe de capim verde e fresco e um pouco de água numa vasilha, botou tudo na frente do boi morto, e começou, ofereceu o capim ao boi morto, come, anda, come, despejou a água diante do focinho seco, bebe, está com sede, bebe, e ficou ali, em pleno caminho, à vista de todo mundo, implorando pra uma carcaça comer e beber, levanta, anda, come, a notícia correu na hora, como corre toda a notícia de gente fazendo coisa estranha, ouviu, o filho do fulano enlouqueceu, está oferecendo capim pra um boi morto no meio da estrada, e quem foi avisado primeiro, o pai, largaram a coisa no colo dele, seu filho perdeu o juízo, corre lá, o homem que não saía de casa a não ser pra chorar no túmulo saiu correndo, o amor de pai foi mais forte que o luto, ainda bem, chegou lá, viu o menino ajoelhado, suplicando pra um boi morto comer, e o coração apertou de um jeito novo, medo, vergonha, susto, filho, o que é isso, você está louco, pra que oferecer comida e água a um boi que já morreu, animal nenhum morto pra levantar pra comer, você está se humilhando à toa, está se acabando por nada, e o menino calmo sem largar o capim, virou pro pai e disse mais ou menos assim, mas pai, este boi ainda tem a cabeça no lugar, tem as quatro patas, tem o corpo inteiro aqui na minha frente, eu tenho mais esperança nele do que o senhor no seu pai, pelo menos eu vejo o corpo do meu boi, o senhor, do meu avô, não tem nada, só um montinho de terra com cinzas, e mesmo assim vai todo dia levar flor, varrer, chamar pelo nome, chorar, pedir que ele volte, se eu sou louco por implorar a um boi morto que coma, me diz pai, e o senhor, que a mesa implora um punhado de cinzas que viva de novo, silêncio, aquilo entrou, não pela frente, pela lateral, do jeito que o menino tinha planejado, o homem ficou ali parado, olhando pro pai, e de repente se enxergou, viu refletido naquela cena absurda, o tamanho da própria insistência absurda, o choro dele não trazia o pai de volta, do mesmo jeito que o capim não levantaria o boi, ele estava gastando a vida inteira numa esperança que a morte já tinha fechado, e aí dizem os contos, o luto se quebrou, não que a saudade tenha sumido, saudade não some, mas a obsessão soltou, o homem se quebrou, comeu, voltou a viver, voltou pra família, voltou pro mundo, e foi um filho, com uma insenação corajosa, que devolveu o pai a vida, agora, repara no que esse conto está dizendo, ele fala de uma verdade que o budismo repete sem parar, tudo o que nasce passa, a nica, a impermanência, e a dor não está só no fato de a gente perder, a dor está em a gente se agarrar ao que já foi, querendo que foi sendo, o homem não sofria só porque o pai morreu, ele sofria porque se recusava a aceitar que morreu, e a gente faz isso o tempo todo, com mil disfarces modernos, hoje em dia ninguém varre um túmulo todo dia, mas a gente faz coisa parecida na palma da mão, a gente reabre conversa de quem já foi embora, relemensagem antiga, revisita foto de um relacionamento que acabou, fica rolando o fide de ovo que não existe mais, alimentando capim verde para um boi que já não está ali, a gente confunde lealdade e comprisão, acha que largar a dor é trair o que se perdeu, não é, aceitar não é esquecer, é parar de pedir comida para quem não pode mais comer, e tem outra coisa, sutil, às vezes a pessoa que mais precisa acordar é a que mais reage ao conselho, o menino sabia que não ia dar dizer para de chorar, a gentileza dele não foi mais sermão, foi um espelho, ele deixou o pai ver sozinho, esse é o jeito budista com compaixão, sem empurrão, aqui vai uma coisa para hoje, pensa numa coisa que você fica regando sem que ela volte a viver, uma mágoa antiga que você revisita, uma conversa que você rescreve na cabeça, uma perda que você se recusa a soltar, e pergunta com verdade e carinho, a pergunta do menino, esse boi ainda come, se a resposta for não, talvez hoje seja o dia de pousar o capim no chão, agradecer pelo que foi, e dar dois passos de volta para dentro da sua vida que ainda está bem viva, esperando você voltar.