Imagina dois homens que largaram tudo, tronos, palácios, exércitos, tesouros, saíram de suas cidades com nada além de uma vestimenta cor-de-terra e a vontade de viver simples, e aí, anos depois, um deles é flagrado guardando, escondido, um punhadinho de sal, só isso, um punhado de sal, e o outro, ao ver aquilo, sente que precisa dizer alguma coisa. Por que será que um pouco de sal guardado pode incomodar tanto quem já abriu mão de um reino inteiro? Deixa eu te contar. Esse é um dos játakas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava se tornando Buda, vivendo como o Bodhisatta, aquele ser que, vida após vida, ia treinando o coração para a sabedoria, às vezes ele aparecia como animal, às vezes como pessoa, nesse aqui, ele aparece como um rei, um rei que vai virar emita.
Conta a vez que havia, em terras distantes, um rei do reino de Gandara, um homem justo que governava com cuidado, e havia, em outra terra, um rei dividia, igualmente bom. Os dois nunca tinham se visto na vida, mas mantinham, por mensageiros e presentes, uma amizade de longe dessas amizades que a gente cultiva sem nunca ter apertado a mão do outro. Trocavam lembranças, votos de paz, gentilezas de um reino para o outro, pois um dia, o rei de Gandara estava no terraço do palácio, numa noite de céu limpo, e ergueu os olhos, a Lua estava cheia, redonda, brilhando, e de repente começou um eclipse.
Aquela sombra foi entrando devagar, comendo a luz da Lua, até que a face inteira ficou escurecida, apagada, como uma lâmpada que alguém cobriu com a mão, e o rei comendo aquilo, e pensou, repara, essa Lua, tão grande, tão luminosa, tão acima de tudo, foi tragada pela sombra num instante, sem aviso, e eu, eu também brilho no meu reino, também acho que estou acima, mas a mesma sombra vem pra mim, a velice, a doença, a morte, a impermanência de todas as coisas, isso me engole igual, engoliu a Lua, e eu vivo agarrado a verano como se ele fosse durar, ali, naquela noite, olhando o céu, o coração dele virou, não foi tristeza, foi clareza, ele desceu, deixou o reino nas mãos de quem precisava, vestiu manto simples dos acetas, e foi embora para o Himalaya, para viver de raízes, de frutas, de água danacente, e cultivar a paz interior, lá longe, o rei de Vidiea, o amigo que ele tinha visto, recebeu a notícia, seu amigo de Gandara renunciou, largou tudo, e aquele rei pensou, se um amigo tão sábio achou que valia a pena, quem sou eu para ficar para trás, e fez o mesmo, largou o trono, vestiu manto, e foi para a floresta, e o destino, que tem dessas, fez os dois se encontrarem, dois ex-reis, agora dois eremitas de cabelos longos e pés descalços, cruzaram o caminho no meio da mata, e sem se reconhecerem de imediato, foram conversando, e descobriram, com alegria, que eram justamente aqueles dois amigos de longa data, que riso devem ter dado, decidiram viver juntos, partilhando a mesma vida simples, o Bodhisatta, o de Gandara, era o mais velho na renúncia, e o de Vidiea o tratava como mestre, os dois andavam de aldeia em se pedindo comida, como faziam os acetas, e um dia, alguém ofereceu a eles uma comida temperada, com bastante sal, comida saborosa, daquelas que a língua agradece.
O eremita de Vidiea gostou, e na hora de seguir, quando sobrou um pouco de sal, ele pensou, ah, isso aqui é bom, da próxima vez que a comida vier sem gosto, sem tempero, eu uso um pouquinho disto, e guardou, embrulhou o punhado de sal numa folha, e levou consigo. Dias depois, comendo uma refeição mais sem graça, ele tirou o seu salzinho escondido, e temperou a própria comida. O Bodhisatta viu, e perguntou, com toda a calma, de onde veio esse sal? E o amigo, meio sem jeito, contou, guardei aquele dia, para quando a comida viesse em soça, aí o de Gandara falou, sem aspereza, mais firme, meu amigo, você abriu mão de um reino inteiro, largou um exército, um tesouro, terras que não acabavam, súditos sem conta, largou tudo isso sem pestanejar, e agora você está acumulando sal, guardando para o amanhã aquilo que devia receber e soltar a cada dia? Você venceu o desejo grande, e foi se prender no pequeno, e o senhor entendeu, ali na hora, não teve desculpa, não teve birra, curvou a cabeça e largou o sal, porque ele percebeu, não era o tamanho da coisa, era o gesto de guardar, era a mãozinha do "eu preciso garantir o meu amanhã se fechando de novo", do mesmo jeito que se fechava no trono.
Agora, repara no que esse conto está dizendo, a gente acha que renúncia, que desapego, é uma coisa grande, dramática, uma decisão de uma vez só, largar o emprego, mudar de vida, virar outra pessoa. Mas o conto vira isso do avesso, ele mostra que o apego de verdade, o teimoso, é o miudinho, é o punhado de sal. E olha como isso bate na nossa vida hoje. A gente vive uma cultura inteira construída em cima de guardar para depois, guardar comida que vai estragar, guardar coisas que nunca mais vamos usar, guardar printes, guardar links, guardar mil arquivos para quando precisar, guardar segurança, garantia, plano B, reserva em cima de reserva.
Não é o dinheiro grande que prende a gente. É a incapacidade de receber o suficiente de hoje e confiar que a manhã também vem. É aquela vozinha do Issi Faltar, que faz a mão fechar mesmo quando ela já está lá. O Eremita não passou fome por não ter sal. Ele passou a viver fechado por causa dele. E essa é a virtude que o conto celebra. O contentamento, o santosa, a paz de quem aceita o que o dia traz e não fica estocando o futuro num embrulho de folha. Aqui vai uma coisa para hoje. Olha em volta de você, na sua casa, na sua mochila, no seu celular e acha o seu punhado de sal. Aquela coisinha pequena que você guarda para um dia, que você acumula sem nem pensar que está ali só por causa do medo de Faltar.
Pode ser comida, pode ser um objeto, pode ser uma fileira de arquivos. Escolhe uma e hoje solta, usa, dá ou simplesmente joga fora. E enquanto faz isso, repara no aperto que vem no peito. Esse aperto é o seu mestre. Ele te mostra baixinho, onde a sua mão ainda não aprendeu a se abrir.