A inveja que tenta separar o leão e o tigre

Budismo · Temporada 13 · Episódio 11 de 25 — em ordem cronológica

Alguém está tentando destruir suas relações mais preciosas, sussurrando mentiras. Você tem certeza de que o veneno não está chegando aos seus ouvidos?

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Transcrição

Imagina dois amigos que vivem lado a lado, em paz, há tanto tempo que já nem lembram de quando começou a amizade. E aí chega alguém de fora, que não suporta ver aquilo, e começa a susurrar no ouvido de cada um deles, separadamente. Olha, o outro anda falando mal de você, você já viu uma fofoca dessas destruir uma amizade de anos. Esse conto é sobre exatamente isso, e sobre o que separa quem cai na armadilha de quem não cai. Vamos te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava se tornando Buda, vivendo vida após vida, às vezes como gente, às vezes como bicho, sempre aprendendo e ensinando alguma virtude pelo caminho.

Nessa vida, o futuro Buda, o Bodhisatta, nasceu no fundo de uma floresta como um eremita, um homem que tinha largado a cidade, largado o barulho, e construído uma cabana simples perto de uma montanha, vivia ali em silêncio, cuidando do próprio coração, observando os bichos, os ventos, as estações. E nessa mesma floresta moravam dois animais grandes e poderosos, um leão e um tigre. Agora repara que coisa rara, leão e tigre não costumam ser amigos. São dois grandes caçadores, dois reis cada um do seu canto, mas esses dois, não. Esses dois tinham crescido perto um do outro, dividiam a mesma caverna, descansavam a sombra das mesmas árvores, eram companheiros de verdade.

O leão respeitava a força do tigre, o tigre respeitava a coragem do leão, e juntos eles eram donos daquela floresta inteira. Nenhum outro bicho ousava atravessar o território dos dois, e o eremita, da porta da cabana dele, observava aquela amizade com um sorriso tranquilo, era bonito de ver, só que tinha mais alguém morando ali, um chacau, um bicho pequeno, esperto, que vivia das sobras. Sempre que o leão e o tigre faziam uma caçada, o chacau aparecia depois, comia o que tinha ficado pra trás, e ia embora com a barriga cheia, pelos olhos do mundo, ele tinha uma vida boa. Comia da carne dos reis sem precisar caçar nada, mas tem um tipo de fome que comida nenhuma mata.

O chacau olhava pro leão e pro tigre, fortes, respeitados, livres, e por dentro ele se corroía. Por que eles e não eu? Por que eles são grandes e eu sou pequeno? Porque não conseguia simplesmente agradecer pelas sobras, a inveja foi crescendo dentro dele como um cupim na madeira, por dentro, sem fazer barulho, até que um dia ele teve uma ideia, se eu não posso ser maior que eles, pensou o chacau, eu posso pelo menos separar os dois, sozinhos, eles valem menos, e talvez sobre mais pra mim. Então o chacau começou o trabalho dele, que é o trabalho mais antigo da inveja, falar com cada um em separado, foi primeiro até o leão, no momento em que o tigre não estava por perto, e disse baixinho, com cara de preocupado.

Amigo leão, eu não queria te contar isso, mas é meu dever, sabe o tigre, ele andou falando de você, disse que a sua força já não é o que era, disse que você está ficando velho, que ele é quem manda nessa floresta agora, o leão ficou quieto, depois o chacau trotou até o tigre, na hora em que o leão tinha saído, e fez o mesmo serviço, só que ao contrário, amigo tigre, preciso te avisar, o leão anda dizendo umas coisas, disse que você não passa de um gato grande, que sem ele você não seria nada, que a floresta é dele e você é só um óspede, e o chacau saiu de cena, satisfeito, esperando que o veneno fizesse efeito, esperando ver os dois reis se rasgarem, e ele catando os pedaços, os dois ficaram desconfiados, é verdade, a fofoca sempre deixa um arranhão, o leão olhou pro tigre meio diferente naquela tarde, o tigre não chegou perto do leão como sempre chegava, ficaram os dois ali, distantes, cada um remoendo a sua dúvida, o ar pesado entre eles, e o chacau observava de longe, lambendo os beixos, mas então aconteceu a coisa mais simples do mundo, a coisa que o chacau não contava que acontecesse, em vez de atacar, um dos dois resolveu perguntar, o leão chegou perto do tigre e falou direto, olhando no olho, me diz uma coisa, com sinceridade, você andou dizendo que eu estou velho, que sou fraco, que você manda mais que eu, e o tigre arregalou os olhos, eu nunca disse uma palavra dessas, pelo contrário, eu ia te perguntar a mesma coisa, porque me disseram que você andou me chamando de gato grande, de óspede sem valor, os dois se olharam, e na mesma hora entenderam, não precisou de mais nada, quem te disse isso, foi o chacau, a mim também foi o chacau, a verdade caiu entre eles como uma pedra na água, e a desconfiança simplesmente afundou, não foi a força dos dois que salvou a amizade, foi uma pergunta feita na cara, em vez de uma conclusão tirada nas costas, o eremita, que tinha visto tudo da porta da cabana, sorriu e disse em voz alta, pros dois ouvirem, palavras mais ou menos assim, a amizade não se desfaz por causa do que um terceiro diz, ela se desfaz quando a gente acredita no terceiro sem perguntar ao amigo, quem escuta o caluniador e age sem conferir, esse perde o que tinha, quem conversa de frente, fica com o amigo e ainda enxerga quem estava tentando separar os dois, o chacau, é claro, foi desmascarado, e voltou a ser o que sempre tinha sido, um bicho pequeno, sozinho, vivendo de sobras, agora sem nem isso porque os dois reis nunca mais deixaram ele chegar perto, agora repara no que esse conto está dizendo pra gente, hoje, a gente vive num tempo em que a fofoca virou esporte, chega um print, chega uma mensagem caminhada, chega um fulano falou isso de você, e a gente já sente o sangue subir, a gente acredita na hora, a gente reage, bloqueia, responde atravessado, conta pros outros, e às vezes destrói em cinco minho uma relação que levou anos pra construir, tudo em cima da palavra de um chacau que nem estava lá, o caluniador moderno nem precisa mais trotar até você, ele manda um áudio, e o mais cruel é que muita gente que espalhe essas coisas faz como chacau, não é nem que ganhe alguma coisa de concreto, é inveja pura, não suporta ver aquela amizade, aquele casamento, aquela parceria de trabalho funcionando, e mexe os pauzinhos pra separar, porque o sucesso do vínculo dos outros incomoda, o budismo tem um nome pra esse incômodo, e tem o remédio, a calunia se desmancha na luz da palavra honesta, na conversa direta, naquilo que se chama o reto falar, aqui vai uma coisa pra hoje, da próxima vez que alguém chegar com um sábio que fulano disse de você, segura o impulso, não reaja, não conclua, não bloqueie ninguém ainda, em vez disso, faça o que o leão fez, vá até a pessoa e pergunte de frente, olho no olho, sem acusar, me disseram tal coisa, isso procede, você vai descobrir que, na enorme maioria das vezes, o veneno não veio do seu amigo, veio do chacau, e uma pergunta sincera vale mais que mil suposições nas costas.