O espírito da árvore e o medo da semente trazida pela ave

Budismo · Temporada 15 · Episódio 17 de 21 — em ordem cronológica

O que te assusta mais: a tempestade iminente ou a pequena semente que você ignora? O maior perigo não vem de fora, ele brota de um descuido interno.

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Transcrição

Imagina que você é árvore mais alta e mais forte da floresta inteira. As tempestades passam por você e você nem balança. E aí um dia um passarinho pousa no seu galho, faz o que passarinho faz e cai dali uma sementinha minúscula, pequena assim ó, e essa coisinha de nada te enche de pavor. Faz sentido pra você, pode parecer estranho, mas é exatamente sobre isso que esse conto fala. E a pergunta que ele deixa é a seguinte, o que é mais perigoso, a tempestade que você vê chegando, ou a coisa pequenininha que você nem repara que está crescendo. Deixa eu te contar. Isso é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava no longo caminho de se tornar Buda, vida após vida, às vezes nascendo como pessoa, às vezes como animal, e às vezes, como nesse conto, como o espírito que habita uma árvore.

Nessas histórias a gente chama esse futuro Buda de Bodhisatta. Pois bem. Naquele tempo, numa floresta densa do Himalaya, crescia uma árvore gigantesca, uma cote-simbale, uma daquelas árvores de algodão da seda, dessas que ficam imensas, com o tronco mais grosso que a gente consegue abraçar e os galhos abertos como um teto sobre a floresta inteira. E nessa árvore vivia o Bodhisatta, nascido como o espírito que habitava, o deva da árvore, era uma árvore poderosa. As raízes desciam fundo fundo na terra, agarradas na rocha, o tronco era uma muralha viva, quando vinha o vento das montanhas, aquele vento que arranca telhado, que derruba mata, a cote-simbale apenas suspirava entre as folhas e continuava de pé, nada abalava, e o espírito que vivia nela tinha, é verdade, um certo orgulho tranquilo daquela força toda.

Até que um dia, o rei dos pássaros, a grande ave garuda, veio voar por ali. Era um ser enorme, com asas que escureciam o céu quando passavam, ele desceu, cansado de uma longa viagem sobre os oceanos, e procurou onde pousar, olhou a floresta toda e escolheu, claro, a árvore mais firme que existia, a cote-simbale do Bodhisatta, pousou nos galhos de cima, dobrou as asas imensas, e descansou, e enquanto descansava, deixou cair do bico uma sementinha, uma semente de figueira estranguladora. Você já viu uma dessas, a figueira que aperta, aquela que nasce pequena, lá no alto, num galho qualquer, e vai jogando raízes pra baixo, devagarzinho, sem pressa nenhuma, abraçando a árvore que a sustenta, e vai apertando, e vai apertando, até que um dia a árvore que assegurava está morta por dentro, sufocada pela própria hóspede, a semente caiu numa fenda da casca da cote-simbale, lá ficou, quietinha.

Agora, repara numa coisa interessante, as outras divindades das árvores da floresta começaram a rir do espírito da cote-simbale. "Olha você, com toda a sua força", diziam, tremendo de medo de uma sementinha. "Você que aguenta o vento da montanha, você que aguenta a tempestade, com medo de uma coisa tão pequena que mal dá pra ver, mas o Bodhisatta, o espírito da quela grande árvore, não se deixou levar pela zombaria", e ele respondeu com uma calma que vinha de quem enxerga de verdade, ele disse mais ou menos assim, "Vocês riem porque olham pro tamanho da semente hoje, eu não olho pro tamanho dela hoje, eu olho pro que ela vai se tornar, o vento eu não temo, porque o vento vem, sopra e vai embora, e eu continuo de pé.

A tempestade passa, mas essa semente não vai passar, ela vai ficar, vai crescer comigo, dentro de mim, agarrada em mim, e no dia em que eu percebeu o perigo de verdade, já vai ser tarde demais pra me soltar dela. O que me derruba não é o que vem com fúria de fora, é o que se instala devagar por dentro, e o espírito da árvore tinha toda a razão. Porque a semente da figueira não chega gritando, não vem com trovão, ela chega no silêncio carregada por uma ave deixada num descuido, e começa pequena, tão pequena que parece bobagem se preocupar. E é justamente por parecer bobagem que ela é tão perigosa, a gente se defende do que é grande, do que é pequeno, a gente nem se dá ao trabalho, conta a história que o espírito da árvore e sábio tratou de cuidar daquilo enquanto ainda dava tempo, antes que a raiz pequena virasse o abraço mortal que sufoca por dentro.

Agora, repara no que esse conto está dizendo pra gente. A gente vive numa época que aprendeu muito bem a temer as grandes tempestades. A gente se prepara pra crise enorme, pro desastre, pra notícia gigante, mas as coisas que de fato moldam a nossa vida quase nunca chegam como tempestade, elas chegam como semente, aquele hábito que você começou só uma vez, aquela mentirinha pequena que pareceu inofensiva, aquele recentimento miúdo que você guardou achando que não era nada, aquela rolagem de tela de cinco min que virou três águas sem você perceber, aquele copa mais, aquela palavra dura repetida todo dia em casa.

Nenhuma dessas coisas derruba ninguém um dia, mas todas elas são figueiras estranguladoras, elas crescem por dentro devagar, agarradas em você, e quando você crescente o aperto de verdade, a raiz já está em toda parte. E o budismo tem um nome pra essa atenção que enxerga a semente antes dela virar árvore, é a vigilância, o cuidado de quem não dorme no volante da própria mente. Os mestres chamam isso de apamada, a diligência, a lucidez que não se deixa enganar pelo tamanho aparente das coisas, o espírito sábio da árvore não era paranoico. Ele só sabia que algumas coisas pequenas têm tempo e que o tempo dado a elas faz delas gigantes, a gente faz o contrário, né? Trata o pequeno com desprezo e o grande com pânico.

E acaba sufocado não pelo furacão, mas pela sementinha que riu da nossa cara. Aqui vai uma coisa pra hoje. Pensa numa semente que pousou na sua vida ultimamente. Não a tempestade, não o problemão. A coisa pequena, aquela que você vem dizendo pra si mesmo que não é nada, que depois eu vejo, pode ser um hábito, uma gente pequena, uma conversa que você está adiando, um rancor miúdo, hoje, faz como o espírito da árvore. Não olha pro tamanho dela agora, olha pro que ela vira se você deixar crescer mais um ano, e aí cuida dela enquanto ainda é só uma semente na fenda da casca, enquanto a raiz ainda sai fácil, porque é sempre mais leve arrancar a semente hoje do que tentar se soltar da árvore depois.