O asceta que, por nada pedir, tudo recebe

Budismo · Temporada 15 · Episódio 8 de 21 — em ordem cronológica

Um rei te oferece o mundo, e você nada pede. Parece ilógico, mas é exatamente assim que se ganha tudo de verdade.

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Transcrição

Imagina que um rei poderoso te chama, te recebe com honras, te oferece ouro, aldeias, cavalos, elefantes, tudo o que a tua boca pedir. E imagina que você, diante de tudo isso, simplesmente não pede nada. E que, justamente por não pedir, você acaba recebendo mais do que qualquer pessoa gananciosa jamais receberia. Parece impossível, né? Como é que o silêncio da boca pode encher mais a mão do que o pedido? Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, ainda estava trilhando o caminho vida após vida, como o Bodhisatta.

E nessas histórias ele aparece às vezes como rei, às vezes como animal, e às vezes, como nesta aqui, como uma seta de coração tranquilo. Aqui o nome dele é Ticena. Naquele tempo o Bodhisatta nasceu numa família de Bramanis, numa cidade do reino, cresceu, estudou, e quando ficou o moço senti uma coisa que muita gente sente mais finge que não ouve. Aquela percepção clara de que as coisas que a gente acumula não enchem o buraco que parece que vão encher. Então ele deixou pra trás a casa, a herança, os planos de vida confortável. E foi viver como a seta nas montanhas, comendo pouco, dormindo no chão, treinando a mente até ela ficar serena como um lago sem vento.

Por anos viveu assim, e o nome que ganhou foi Ticena. Acontece que esse Ticena, lá no passado, antes de tudo, tinha sido amigo de infância de um menino que cresceu e virou rei. Os dois tinham brincado juntos, e quando a seta, já maduro, desceu das montanhas e passou pela cidade pedindo o alimento do dia de tigela na mão, o rei o reconheceu, ficou como vido. É o meu velho amigo, aquele que largou tudo, e mandou chamá-lo ao palácio. O reio recebeu com toda honra que se pode imaginar. Sentou num lugar alto, lavou seus pés, ofereceu comida boa, e ficou ali dia após dia, conversando com ele, ouvindo dele sobre a paz, sobre a mente, sobre o desapego.

E o rei generoso dizia toda vez, amigo, pede o que quiser, esta cidade é sua. Quer aldeias, quer ouro, quer carruagens, quer que eu te dê metade do meu reino? É só dizer, pede, e a Ticena, calado, sereno, não pedia nada. Ouvia, agradecia com um gesto leve, e continuava sem pedir. Isso começou a incomodar o rei. Não de raiva, mas de espanto, porque o rei estava acostumado com gente, e gente quando chega perto do poder, pede. Os brâmanes pediam, os ministros pediam, os parentes pediam, os mendigos pediam, todo mundo que entrava naquela sala saía com a mão estendida, de um jeito ou de outro.

E ali estava um homem a quem ele oferecia o mundo, e que olhava para o mundo como quem olha para uma nuvem passando. Então, um dia, o rei não aguentou e perguntou, com a curiosidade de criança que volta no peito de quem foi criança junto, "A Ticena, eu não entendo, eu te ofereço tudo. Os outros me pedem até o que eu não tenho. Por que você nunca pede nada?" E o Aceta respondeu com uma calma que cortava mais fundo do que qualquer discurso. Ele disse, mais ou menos assim, "Quem pede, o rei, fica triste de duas maneiras. Fica triste se não recebe, porque desejou em vão. E quem é pedido também fica em apuros, porque se não dá, fica mal visto.

E se dá contra a vontade, dá com o coração apertado. Por isso o sábio não pede. Pedir é abrir uma porta para o sofrimento, o seu e o do outro. Eu prefiro a paz de quem nada deseja, quem nada quer, nada lhe falta. O rei ficou em silêncio. Aquilo bateu nele, e então ele entendeu uma coisa que não tinha entendido a vida toda dentro do palácio cheio, que a pessoa de verdade rica não é a que tem mais, é a que precisa de menos. A Ticena não pedia não porque desprezasse o rei, mas porque já estava cheio por dentro. Não tinha vazio para preencher. E o rei, justamente por ver isso, disse então, "Já que você não pede, eu dou, porque é um homem assim, dar é uma alegria, não um peso".

E ofereceu a ele, de coração leve, tudo o que pude, com a certeza de que dava alguém que não ia se corromper com nada disso. E é aí que tá o segredo do conto. O aceta que por nada pedir, tudo recebe. Porque o que ele recebeu de mais precioso não foi ouro nenhum. Foi a confiança total de outro ser humano. E a liberdade de um coração que não está a mercer de querer. Agora, repara no que essa história está dizendo para a gente. Hoje, com nossos celulares e nossos carrinhos de compra sempre abertos numa aba do navegador. A gente vive num tempo que transformou o querer numa profissão.

O dia inteiro alguém está nos ensinando a desejar, um anúncio, um vizinho com o carro novo, um vídeo de alguém numa praia. A gente aprendeu a medir a própria vida pela distância entre o que tem e o que ainda não tem. E essa distância nunca fecha, porque assim que a gente compra uma coisa já aparece em três que a gente precisa. O desejo é um poço sem fundo disfarçado de copo que falta encher. O que a tiscina mostra é o contrário disso, e é quase um escândalo para os nossos ouvidos modernos. Ele mostra que existe uma riqueza que não vem de adquirir, vem de não precisar. Os budistas têm um nome bonito para isso.

Contentamento. Santo Ti. Não é resignação. Não é viver na falta com cara amarrada. É a descoberta tranquila de que neste exato momento talvez já esteja tudo bem. De que o suficiente não é um lugar lá na frente que você alcança quando tiver mais. É um lugar dentro de você. Que você acessa quando para de correr. E tem um detalhe lindo no conto que a gente não pode perder. O aceta não fica mais pobre por não pedir. Ele fica mais livre. E de quebra, o rei também fica mais leve porque dar a quem não cobra é uma alegria pura. Quer dizer, o não desejo de um abençoa os dois. O nosso querer constante, esse sim, deixa todo mundo tenso.

Inclusive quem está perto da gente sente a nossa insatisfação no ar. Aqui vai uma coisa para hoje. Escolha uma única coisa que você vem querendo comprar ou conseguir. E que não é uma necessidade de verdade. É um desejo. E, em vez de buscar, fica sentado um instante com a pergunta de Atissena. E se eu simplesmente não pedisse isso. E se por hoje eu deixasse esse querer passar como uma nuvem, sem agir nele. Repara no que acontece dentro de você. Quase sempre, depois de uns minutos, o desejo afrouxa sozinho e fica no lugar dele uma coisa rara. Que é a sensação de que para esse momento você já tem o bastante.

Esse é o tesouro que ninguém te dá. O de quem por nada pedir, descobre que tudo o que importa já estava ali.