O rei que perdeu tudo e aprendeu a equanimidade

Budismo · Temporada 13 · Episódio 1 de 25 — em ordem cronológica

Você perdeu seu reino, suas joias, sua liberdade. Por que, então, a paz está em seus olhos e não a raiva?

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Transcrição

Imagina perder tudo num único dia. O trono, o exército, o palácio, as joias, o reino inteiro. E imagina alguém te perguntando, no meio dessa ruína, por que você não está chorando? O que você responderia? A resposta desse rei é uma das coisas mais serenas que já saíram da boca de um homem que tinha acabado de perder o mundo. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda e estava percorrendo, vida após vida, o caminho que ia, lentamente transformando ele no desperto. Às vezes ele aparecia como um animal, às vezes como um homem comum.

E às vezes, como nesse conto, como um rei. Nessa vida, o futuro Buda nasceu rei, um rei justo daqueles que governavam o povo com cuidado, mantinham a paz, cuidavam dos pobres, ouviam as queixas de quem batia a porta e o vacio. Ele tinha tudo o que um homem podia desejar. Riqueza sem fim, um rei nopróspero, soldados, conselheiros, as joias mais belas, inclusive um par de brincos de pedra preciosa que brilhavam como duas pequenas estrelas presas às orelhas dele. Esse detalhe é importante e o nome do conto vem dali. Manicundala quer dizer, mais ou menos, o brinco de joia. Pois bem, acontece que existia um rei vizinho, ambicioso, que olhava para aquele rei nopróspero e pensava, um inveja.

Isso tudo podia ser meu. E ele juntou um exército enorme e marchou contra o reino do futuro Buda. Os conselheiros vieram correndo, majestade, dê a ordem, reúna nossas tropas, vamos enfrentá-los, vamos defender o reino com sangue se for preciso. Mas o rei pensou diferente. Ele olhou para aquela situação e fez uma conta que pouca gente faz. Se eu mandar meus amigos votarem, vão morrer, vão morrer dos dois lados. Centenas, milhares de pessoas, filhos de mães, pais de família, todos mortos. E para quê? Para que um pedaço de terra continue tendo o meu nome em vez do nome dele. Eu não vou comprar a minha coroa com a vida do meu povo.

E ele deu uma ordem que espantou todo mundo. Abram os portões. Não levantem uma só arma. Deixem ele entrar. O rei do rei entrou na cidade sem encontrar resistência. Tomou o palácio, capturou o futuro Buda, prendeu ele. E por crueldade, ou por medo de que um dia ele voltasse, mandou jogá-lo numa masmorra. Ou, conforme a história, mandou enterrá-lo até o pescoço, deixando só a cabeça para fora. Exposta, tirou dele tudo. O trono virou do invasor. As joias, do invasor. Os brincos de pedra preciosa, aqueles que brilhavam como estrelas, agora estavam nas orelhas do conquistador. E aqui vem o coração do conto.

O futuro Buda, lá, preso, despojado de tudo, sentado na terra, ficou em paz. Não no fingimento de quem segura o choro. Em paz de verdade, por dentro. Ele cultivou no peito o amor bondade, a meta, até pelo homem que tinha tomado tudo dele. Sentiu compaixão por aquele rei. Porque ele entendia uma coisa que o outro não entendia. Que aquele monte de joias e terras e poder não pertencia, de verdade, a ninguém. Era tudo emprestado pela vida. E a vida cobra de volta, mais cedo ou mais tarde. De todo mundo, diz a tradição que aconteceu uma coisa extraordinária. O poder daquela serenidade, daquela bondade sem ódio, foi tão grande que comoveu o próprio rei invasor, ele veio até o prisioneiro e perguntou, sem entender.

Eu tomei o seu reino, eu tomei as suas joias, os seus brincos de pedra preciosa, a sua liberdade. Eu tomei tudo o que você tinha. Como é que você não me odeia? Como é que você não está se consumindo de raiva e de tristeza? E o futuro Buda respondeu, com aquela calma de quem já soltou. As joias vão e voltam. O poder vai e volta. Os reinos sobem e caem como as ondas. Por que eu iria amarrar a minha paz a coisas que sempre, sempre vão embora? Você levou o que era passageiro, o que era meu serenidade, a minha serenidade, o meu coração sem ódio. Isso você não conseguiu tocar. O rei invasor ouviu aquilo e algo se quebrou dentro dele.

A ganância dele não tinha resposta para aquela liberdade. Tomado de respeito e de vergonha, ele soltou o prisioneiro, devolveu o reino, devolveu as joias e pediu perdão. E foi embora um homem diferente. Agora repara no que esse conto está acontecendo, porque ele mexe num nervo bem fundo da forma como a gente vive hoje. A virtude central aqui tem um nome, no budismo, é a Upeca, a equanimidade. E equanimidade não é frieza, não é não se importar com nada, não é o gelo de quem virou as costas para a vida. É outra coisa, é a paz de quem entende, no osso, que tudo é impermanente, que o que sobe e desce, que o que chega a parte, que o ganho e a perda são as duas faces de uma mesma moeda que a vida não para de girar.

Quem entende isso de verdade para de prender a própria felicidade nas coisas que escorrem entre os dedos. E olha como a gente vive ao contrário disso. A gente amarra a nossa paz inteira em coisas que a vida pode levar a qualquer momento. O emprego, o saldo da conta, o carro, o número de seguidores, a casa, a aprovação dos outros. A gente constrói a identidade toda em cima desse trabalho. E aí, quando uma peça cai e sempre cai uma, a gente desabar junto. A perda de um trabalho vira o fim do mundo. Uma crítica arruina a semana, um prejuízo tira o sono por meses. Não porque a gente perdeu uma coisa, mas porque a gente tinha colocado ali dentro, sem perceber o nosso valor inteiro.

O conto não está dizendo para você não ter nada, nem para fingir que perder não dói. Está outra coisa mais fina que existe dentro de você um lugar que nenhum invasor consegue tomar. A sua serenidade, a sua bondade, o seu jeito de responder à vida. Esse lugar não está nas joias, ele está em você. E enquanto a sua paz morar lá e não nos brincos de pedra preciosa, ninguém, nunca, pode te enterrar de verdade. Aqui vai uma coisa para hoje. Pensa numa coisa que você tem hoje e que sinceramente devora perder. Pode ser o dinheiro, o cargo, um relacionamento, a imagem que os outros têm de você.

Segura essa coisa na mente por um instante. E aí faz a pergunta do rei. Se isso fosse embora amanhã, o que de mim ainda continuaria de pé? Não para te assustar. Para te lembrar de onde mora, de verdade, a sua paz. Pratica soltar um pouquinho hoje, no pequeno, para que quando a vida mora noeda e ela vai girar. Você descubra que o essencial nunca esteve nas mãos de ninguém, a não ser nas suas.