Os quatro reis que renunciaram e o oleiro

Budismo · Temporada 15 · Episódio 13 de 21 — em ordem cronológica

Imagina quatro reis largando a coroa no mesmo dia, por motivos que parecem banais. O que eles viram que nós, com tanto na mão, ainda não enxergamos?

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Transcrição

Imagina que quatro reis, em quatro cantos diferentes do mundo, larguem a coroa no mesmo dia, cada um por um motivo que parece pequeno demais para explicar uma decisão tão grande. E imagina que, no fim, todos eles vão parar na cabana de um simples oleiro sentados na terra mais felizes do que jamais foram nos seus tronos. O que será que esses quatro homens viram, que a gente com tanta coisa nas mãos vive sem conseguir enxergar? Deixa eu te contar. Nesse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, mas estava a caminho vida após vida, juntando virtude.

Nessa história, o futuro Buda, o Bodhisatta, nasce como o oleiro, um homem comum das mãos sujas de barro, vivendo numa aldeia perto de Benares. E é justamente da humildade dele que a sabedoria vai brotar. Mas a gente começa pelos reis, porque a história, na verdade, são quatro pequenas histórias que se encontram. O primeiro era um rei chamado Karandu, do reino de Kalinga. Um dia ele saía a cavalo, em processão, e passou por um pé de manga carregado de frutas maduras, douradas, brilhando ao sol. O rei estendeu a mão e colheu uma só, a primeira, provou. Era doce como mel, seguiu adiante.

E quando o cortejo todo passou por aquela árvore, repara no que aconteceu. Cada pessoa que vinha atrás, vendo que o rei tinha colhido, achou que podia colher também. Estenderam as mãos, puxaram os galhos, arrancaram folhas, sacudiram os ramos. Na volta, o rei encontrou a mesma mangueira no chão, despedaçada, sem uma fruta sequer, os galhos quebrados nua. E ao lado dela, intacta, outra mangueira que não tinha dado fruto naquele ano. Ninguém tinha tocado nela. O rei parou o cavalo e ficou olhando aquelas duas árvores. A que deu frutos foi destruída justamente porque deu. A que não tinha nada continua em pé, inteira.

Meu reino é a árvore cheia de frutos. Enquanto eu carregar essa coroa, vão me sacudir, me quebrar, me arrancar pedaço por pedaço. E ali na estrada, o rei carandu decidiu deixar tudo. O segundo era Nagaji, do reino de Gandhara. Estava sentado no terraço do palácio, numa noite quente. Quando viu no céu a lua cheia, redonda, perfeita. E ao lado dela encostando, uma só estrela. Ele ficou olhando e pensou, olha como aquela estrela brilha sozinha. Não precisa de companhia pra ser bonita. E enquanto pensava nisso, uma nuvem passou e cobriu a lua e a estrela junto. Tudo escureceu. O rei entendeu num instante.

Tudo o que se junta se separa. Tudo o que sobe é coberto. A glória de hoje é a nuvem de amanhã. E largou o reino. O terceiro era Nimi, de Vidirra. Esse viu uma coisa miuda. Estava à mesa e percebeu um falcão voando alto com um pedaço de carne no bico. De repente outros pássaros vieram dos quatro lados, atacando o falcão, bicando, brigando pela carne. O falcão cercado, aquado, largou o pedaço. E no instante em que largou, os pássaros foram todos atrás da carne. E o falcão voou livre, tranquilo, sozinho no céu. O rei Nimi olhou pra própria mão e disse baixinho, "Enquanto eu segurar a carne, vão me bicar até me arrancar em o couro.

No dia em que eu soltar eu vou" e soltou, e o quarto do Mukha de Pankala viu dois toros brigando por uma vaca. Brigaram com tanta fúria que um deles, de tanto investir, abriu a barriga no chifre do outro e caiu morto na poeira. O rei pensou, morreu por causa de um desejo, e eu, com quantos desejos no peito. Quantas brigas eu ainda vou comprar? E também renunciou. Quatro reis. Quatro coisas pequenas vistas num dia comum. Quatro coroas no chão, e todos, sem combinar nada, viraram homens errantes, peregrinos sem nome, andando pelos campos. E o caminho de cada um, um a um, foi levando até a aldeia do oleiro.

Porque o Bodhisatta, o oleiro, era conhecido por receber quem passava. Ele tinha uma cabana, um forno de barro, e um jeito calmo de viver que fazia as pessoas pararem. Os quatro chegaram, em dias diferentes, e foram ficando, sentavam-se com ele, ajudavam a amassar o barro, comiam o pouco que havia, e conversavam. E o oleiro, ouvindo cada um contar por que tinha deixado seu reino, sorria, porque ele que nunca tinha tido reino nenhum, já sabia há muito tempo que os quatro tinham acabado de descobrir. Que a paz não está em ter mais, está em precisar de menos. Um dia, o oleiro olhou para os quatro reis sentados ali, na terra batida, e disse uma coisa simples.

Disse que eles tinham feito bem em largar as coroas, mas que ainda carregavam uma coroa por dentro, o orgulho de terem sido reis. Vocês deixaram o trono, ele falou, mas trouxeram o trono no peito. A verdadeira renúncia não é largar o ouro, é largar a ideia de que você é grande coisa. E os quatro, que tinham governado milhões de pessoas, foram ensinados pela humildade de um homem que moldava potes. Agora repara no que esse conto está dizendo. Os quatro reis não renunciaram por causa de uma tragédia enorme. Foi uma manga, uma estrela, um pássaro, um touro, coisas que eles veriam todo dia sem prestar atenção.

A virtude aqui tem nome, necarama, a renúncia, esse desapegar que não é abandonar a vida, é parar de se agarrar nela. E veio de uma atenção fina, de quem realmente olhou, e a gente hoje olha para quê. A gente passa o dia inteiro com a tela na mão, deslizando o dedo, vendo mil imagens por minuto, e não enxerga uma única, a mangueira despedaçada na beira da estrada, a gente passaria reto, filmando para postar, acumulamos coisas como aqueles pássaros disputando o pedaço de carne, sem perceber que é o peso que nos prende ao chão. Achamos que renunciar é perder. Os quatro reis descobriram que era o contrário, era o falcão soltando a carne e finalmente voando.

Aqui vai uma coisa para hoje, escolhe uma coisa pequena, hoje, e olha para ela de verdade, até o fim. Uma fruta que você for comer, uma árvore na rua, o céu quando escurecer, para o dedo, para a pressa, e só repara, e enquanto olha faz a pergunta dos quatro reis, o que disso aqui eu estou segurando com força, e que talvez, se eu soltasse, me deixasse mais leve, você não precisa largar nenhum reino, talvez só precise largar um pouco do peso que nem sabia que estava carregando.