O macaco intruso que causou a morte dos companheiros

Budismo · Temporada 15 · Episódio 9 de 21 — em ordem cronológica

Você abriria a porta para o estranho faminto? E se, com ele, entrar a ruína de tudo que você mais preza?

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Transcrição

Imagina que um grupo vive tranquilo, em paz há anos, num lugar que ninguém mais conhece, e aí chega um de fora. Sozinho, faminto, atrás de abrigo, a pergunta é simples e cruel ao mesmo tempo. Você abre a porta, e se aquele que você acolheu trouxer junto com a fome dele, a ruína de todo mundo. Esse conto não tem resposta fácil, ele mostra os dois lados, e te deixa com o coração apertado nos dois. Deixa eu te contar, esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era Buda, ainda estava no longo caminho de se tornar Buda. A gente chama esse ser de Bodhisatta, e, nas vidas que ele atravessa, ele às vezes aparece como rei, às vezes como mestre, às vezes como bicho.

Nesse aqui, repara só, ele aparece como líder de um bando de macacos, um macaco sábio, velho de experiência, que carregava no peito o cuidado por cada um dos seus. A história se passa numa floresta antiga, daquelas de árvore alta que fecha o céu lá em cima. Lá vivia esse bando, e o Bodhisatta era o chefe, um líder de poucas palavras e muita atenção. Ele conhecia cada trilha, cada fruto, cada perigo, sabia quando a estação ia secar, sabia onde a água ainda corria, sabia ler o cheiro do ar antes da chuva, e, acima de tudo, ele tinha uma regra que repetia para os mais novos, sempre, com calma.

A gente sobrevive porque a gente conhece o nosso lugar. A gente sabe onde pisa, não confia em atalho que não conhece, não come fruto que não viu o pai comer, não entra em buraco que não sabe se tem saída, pois bem, numa certa época, uma seca daquelas apertou a floresta, os rios baixaram, os frutos mingaram, e os bichos todos começaram a andar mais longe atrás de comida, e foi nesse aperto que apareceu, na beirada do território do bando, um macaco estranho, um intruso, vinha de outra parte da mata, magro, desconfiado, com aquele olhar de quem perdeu o próprio grupo e estava sozinho no mundo, os macacos jovens ficaram com pena, e pena é uma coisa boa, repara, a compaixão é o coração do caminho, eles levaram o estranho até o Bodhisatta, e o velho líder olhou para ele com gentileza, mas também com aquela atenção que não dorme, conversou, deu de comer, e observou, porque o líder sabe o sabe que acolher não é o mesmo que entregar a vida nas mãos de quem você acabou de conhecer, e foi observando que o Bodhisatta percebeu uma coisa, esse macaco intruso era foito, era ganancioso, era do tipo que via um cacho de fruta e é direto, sem olhar para os lados, sem esperar, sem respeitar o tempo dos outros, chegava primeiro, comia depressa e não escutava ninguém, quando o velho falava espera, esse caminho a gente não pega na seca, tem caçador de armadilha por ali, o estranho fazia que sim com a cabeça, e no instante seguinte já estava correndo na direção proibida, atrás do próprio apetite, o Bodhisatta chamou o Bando e disse, com a serenidade de sempre e sem raiva, esse companheiro tem fome, e a fome dele é legítima, mas ele não escuta, e quem não escuta na floresta é mais só a própria ruína, traz a de quem está perto, fiquem atentos, não sigam ele, mas você sabe como é, os mais novos achavam o velho exagerado, ah é só fome, ele vai aprender, e o intruso esperto no jeito de agradar, foi puxando os jovens, vem comigo, eu sei de um lugar com fruta madura, cheio longe de todo mundo, e um dia, contra o aviso do líder, um punhado de macacos que foi atrás dele, o lugar tinha fruta sim, mas era a clareira de um caçador, daquelas onde o homem deixa a árvore carregada de propósito, e espalha por baixo escondido o laço e a rede, o intruso, faminto, ganancioso, foi direto ao monte de fruta no chão sem cheirar o perigo, arrastando os outros junto, e a rede fechou, e o que aconteceu ali, na clareira foi o que o velho temia, vários daqueles jovens não voltaram, morreram pela pressa de um só, pela fome cega de um intruso que não soube parar, não soube escutar, não soube respeitar o lugar onde tinha sido acolhido, o bode sata chorou os seus, e não amaldiçoou o estranho, ele entendeu afundo a lição, e fez questão de que o bando entendesse também, o problema nunca foi acolher, acolher é virtude, o problema foi seguir, de olhos fechados, alguém movido só pelo próprio apetite, alguém que não tinha freio dentro de si, agora repara no que esse conto está dizendo, ele não está te mandando fechar a porta para o estranho, pelo contrário, o velho macaco deu comida, deu abrigo, deu chance, a compaixão fica de pé do começo ao fim, o que o conto critica é outra coisa, e é uma coisa muito do nosso tempo, a gente anda seguindo, embando, qualquer voz que promete fruta fácil, a gente vê alguém a foito, confiante, gritando vem comigo que eu sei o atalho, eu sei onde tem mais, eu sei o caminho rápido para ficar rico, para ficar feliz, para resolver tudo, e a gente larga o que conhece e corre atrás, sem cheirar o perigo, sem perguntar quem é esse que está na frente, e o que move ele de verdade, o velho macaco tinha uma sabedoria simples, ele media as pessoas não pela conversa, mas pela ganância, quem não consegue esperar, quem pega primeiro, quem não escuta aviso nenhum esse, mais cedo ou mais tarde, leva os outros para o laço junto, e hoje a gente tem laço de sobra, tem clareira cheia de fruta brilhante em toda a tela, montada de propósito, com a rede escondida embaixo, e sempre tem um intruso a foito gritando que é seguro, que é só ir, a virtude budista aqui é a do discernimento andando de mãos dadas com a compaixão, em palhe a gente fala de panhar, a sabedoria que enxerga o que as coisas são por baixo da aparência, o bodhisatta tinha as duas, tinha meta, o coração aberto para o estranho com fome, e tinha panhar, o olho que não se deixava arrastar pela pressa alheia, uma sem a outra desanda, compaixão sem sabedoria vira rede, sabedoria sem compaixão vira frieza, aqui vai uma coisa para hoje, pensa na próxima voz a ver te chamar para um atalho, seja uma promessa de dinheiro rápido, uma indignação fácil que todo mundo está repetindo, uma compra que precisa ser agora, uma corrida em que todo mundo já saiu, antes de correr atrás do bando, faz a pergunta do velho macaco, o que move quem está me chamando? Essa pessoa, ou essa voz, sabe esperar, ela escuta, ou ela só quer chegar primeiro na fruta, acolha o estranho sim com o coração aberto, mas não siga, de olhos fechados, ninguém que não consegue parar diante do próprio apetite, porque na floresta, e fora dela, a pressa de um fechar a rede em cima de muitos.