O rei que abandona o trono pela vida santa

Budismo · Temporada 15 · Episódio 16 de 21 — em ordem cronológica

Você tem tudo, o reino inteiro nas suas mãos. O que você faz quando a morte te entrega seu primeiro aviso: um fio branco?

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Transcrição

Imagina que você tem tudo. O trono, o exército, os cofres cheios, gente que se curva quando você passa. E imagina que, num dia comum de verão, você olha para o seu próprio cabelo no espelho e percebe que ele já não é todo preto. Tem um fio branco ali. Só um. O que você faria? Mandaria arrancar e fingiria que não viu. Esse rei fez outra coisa. Esse rei largou tudo. Deixa eu te contar. E se é um dos jatacas? Os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, quando ainda estava no longo caminho de se tornar desperto. Nessas histórias, o futuro Buda, que a gente chama de Bodhisatta, aparece hora como animal, hora como gente simples, hora como rei, e aqui, nesse conto chamado Suzima, ele aparece justamente como rei, um rei poderoso, jovem no auge da vida.

Conta a história que o Bodhisatta tinha nascido numa grande cidade, filho do rei, e que cedo subiu ao trono. Ele estava com justiça. Repara, não era um tirano. Era daqueles reis que os antigos chamavam de bons. Cuidava do reino como quem cuida de um jardim. Abria os celeiros nos anos de seca. Ouvia as queixas do povo. Fazia doação aos pobres e aos sábios. Praticava o que em Palície chama dana, a generosidade. E justamente por ser bom, tinha tudo de bom que um rei pode ter. Palácios, parques, lagos com flores de lotos, dançarinas, música ao entardecer, comida farta, a vida inteira sorrindo para ele.

Agora esse rei tinha um costume. Todo ano, num certo dia de festa, ele se enfeitava com as joias da realeza, subia no melhor elefante e dava a volta pela cidade enquanto o povo o saudava. E nesse dia, antes de sair, ele chamava o barbeiro real, um homem de muita confiança, e dizia uma coisa estranha. Dizia sim, meu amigo, no dia em que você encontrar um fio de cabelo branco na minha cabeça, me avise, não esconda de fio, não arranque as escondidas, me conta. E o barbeiro, ano após ano, penteava aquela cabeleira negra e não encontrava nada. Até que um ano, no meio dos fios escuros, lá estava ele.

Um único fio branco, fino, brilhando como um fiapo de lano chão de uma sala escura. O barbeiro gelou, mas tinha dado a palavra. Posou o pente de ouro, juntou as mãos e disse baixinho, Senhor, apareceu. O mensageiro chegou. O rei sabia exatamente o que aquilo queria dizer. Pediu que o barbeiro arrancaste o fio com uma pinça de ouro e o pusece na palma da sua mão. E ali, sentado no seu trono, com todo o reino a seus pés, ele ficou olhando aquele fiozinho branco descansado na mão e começou a pensar. "Olha só", ele disse para si mesmo. Esse fio não pediu licença, não bateu na casa. A velice chegou e simplesmente sentou na minha cabeça como quem senta na própria casa.

E se a velice já chegou, a doença e a morte vêm logo atrás, na mesma estrada. Quanto tempo ainda vou ficar correndo atrás de prazer, como uma criança correndo atrás de borboleta, enquanto o sol vai baixando. E aqui vem a virada da vida desse homem. Ele não entrou em pânico, não mandou tingir o cabelo, não mandou chamar médicos prometendo juventude, não fez o que tanta gente faz, que é mais alto para não ouvir o sussurro da própria mortalidade. Ele fez o contrário, ele ouviu. Na quele mesmo dia, o rei chamou seu filho mais velho, entregou nas mãos do rapaz o reino inteiro. A coroa, o exército, as cidades, os celeiros, tudo.

Chamou os ministros e disse "não fiquem tristes". Eu vi um mensageiro vindo dos deuses, plantado na minha própria cabeça. Ele veio me lembrar que essa vida tem um prazo. Eu não quero gastar o tempo que me resta acumulando aquilo que vou ter que fazer de qualquer jeito. Vou para a floresta enquanto ainda tenho pernas para andar até lá. E foi. Tirou as joias, vesti uma roupa simples cor de terra, deixou o palácio com a mesma naturalidade com que a gente deixa um quarto de hotel no fim da viagem. Foi viver como a seta, num lugar tranquilo, dedicado à meditação, à bondade, ao cultivo do coração.

Diz o conto que ele desenvolveu a mente serena. Cultivou meta, o amor que não exclui ninguém e viveu o resto dos seus dias em paz. Sem trono, sem medo. Tinha trocado um reino de fora por um reino de dentro e esse ninguém tira. Agora repara no que esse conto está dizendo para a gente. Aqui, hoje, a gente vive numa época que faz exatamente o oposto desse rei. O fio branco aparece e a gente corre para a farmácia. A primeira ruga e já tem um filtro pronto para apagar. A gente construiu uma cultura inteira em cima de fingir que o tempo não passa e não tem nada de errado em se cuidar, em querer estar bem.

O problema é mais rápido. O problema é que, ao apagar o sinal, a gente também apaga a mensagem que o sinal trazia. O fio branco do rei não era um defeito a ser corrigido. Era um mensageiro. Era a vida dizendo, com toda a delicadeza. Ei, você tem um tempo e ele é finito. O que você quer fazer com ele? A coragem desse rei não foi largar o trono. A coragem foi olhar para a própria finitude sem desviar o olhar. Porque quem encara que vai morrer, repara, é exatamente quem aprende a viver. Quando você sabe que o jogo tem fim, você para de empilhar fichas que não vai poder levar e começa a se perguntar o que realmente importa.

Bondade importa. Presença importa. Paz de espírito importa. O resto, esse monte de coisa que a gente acumula com tanto esforço, é tudo trono. É tudo que se entrega na saída. E não, você não precisa largar o emprego e ir morar numa floresta. A floresta do conto é um símbolo. O que o rei largou de verdade não foi o palácio. Foi a ilusão de lá para adiar para sempre a conversa com a própria mortalidade. Aqui vai uma coisa para hoje. Procura hoje o seu fio branco. Não precisa ser no cabelo. Pode ser aquele cansaço novo que apareceu. O nome que você demorou a lembrar. O aniversário que chegou mais rápido do que devia.

A foto antiga que te mostrou quanto tempo passou. Quando ele aparecer, em vez de arrancar e esconder, faz como o rei. Para o monte, coloca esse mensageiro na palma da mão e pergunta uma só coisa. Se o meu tempo é mesmo limitado, o que é que eu ando fazendo com ele hoje vale a pena? E aí escolhe uma coisa, só uma, para fazer ainda hoje que seja digna desse tempo que corre. Um telefonema que você adia, um perdão que você segura, dez min de silêncio sentado em paz. Não dá para parar o fio de enbranquecer, mas dá para deixar de gastar a vida fugindo dela.