Imagina que você passou a vida inteira cuidando de um rebanho que é seu. Você conhece cada animal pelo nome, sabe qual deles fica manco quando chove, sabe qual gosta de dormir mais perto da fogueira. E aí, um dia, aparecem uns visitantes bonitos, estranhos, brilhantes, e você fica tão encantado com eles que esquece de quem sempre esteve do seu lado. No fim, você perde os dois. O que era seu e o que nunca foi. É mais ou menos isso que acontece nesse conto. E eu acho que ele fala com a gente de um jeito meio incômodo, sabe? Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos nas vidas passadas do Buda.
De quando ele ainda não era o Buda, ainda estava a caminho, ainda estava se tornando aquilo que ele seria. Nessas histórias, o futuro Buda, o Bodhisatta, aparece às vezes como gente comum, às vezes como bicho, às vezes como rei. E aqui, nesse conto chamado do Makari, ele aparece como uma testemunha sábia, um conselheiro de rei que repara numa tolice que estava acontecendo bem debaixo do nariz de todo mundo. A história é assim. Havia um homem, um pastor de cabras, não um rei, não um nobre, só um sujeito simples que vivia do seu rebanho. As cabras eram tudo o que ele tinha. Era delas que vinha o leite, a lan, o sustento da casa.
Ele criava aquelas cabras com cuidado, levava elas para pastar, trazia de volta ao entardecer, contava uma por uma antes de dormir. A vida dele girava em torno daquilo e estava tudo bem. Até que, numa certa estação, chegou ao bosque perto do pasto, um bando de servos selvagens, servos bonitos, de pelagem viscosa, com aquele jeito arisco e elegante dos animais que não pertencem a ninguém. Eles vinham se aproximando devagar, atraídos pelo capim verde onde as cabras pastavam. E o pastor olhou para eles e ficou encantado. "Que animais lindos!" ele pensou, "que pelo macio, que olhos grandes.
Eu queria que esses servos ficassem comigo. Repara, eles já tinham um rebanho. Mas o que era dele, o que estava perto, o que era certo. Isso não brilhava mais aos olhos dele. O que brilhava era o novo, o selvagem, o que ele não tinha." Então o pastor teve uma ideia. Os servos eram ariscos por causa dos mosquitos e das moscas que os perseguiam no calor. Ele percebeu que, se fizesse uma fogueira esperta, dessas que soltam bastante fumaça, a fumaça espantava os insetos e os servos chegavam mais perto, mais tranquilos, e foi o que ele fez. Acendeu fumaça pelo pasto inteiro. E os servos, aliviados, foram chegando, foram ficando.
Por isso, aliás, o nome do conto, Dumacari, quer dizer mais ou menos o que faz fumaça, o fumacento. O homem que viveu pela fumaça. Mas presta atenção no que aconteceu com o tempo dele. O pastor agora passava os dias inteiros cuidando da fumaça, alimentando o fogo, vigiando os servos, encantado com aqueles hóspedes que não eram dele. E as cabras, as cabras foram ficando de lado. Ele não contava mais elas à noite, não reparava mais quando uma se afastava. A atenção dele tinha mudado de lugar e veio o fim da estação. A época mudou, o calor passou, e os servos selvagens fizeram o que servos selvagens fazem.
Foram embora, voltaram para a floresta, para o mato, para a liberdade deles. Não deviam nada ao pastor. Nunca tinham sido dele. Sumiram numa manhã, como tinham chegado, e não olharam para trás. O pastor saiu correndo atrás. Tentou alcançar os servos floresta dentro. E claro que não conseguiu. Servos selvagens corre mais que homem. Ele voltou de mãos vazias, exausto, derrotado. E quando chegou em casa, descobriu a parte pior da história. Enquanto ele cuidava da fumaça e dos servos, o rebanho dele tinha definhado. Sem cuidado, sem atenção, sem o pastor por perto. As cabras adoeceram, se perderam, morreram, o rebanho inteiro se foi.
E o homem ficou ali, no meio do pasto vazio, sem os servos que nunca foram dele e sem as cabras que tinham sido a vida inteira dele. Foi então que o Bodhisatta, que era um homem sábio daquela região, comentou a história. Ele disse, com aquela gentileza de quem não está xingando ninguém, só mostrando quem abandona o que tem nas mãos correndo atrás do que não tem, perde os dois, perde o sonho e perde o chão. Agora, repara no que esse conto está dizendo. Porque eu acho que a gente faz isso o tempo todo e nem percebe, a gente tem um rebanho. Pode ser uma pessoa que ama um trabalho honesto, uma amizade antiga, uma rotina que sustenta a gente, um corpo saudável, uma casa em paz, coisas que são nossas, que estão perto, que pedem só uma coisa.
Cuidado constante. Atenção miuda. Presença. Não brilham. Cabra não brilha. O que é nosso de verdade quase nunca brilha, porque a gente já se acostumou. E aí aparecem os servos. A novidade. O que é mais bonito porque é mais distante. A vida dos outros nas telas. A oportunidade que parece melhor só porque não é a nossa. A pessoa nova que encanta justamente por ser desconhecida. A próxima coisa que a gente acha que vai finalmente nos completar. E a gente acende a fumaça. Investe o tempo, a atenção, a vida inteira nisso que é selvagem e que nunca prometeu ficar. O budismo tem uma palavra para essa virtude que faltava no pastor, a Pamada, que é a vigilância, o cuidado atento, o não descuido.
É a qualidade de quem está presente no que importa, de quem não larga o que lhe foi confiado para correr atrás de fumaça. O pastor pecou pelo contrário disso, pela distração encantada, pela cobiça do que era de fora. E o nosso tempo, deixa eu falar com carinho, é uma máquina de fazer fumaça. Tudo foi desenhado para puxar a sua atenção para longe do que é seu. Cada tela, cada notificação, cada comparação é um servo bonito passando na beira do pasto. E enquanto a gente fica encantado, alimentando aquela fogueira, o rebanho da nossa vida real, as pessoas de verdade, as tarefas que sustentam a gente, vai definhando em silêncio, sem reclamar, até o dia em que a gente se vira e descobre que sumiu.
Aqui vai uma coisa para hoje. Pensa em qual é o seu rebanho, o que é de verdade seu e está precisando de você agora. Pode ser uma pessoa que você anda deixando e esperando um cuidado com você mesmo que você anda adiando. E pensa em qual é a fumaça, aquilo que está roubando a sua atenção sem te devolver nada. Só por hoje, faz o contrário do pastor. Vira as costas para o servo selvagem e vai contar as suas cabras, uma por uma. Dá atenção ao que já é seu antes que ele vá embora calado, como vão embora as coisas de que a gente esquece de cuidar.