O jovem asceta e o elefante de estimação que morre

Budismo · Temporada 15 · Episódio 15 de 21 — em ordem cronológica

Você jurou não se apegar a nada. Mas o que acontece quando um amor incondicional aparece e derruba toda a sua fortaleza?

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Transcrição

Imagina um menino que escolheu a floresta. Largou tudo, foi viver entre as árvores e os pássaros, decidido a não se apegar a nada neste mundo. E aí, um dia, ele encontra um filhotinho de elefante perdido, sozinho, e o coração dele simplesmente derrete. Pergunta pra você, dá pra renunciar ao mundo inteiro e, ainda assim, ser laçado de volta por uma única criatura que a gente passou a amar? A resposta a essa pergunta é o coração desse conto, e ela é mais delicada do que parece. Deixa eu te contar, esse é um dos de atacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava no longo caminho de se tornar Buda.

Nessas histórias, ele aparece às vezes como homem, às vezes como animal, às vezes como rei, às vezes como mais humilde dos viventes. Aqui, ele aparece como pai, um pai sábio, que vai ter que ensinar o filho a coisa mais difícil de todas. Conta-se que, em tempos antigos, vivia perto de Benares um homem que tinha sido rico e que, de tanto refletir sobre a vida, abriu mão de tudo, levou consigo o filho pequeno, um menino chamado Somadata, e os dois foram morar na floresta como acetas. Construíram uma cabana simples de folhas, comiam o que a terra dava, bebiam da água do riacho, e passavam os dias em quietude.

Esse pai era o Bodhisatta, o futuro Buda, e ele estava criando o menino pra ser livre, livre do medo, livre da cobiça, livre do peso de querer guardar as coisas. Um dia, andando pela mata, o jovem Somadata encontrou um filhote de elefante, pequenininho, desgarrado da manada, com aqueles olhos enormes e a tromba ainda desajeitada. O menino olhou pra ele, e algo aconteceu dentro do peito. Levou o filhote pra cabana, deu-lhe capim macio, frutas, uma fresca na concha das mãos, e o elefantinho ficou. Cresceu ali ao lado do menino, seguindo ele por toda parte, encostando a tromba no ombro dele, dormindo perto.

Os dois viraram inseparáveis. O acetaminino, que estava aprendendo a não se apegar a nada, apegou-se com a alma inteira aquele bicho. O pai reparou. Reparou e ficou em silêncio, esperando, porque tem coisa que a gente não consegue ensinar com palavra. Só a vida ensina, e a vida ensinou. O elefante, já grande e forte, comeu de mais um dia, ou adoeceu, e o corpo dele cedeu. De manhã, soma data encontrou o companheiro caído, imóvel, frio, sem vida. O menino que tinha renunciado ao mundo se jogou sobre o corpo do animal, e chorou como nunca tinha chorado. Abraçou a tromba pesada, gritou o nome dele, não comia, não dormia, não saía de perto.

Ele era meu amigo, repetia. Ele era tudo que eu tinha. E parecia que toda a serenidade que ele construindo desmoronou de uma vez só, diante de uma morte que ele não soube ver chegar. O pai veio, sentou-se ao lado do filho desfeito em lágrimas, não brigou, não disse eu avisei, não disse a seta não chora. Ele esperou o choro perder um pouco a força, e então falou, baixinho, filho, me diz uma coisa, você consegue trazer o elefante de volta com essas lágrimas? Soma data, ainda soluçando, balançou a cabeça que não, e se você chorasse inteira, e a próxima, e mais sem noites, ele se levantaria? Não, pai.

Então repara no que está acontecendo. Você não está sofrendo pelo elefante. O elefante não sofre mais nada, ele partiu em paz. Você está sofrendo por você, pela ausência que ficou no seu peito, e essa ausência, meu filho, não foi a morte que abriu, foi o apego. A morte só mostrou o tamanho do laço que você mesmo tinha amarrado. O pai segurou a mão do menino, e continuou, com uma figura que não tirava nada da verdade. Não é errado amar. Você cuidou desse bicho com bondade, e isso é coisa boa, isso é virtude. O erro não está interamado, o erro está em achar que o que a gente ama vai ficar.

Tudo que nasce, morre, tudo que se junta, um dia se separa. Quem entende isso não ama menos, ama melhor, ama sem cravar as unhas, ama sabendo soltar. E, dizem os antigos, o menino enxugou o rosto, a dor não sumiu num passe de mágica, dor não some assim, mas alguma coisa nele entendeu. Ele levantou, cuidou do corpo do amigo com respeito, e voltou a viver. Mais leve, mais desperto, com o coração aberto e, ao mesmo tempo, sem grilhão. Agora, repara no que esse conto está dizendo, porque ele bate em cheio na gente hoje, a gente vive numa época que ama o apego e chama o amor. A gente é ensinado a se agarrar, a pessoa, ao emprego, a versão de nós mesmos que tínhamos aos vinte, ao jeito que as coisas eram.

E quando a vida faz o que a vida sempre faz, que é mudar e tirar, a gente dizaba como pequeno somadata diante do elefante caído, sem entender que o laço foi a gente que apertou. O budismo não pede que você ame menos as pessoas e os bichos da sua vida. Pelo início, ele te lembra de uma coisa que a gente vive esquecendo, ocupados demais correndo atrás de garantir tudo. É justamente porque nada é permanente que cada presença merece sua atenção inteira agora. O apego promete segurança e entrega só medo de perder. A consciência da impermanência, essa anica de que os mestres falam, parece triste à primeira vista, mas é ela que liberta o amor para ser amor de verdade, sem cobrança, sem desespero, sem aquela mão fechada que sufoca o amor para segurar.

A gente fotografa tudo para que nada acabe. Salva, arquiva, tenta congelar e mesmo assim acaba. O menino sábio não foi aquele que nunca se apegou, foi aquele que, depois da queda, aprendeu a amar de mãos abertas. Aqui vai uma coisa para hoje. Pense em uma pessoa ou num bicho ou até numa fase da sua vida que você ama e que, lá no fundo, você tem medo de perder. Hoje, se apertar mais o laço, faz o contrário. Dá essa presença à sua atenção mais inteira, mais presente, justamente porque ela não vai durar para sempre. Olha de verdade, escuta de verdade, agradece de verdade e pratica, mesmo que doa um pouquinho, dizer por dentro, eu te amo e eu sei que um dia vou ter que soltar, não para sofrer antes da hora.

Mas para amar sem grelhão, do jeito que o pai de pata ensinou na beira de um elefante caído na floresta há muito tempo atrás.