Imagina que você passou a vida inteira na linha de frente, carregou o peso da guerra nas costas, atravessou rios com flechas unindo perto da cabeça, virou a maré de batalhas inteiras com a sua coragem. E aí um dia, ficam os cabelos brancos, os joelhos doem, e do dia pra noite ninguém mais te chama pelo nome. Eles só dizem, esse aí já não serve mais. O que será que vale uma vida de serviço quando o corpo cansa? Será que a gratidão dura só enquanto a gente é útil? Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava se tornando Buda, ainda caminhando de vida em vida como o budi-sata, aprendendo as virtudes que um dia o levariam ao despertar.
Às vezes ele aparece como rei, às vezes como simples conselheiro, às vezes como animal. Nesse aqui, ele é um homem de palavra firme, um sábio do reino de Benares. A história começa com uma elefanta, não uma elefanta qualquer. Era uma elefanta de guerra, daquelas raras, de raça nobre, criada desde filhote para o campo de batalha. O nome dela carregava força, e ela honrava o nome. Por muitos e muitos anos, ela serviu ao rei. Quando o exército marchava, ela ia na frente. Quando a batalha apertava e os soldados começavam a recuar com medo, era ela que rompia as linhas inimigas, abria caminho, derrubava muralhas com a testa.
Os portões da cidade cediam quando ela investia. Os homens se escondiam atrás dela como quem se esconde atrás de uma rocha viva, e ela nunca recuou. Repara nisso, nunca, em batalha nenhuma, ela deu as costas. Levou lança, levou flecha, levou pedra, e seguiu em frente. O rei devia a ela mais vitórias do que conseguia contar. Mas o tempo deixa eu te dizer, o tempo não tem dó nem dá mais valente. Os anos foram passando, a elefanta envelheceu. As pernas que antes eram colunas começaram a tremer. A pele ficou frouxa, os olhos perderam o brilho, ela ainda tinha o coração de guerreira, mas o corpo já não acompanhava, não conseguia mais carregar a armadura pesada, não conseguia mais correr para a investida.
E aí veio a parte triste. O rei, ocupado com coisas novas, com elefantes jovens e fortes, simplesmente se esqueceu dela. Pior, deixou de mandar a ração de antes. A grande elefanta de guerra, que tinha defendido o reino com o próprio corpo, foi largada. Solta por aí, sem cuidado, sem comida boa, sem ninguém que lembrasse do que ela tinha feito. Um dia, faminta, ela foi andando até um lugar onde os oleiros tinham deixado vasos de barro secando ao sol, e lá estava ela, a velha guerreira, fulsando no lixo, tentando achar restos de capim, comendo o que ninguém mais queria. Imagina a cena, a criatura mais corajosa do reino, reduzida a vasculhar em túlio para não morrer de fome, foi nesse momento que o Bodhisatta entrou na história.
Ele era o conselheiro do rei, um homem conhecido pela sabedoria e pela memória boa daquelas que não deixam o passado virar pó. Ele passava por ali, viu a elefanta naquele estado, e o coração dele apertou. Mas, mais do que apertar, a cabeça dele acendeu, ele reconheceu o animal. "Espera", ele pensou. Essa não é a elefanta de guerra do rei, a que ganhou tantas batalhas para nós. E aí ele foi até o rei. Não foi com raiva, não foi com acusação. Foi com uma pergunta, do jeito que os sábios fazem quando querem que a gente enxergue por conta própria. Ele perguntou, mais ou menos assim.
Majestade, será que o rei já prometeu alguma honra àquela elefanta de guerra? Já anunciou em público que ela seria recompensada pelos serviços dela. O rei pensou e disse que sim, tinha prometido, sim, lá atrás, no calor das vitórias, que ela elefanta jamais passaria necessidade, que ela teria, até o último dia, tudo de que precisasse. Então o Bodhisatta falou a verdade com gentileza. Diz-se, Majestade, a sua palavra está agora vasculhando o lixo dos oleiros. A elefanta que abriu os portões das cidades para o seu exército, está comendo restos para não morrer. Ela não recua na batalha, mas nós recuamos da nossa promessa e recitou uma verdade que ficou.
A criatura de raça verdadeira não abandona o seu dever nem na pior das horas, mas os homens esses abandonam quem o serviu assim que para de ser útil, que vergonha seria do rei se ele exigisse coragem da elefanta na guerra e não tivesse, ele mesmo, a fidelidade de honrar quem lutou por ele. O rei se tocou, sentiu o peso do esquecimento, e na hora mandou restaurar tudo. A ração nobre, o cuidado, a honra, a velha elefanta voltou a ser tratada como a heroína que sempre foi. Viveu os últimos dias dela com dignidade, no descanso que tinha merecido com cada cicatriz do corpo. Agora repara no que esse conto está dizendo.
Ele fala de gratidão, sim, mas fala de uma coisa mais funda, de fidelidade que não depende da utilidade. A virtude aqui tem nome, é catanyuta, o reconhecimento, a memória do bem que a gente recebeu, e olha como é fácil a gente perder isso, porque a gente vive num tempo que mede tudo por desempenho. As pessoas valem pelo que produzem agora, neste trimestre, nesta semana. O funcionário que deu 30 anos de vida à empresa é otimizado pra fora num e-mail frio. O pai e a mãe que criaram a gente viram um problema de logística quando ficam velhos e lentos. A gente troca de tudo, de celular, de carro, de gente, sempre buscando um modelo mais novo, mais rápido, mais útil, e vai esquecendo, no caminho, de tudo o que carregou a gente até aqui.
A gente larga as nossas elefantas no lixo dos oleiros e acha que isso é eficiência. O Bodhisatta não inventou nada de novo, ele só lembrou. A sabedoria, muitas vezes, é exatamente isso, lembrar de quem nos serviu quando já não está em condições de servir mais. Aqui vai uma coisa pra hoje. Pensa numa pessoa que fez muito por você lá atrás, e que hoje, por estar mais velha, mais doente, mais quieta, ou simplesmente menos útil pra sua correria, foi saindo do seu radar. Você pode ser um avô, uma antiga professora, um amigo de uma fase que já passou, um colega que te ensinou tudo quando você estava começando.
Hoje, faz uma única coisa concreta por essa pessoa, sem ela pedir. Uma ligação, uma visita, uma mensagem que diga, com todas as letras, eu lembro do que você fez por mim. Não deixe a sua palavra de gratidão ir vasculhar o lixo dos oleiros. Honre quem te abriu os portões.