imagina que você é o líder de um grupo. E a única forma de salvar todo mundo é usar o seu próprio corpo como ponte. Você faria? Essa é a pergunta no coração de uma das histórias mais antigas e mais bonitas do budismo. E hoje a gente começa uma temporada diferente. Nas temporadas passadas, a gente estudou o budismo. As ideias, as práticas, as tradições. Agora a gente vai fazer o que os budistas fazem, há 2.500 anos. A gente vai ouvir histórias. Deixe-te contar. Essas primeiras histórias vêm de uma coleção chamada Jatakas. São centenas de contos sobre as vidas passadas do Buda.
Porque na tradição budista, o Buda não virou Buda de um a guê para outra. Ele foi amadurecendo ao longo de incontáveis vidas, às vezes como ser humano, às vezes como animal. E cada Jataka mostra uma dessas vidas e uma virtude sendo construída. Nessa história o futuro Buda era um macaco. Mas era um macaco qualquer. Era o rei de um bando de 8 mil macacos, que vivia nas montanhas, perto de um rio. E nesse lugar crescia uma mangueira gigantesca, que dava as mangas mais doces do mundo. O bando inteiro vivia daquela árvore. O rei dos macacos, que era sábio, deu uma ordem estranha. Nenhuma manga podia cair no rio.
Todas as frutas dos galhos que pendiam sobre a água deviam ser colhidas verdes. Porque ele sabia. Se uma manga caísse em cima e descesse o rio, alguém lá embaixo ia provar aquela doçura e ia subir o rio atrás da árvore. Mas por mais cuidado que se tenha, a vida sempre escapa. Uma manga, escondida atrás de um ninho de formigas, amadureceu sem ninguém ver. Caiu no rio, desceu à correnteza e foi parar exatamente onde o rei dos homens estava se banhando. O rei humano provou a manga e ficou obcecado. Nunca tinha comido nada igual. Mandou o soldado subirem o rio até a minha árvore. E quando chegaram, no meio da noite, encontraram a mangueira coberta de macacos.
O rei humano deu a ordem. Ser quem a árvore, ao amanhecer, matem todos. As mangas serão só minhas. Os macacos, apavorados, correram até o seu rei. E aqui a história vira. O rei dos macacos subiu no galho mais alto, olhou a distância entre a mangueira e a montanha do lado do rio e fez um cálculo. Era longe demais para qualquer macaco saltar. Mas não para ele, ele tomou impulso, voou por cima do rio e alcançou o outro lado. Lá cortou um cipó comprido, amarrou uma ponta numa rocha e a outra na própria cintura e saltou de volta. Só que o cipó era curto demais, faltava um pedaço. O rei dos macacos conseguiu se agarrar num galho da mangueira com espalhos, mas o corpo dele ficou esticado no ar entre o cipó e a árvore.
Ele mesmo era o pedaço que faltava e então ele gritou probando. Atravessem por cima de mim. Oitenta mil macacos passaram por cima do corpo do seu rei, pisando nas costas dele um por um a noite inteira até o último estar em segurança do outro lado. E quando o último passou, o corpo do rei já estava quebrado. O rei humano foi do lado de baixo e ficou perplexo. Mandou descer em um macaco com cuidado, deitou ele numa cama macia e fez a pergunta que talvez seja o centro da história inteira. Você é só um animal. Elis eram seus súditos, você era o rei. Por que você deu a sua vida por eles? E o macaco respondeu, já fraco, você não entendeu que é ser rei.
Eu não era rei porque eles me serviam. Eu era rei porque eu estava para eles. A minha posição não era um privilégio, era uma responsabilidade. E morrer assim não me dói, porque eu garantia a liberdade daqueles que confiaram em mim. Dizem que o rei humano nunca mais governou do mesmo jeito. E é isso que um jataca faz. Parece uma fábula para criança e pode ser contada para criança. Mas repara o que ela carrega. Uma ideia de liderança que é o oposto da nossa. A gente vive num mundo onde subir significa ser servido por mais gente. E a gente diz o contrário. Quanto mais alto você está, mais gente você carrega nas costas.
Liderança é virar ponte. Aqui vai uma coisa para hoje. Pensa nos lugares onde você tem alguma autoridade. Pode ser no trabalho, em casa, com os filhos, num grupo de amigos onde você é referência. E se faz uma pergunta honesta, nesses lugares eu estou sendo servido ou estou servindo. As pessoas que dependem são mais seguras porque eu existo, não precisa virar mártir. Ninguém está pedindo para você quebrar as costas. Mas repara na direção, porque o poder que só puxa para si vai murchando junto com quem o cerca. E o poder que vira ponte, esse deixa 800 mil vidas do outro lado da margem.