Imagina uma casa cheia de gente dormindo no meio da noite. Todo mundo entregue, respirando fundo, sem nenhuma preocupação. E, no meio dessa casa, uma única pessoa que continua acordada. Será que ela é infeliz da história, a que não consegue descansar? Ou será que é justamente ela a única que está, de verdade, salva? A resposta a essa pergunta vira o mundo de cabeça pra baixo. Porque, nesse momento, quem dorme não é quem você imagina e quem está acordado também não. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava a caminho de se tornar Buda.
Naquele tempo ele era o Bodhisatta, aquele ser que vida após vida vinha juntando coragem, paciência e sabedoria, e que aparecia hora como rei, hora como mendigo, hora como bicho do mato. Nessa história, ele aparece como uma divindade, um espírito que é uma árvore, observando os seres humanos lá embaixo. E o que ele observou, rendeu uma pergunta que, sinceramente, devia estar pregada na parede da nossa casa. Conta-se que, numa certa noite, numa aldeia, uma quadrilha de ladrões resolveu agir. Eles sabiam o costume do lugar. As pessoas, depois de um dia inteiro de trabalho, comiam, conversavam um pouco e iam dormir cedo.
A aldeia inteira mergulhava no sono como quem mergulha num rio escuro. E os ladrões contavam com isso. Eles esperavam o silêncio total, aquele ponto da madrugada em que ninguém mais se mexe, para então entrar nas casas e levar o que quisessem. Mas numa dessas casas tinha uma pessoa diferente. Um homem, alguns dizem que era uma mulher de muita virtude, que tinha o hábito de ficar desperto, não por medo, repara, e não por insônia. Era um despertar de outra natureza. Essa pessoa praticava a atenção, sentava-se em silêncio, observava a própria respiração, observava os pensamentos indo e vindo, e mantinha a lamparina interior acesa enquanto o corpo descansava o necessário.
Era alguém que tinha entendido uma coisa simples e enorme ao mesmo tempo, que a vida escorre pela gente justamente nos momentos em que a gente não está prestando atenção. Ora, e foi aí que a coisa aconteceu. Quando os ladrões chegaram pé-ante-pé, prontos para arrombar a porta, eles perceberam que dentro daquela casa tinha alguém de pé, tinha alguém acordado, atento com a luz acesa, alguém que claramente notaria o menor barulho. Os ladrões se entreolharam e fizeram a conta na cabeça. Casa com gente desperta é casa de risco, ali eles seriam vistos, seriam denunciados, talvez presos.
Então deram meia volta e foram embora. Passaram por todas as outras portas, as portas dos que dormiam pesado, e nessas, sim, entraram. A divindade da árvore, o Bodhisatta, viu tudo isso do alto, e enquanto a aldeia inteira perdia seus bens no escuro, sem nem saber, ela contemplou aquela única casa intacta, a casa de quem estava desperto. E dessa cena nasceu a reflexão que dá nome ao conto, mais ou menos assim. Aquele que permanece desperto entre os que dormem, esse vive realmente desperto, e aquele que dorme entre os que estão despertos, esse vive realmente adormecido. O sábio vive de um jeito, e o tolo vive de outro, e a diferença não está em quem fecha os olhos à noite.
A diferença está em quem mantém a consciência acesa de dia, no meio da própria vida. O que o Bodhisatta não estava falando só de ladrões e fechaduras, ele estava falando de uma coisa muito maior. Os ladrões da nossa existência não vêm só de madrugada com um saco nas costas. Eles vêm em forma de raiva que toma conta da gente sem a gente perceber. Vêm em forma de inveja que cresce com a minha, vêm em forma de desejo que nos arrasta, de medo que nos paralisa, de horas e horas que escorrem entre os dedos enquanto a gente vive no piloto automático. Esses ladrões entram exatamente nas casas que estão dormindo.
Quer dizer, eles entram nas mentes que estão desatentas, distraídas, anestesiadas, agora repara no que esse conto está dizendo sobre a gente, aqui, hoje. A gente vive numa época que é praticamente uma fábrica de produzir gente adormecida, e o mais curioso é que esse sono moderno vem disfarçado de movimento. A gente está sempre fazendo alguma coisa, sempre com o polegar deslizando na tela, sempre com algum som no ouvido, sempre com a cabeça em três lugares ao mesmo tempo, e a gente chama isso de estar ligado, de estar antenado, de estar por dentro. Mas, do ponto de vista desse conto, é o sono mais profundo de todos, porque você pode estar com os ladrões bem abertos, encarando o celular às duas da tarde, e ainda assim estar completamente adormecido para a própria vida, comendo sem sentir o gosto, conversando com alguém sem realmente escutar, atravessando a rua, o ano, a década inteira sem ter estado presente em quase nada.
E aí entram os ladrões, as semanas que somem, a irritação que vira o tom normal da casa, o vício de rolar a rouba a sua noite inteira sem deixar nada em troca. Tudo isso entra fácil, fácil, porque ninguém está acordado para notar. A virtude que esse jataca celebra tem nome na tradição, a pamada, que a gente pode traduzir como vigilância, ou diligência, ou simplesmente o cuidado de não viver no automático. Dizem que foi essa, inclusive, a última palavra do Buda antes de partir. Continuem despertos, com diligência. Não é à toa. E olha, não tem nada de melancólico nisso. Não é sobre desconfiar do mundo, nem viver tenso, vigiando a ameaça.
É o contrário. É sobre presença. É sobre estar tão dentro do seu próprio momento que nada de importante passa por você sem ser visto. A pessoa desperta do conto não estava com medo. Ela estava em paz, justamente porque estava acordada. O sono dela era leve porque a vida dela era inteira. Aqui vai uma coisa para hoje. Escolhe um único ponto comum do seu dia. Pode ser o café da manhã. Pode ser o caminho de volta para casa. Pode ser lavar a luz. E, nesse momento, faz só uma coisa. Fica desperto, sem tela, sem som, sem pensar no próximo compromisso. Sente água, o gosto, o passo, a respiração.
Repara em quem está acordado dentro de você. É um treino pequeno, de um mim que seja. Mas é assim que se acende a lamparina. E quando acesa, deixa eu te dizer, os ladrões passam reto pela sua porta.