Uma oferenda de mingau que rende um reino

Budismo · Temporada 15 · Episódio 20 de 21 — em ordem cronológica

Você mede generosidade em dinheiro? Prepare-se para virar essa conta do avesso: o que vale é dar o que você *acha* que não tem.

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Transcrição

Imagina que você tem só quatro porçõesinhas de mingau de ervilha, não é banquete, não é nada demais. É só o que você conseguiu juntar pra matar a fome do dia. E, do outro lado da estrada, passam quatro homens cobertos de poeira. Em silêncio, com aquele olhar de quem caminha há muito tempo. Você divide o seu pouco com eles, sem saber quem são. O que pode vir de um gesto tão pequeno assim? A resposta desse conto é meio absurda de tão grande. Mas é a forma do conto de te dizer uma coisa séria sobre o tamanho real de uma boa ação. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, e estava só atravessando vida após vida, juntando virtude, se tornando aos poucos aquele que um dia despertaria.

Às vezes ele aparece como rei, às vezes como bicho, às vezes como gente simples. Nesse aqui, ele começa do jeitinho mais humilde que tem. O Budi Sata, o futuro Buda, nasceu numa família pobre, numa cidade chamada Benares, trabalhava de empregado, de diarista, dessas pessoas que carregam, que cavam, que fazem o serviço pesado dos outros por uma migália. Ele era honesto, era de coração leve, e tinha uma fé tranquila sem alarde. Não era um homem que tivesse o que dar. Era um homem que tinha quase nada. Em dia, ele recebeu seu pagamento e com aquilo comprou um pouco de farinha de ervilha, cozinhou um mingau, dividiu em quatro porções, e pensou "vou comer isso no caminho".

Saiu então à pé, levando suas quatro pequenas porções embrulhadas. Acontece que, naquele exato momento, quatro homens caminhavam pela mesma estrada, mas não eram quatro homens quaisquer. Eram quatro paxecabudas, quatro despertos solitários, daqueles que alcançaram a verdade por conta própria, e seguem o mundo em silêncio, pedindo só o necessário, sem pregar, sem cobrar nada de ninguém. Eles tinham acabado de sair de um longo período de meditação profunda, e estavam, naquela hora, percorrendo a cidade em busca de esmola. Caminhavam serenos, com suas tigelas, sem pedir com a boca, só oferecendo a presença.

O bode sata olhou para eles, reparou no porte sereno, no silêncio, na poeira dos pés descalços, e sentiu, lá no fundo, um arrepio de respeito. Pensou consigo, eu tenho essas quatro porções de mingau. E eu, com toda a minha pobreza, não tenho nada de mais valioso para dar do que isso. Mas esses quatro, esses são um campo de virtude. Dar a eles é plantar numa terra boa. Ele não te tubiou. Não fez a conta de quanto ia sobrar para ele. Ajoelhou na beira da estrada, prestou reverência, e ofereceu uma porção a cada um dos quatro. Deu tudo. Não guardou nenhuma colherada para si. E aqui vem a parte bonita.

Enquanto entregava, ele fez um voto silencioso no coração. Não pediu riqueza, não pediu vingança, não pediu sorte no jogo da vida. Ele pediu, com humildade, que aquele pequeno mérito o ajudasse, um dia, a tocar a mesma paz que via no rosto daqueles homens. Pediu para participar, ainda que de longe, da verdade que eles carregavam. Os quatro despertos receberam um mingau, fizeram suas bênçãos silenciosas, e seguiram caminho. Rezam o conto que, daquele gesto, brotou uma cadeia de coisas boas. Naquela mesma vida, e nas que vieram, a generosidade daquele homem pobre foi rendendo, rendendo.

Diz a tradição que, no tempo certo, esse mérito amadureceu e o levou a nascer rei. Quatro porções de mingau de ervilha, dadas com o coração inteiro, viraram, lá na frente, um reino. Não porque mingau compra trono, mas porque o que ele plantou ali não foi comida, foi o tipo de coração que, quando se repete vida após vida, constrói um destino. Agora, repara no que esse conto está dizendo. Ele não está te prometendo que, se você der um prato de comida hoje, amanhã ganha na loteria. Não é mágica, e não é troca. O que o conto está apontando é mais fino que isso. Ele diz que o valor de uma oferenda não está no tamanho do que você dá.

Está em três coisas. Na pureza de quem dá, na qualidade de quem recebe, e na intenção que você coloca no gesto. Aquele homem deu o seu tudo, deu sem reservar nada para si, e deu para o melhor campo possível. Por isso, o pouco virou muito. E olha como isso bate de frente com a gente hoje. A gente vive numa época que mede generosidade no peso. Ah, mas é só um real. Ah, mas eu mal posso ajudar. A gente se convence de que, se não dá para dar grande, não vale a pena dar. E aí não dá nada. Ou então, a gente dá, mas dá calculando, dá esperando o retorno, dá para postar, dá para aparecer.

E nesse cálculo todo, o coração fica de fora. O conto vira esse raciocínio do avesso. Diz que o mendigo que dá a última colher de mingau, com o coração aberto, planta mais fundo que o rico que doa milhões para aparecer no jornal. O nome budista disso é dana, a generosidade. E dana de verdade não se mede pelo extrato bancário, se mede pela coragem de dar quando você acha que não tem. Tem outra coisa escondida aqui também. O homem deu sem saber, no começo, exatamente quem eram aqueles quatro. Ele não esperou ter certeza do retorno para agir. Ele agiu pelo respeito pela intuição de que ali havia algo digno, a gente hoje quer garantia antes de ser bom.

Quer saber se a pessoa merece, se vai usar bem, se vai agradecer. E enquanto a gente investiga, a hora passa, aqui vai uma coisa para hoje. Nas próximas 24 horas, dá uma coisa que vai te custar um pouquinho. Não o troco que sobrou, não o que você ia jogar fora de qualquer jeito. Algo que mexa um milímetros com você, um pedaço da sua comida, um tempo que você ia usar para você, uma ajuda que dá um trabalhinho, e, na hora de dar, não calcule o que volta. Só ofereça, em silêncio, do jeito daquele homem pobre na beira da estrada. Porque o tamanho da sua oferenda nunca foi o ponto. O ponto sempre foi o tamanho do coração que cabe dentro dela.