Imagina alguém tão poderoso, tão antigo, que esqueceu o próprio começo. Alguém que vive há tanto tempo em um lugar tão alto e tão luminoso que se convenceu de uma coisa só, eu sempre existi, eu nunca vou acabar. Aqui é eterno. E se esse alguém estivesse, com toda a sinceridade do mundo completamente enganado, deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava se tornando Buda, ainda caminhando vida após vida, como o Bodhisatta, às vezes nascido homem, às vezes bicho, e às vezes, como nesse conto, já tão desperto que subia aos próprios céus para conversar com os deuses.
Nos altos planos do mundo, num desses céus de luz que os antigos chamavam de mundo de brama, viviam um ser chamado Baka, um deus, e não um deus qualquer. Baka tinha vivido tanto, tanto tempo, que a memória dele já não alcançava o próprio nascimento. Ele tinha nascido sim, num plano mais baixo, morrido lá, renascido mais alto, morrido de novo, e subido, e subido, até chegar aquele céu vastíssimo e calmo onde o tempo parecia não passar. E lá, sozinho, no esplendor, Baka olhou em volta, não viu o começo, não viu o fim, não viu ninguém acima dele, e pensou, isto aqui é permanente, isto aqui é constante, isto aqui é eterno, não há nada além disto, não há nada mais alto, e ninguém jamais sai daqui.
Repara como é fácil cair nessa. Quando a vista é boa demais, a gente para de procurar a saída. O Bodhisatta, naquela vida, era um grande mestre de meditação, alguém com a mente tão treinada que podia, em concentração, atravessar os planos e visitar aqueles céus luminosos. E ele percebeu, percebeu que ali, naquele canto glorioso do universo, um ser bondoso e brilhante tinha se prendido numa ideia errada. Baka estava ensinando, para si mesmo e para os outros deuses ao redor, que aquele mundo era eterno. E uma crença assim, por mais luminosa que seja a casa onde ela mora, é uma cela.
Porque o que se acredita eterno, a gente para de cuidar, para de questionar, para de buscar libertação. Então o Bodhisatta foi até lá, apareceu naquele céu, sereno, e Baka, vendo o chegar, sorriu com a confiança de quem nunca foi contrariado, e disse, bem-vindo, vê como é bom aqui, este lugar é permanente, é estável, é eterno, aqui não há nascimento, não há velhice, não há morte, não há plano mais alto que este, nem fuga deste, fica. E o Bodhisatta, com toda gentileza, respondeu mais ou menos assim, ah, querido Baka, que coisa triste de se ver, tão sábio, e ainda assim dizendo que o impermanente é permanente, chamando de eterno um lugar de onde você mesmo um dia vai cair, você esqueceu de onde veio, esqueceu das vidas de antes, dos mundos por onde passou para chegar até aqui, e porque esqueceu o começo, achou que não havia começo, e porque está alto demais para enxergar o fim, achou que não havia fim.
Baka esitou, era a primeira vez em incontáveis eras, que alguém o contradizia, e ele, ainda agarrado a sua certeza, tentou provar o próprio poder, se eu não sou eterno, então me faça desaparecer da sua vista, some eu se conseguir. E aqui o conto faz uma brincadeira bonita, o Deus tentou se esconder do Bodhisatta, usar todo o seu poder antiquíssimo, para se tornar invisível, e não conseguiu. O Bodhisatta o via claro como dia, e então o Bodhisatta disse, agora eu vou me esconder de você, e sumiu. Apenas a voz dele continuou ecuando por aquele céu inteiro, calma, sem corpo, mostrando a Baka que havia sim, algo que ele não dominava, algo além da sua compreensão, algo mais alto que o seu mais alto.
Foi nesse instante que a coraça de Baka rachou, pela festa entrou uma luz diferente, não a luz do céu dele, mas a luz da verdade simples, nada disso é para sempre, nem ele. E estranhamente não foi uma perda, foi um alívio, porque parar de fingir que se é eterno é parar de carregar um peso impossível, agora repara no que esse conto está dizendo, porque ele não fala só de um Deus num céu distante, ele fala da gente. Baka somos nós toda vez que a vida vai bem e a gente baixinho começa a acreditar que vai ser sempre assim, a saúde que parece firme, então deixe de cuidar, o emprego que parece sólido, então para de aprender, as pessoas que amo, que estarão sempre aqui, então adio o telefonema, adio o abraço, adio me desculpa, a juventude que parece não ter fim, a gente vive cercado de pequenas eternidades inventadas, e é justamente nelas que moram o nosso descuido, e o nosso tempo é especialista em alimentar essa ilusão, tudo foi feito para parecer que a festa não acaba, filtros que apagam o passar dos anos, telas que nos prometem disponíveis a qualquer hora, um fluxo sem fim de coisas novas para não pensarmos no fim de nada, a gente foi ensinado a não olhar para a impermanência como se não olhar fosse a mesma coisa que ela não existia, mas o budismo com toda a doçura faz o contrário, ele não diz isso para nos amedrontar, diz o oposto, justamente porque tudo passa, cada coisa importa agora, a impermanência, o anica, não é uma ameaça pendurada sobre a vida, é o que torna a vida preciosa, você não rega uma flor de plástico, você rega a que vai murchar, aqui vai uma coisa para hoje, escolha uma única coisa boa que você anda tratando como se fosse eterna, e que por isso anda deixando de lado, pode ser uma pessoa, pode ser o seu corpo, pode ser uma amizade, pode ser este dia comum, e faça hoje ainda um gesto pequeno em honra ao fato de que ela não vai durar para sempre, ligue para essa pessoa, caminhe esses 10 mintes, diga o que você vinha adiando, não porque algo de ruim vá acontecer, mas porque, diferente do Deus Baca, você não precisa esperar perder a sua eternidade para começar, enfim, a viver desperto dentro dela.