Imagina que a sua vida inteira depende de uma só pessoa guardar um segredo e que essa pessoa lá no fundo já te odeia. Você sabe disso ou prefere não saber e mais, e se a verdade que ele esconde fosse gritada de volta, em plena floresta, pela boca de um animal selvagem, deixa eu te contar, esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava se tornando Buda, andando por muitas vidas como o Bodhisatta, às vezes nascido homem, às vezes nascido bicho, sempre aprendendo alguma coisa sobre como o coração funciona. Pois então, havia num rei no antigo, um rei chamado Parantapa, homem de poder, daqueles que tinham tudo, palácio, exército, uma rainha bela e jovem, e um filho ainda na barriga dela, esperado com festa, e tinha também, sempre por perto, um servo de confiança, um sujeito que carregava as armas do rei, que dormia à porta dos aposentos, que ouvia as conversas baixas, um homem de dentro, acontece que esse rei, junto com a rainha grávida e o tal servo, foi obrigado a fugir, um inimigo tomou a cidade, e os três escaparam pela floresta, sem corte, sem guarda, sem nada, de rei e rainha não sobrou quase nada além do nome, acharam um lugarzinho escondido na mata, levantaram uma cabana, e ali ficaram, esperando o dia de talvez voltar, e aqui começa o veneno, repara como ele entra devagar, a rainha era jovem e bonita, o servo era homem, e a vida na floresta, longe dos olhos do mundo, foi afrouxando as costuras, aos poucos escondido, o servo e a rainha começaram a se entender, um olhar a mais, uma palavra a mais, e logo a traição já estava feita, ali, a poucos passos do rei que não desconfiava de nada, e quando o coração da rainha virou para o servo, nasceu junto uma ideia escura, dessas que a gente quase não ousa pensar em voz alta, e se o rei simplesmente sumisse, um dia o rei resolveu ir até um rio que corria perto, lavar-se, e pediu ao servo que fosse junto, carregando a espada, como sempre fazia, foram os dois, sozinhos, pela mata, lá, a beira d'água, longe de qualquer testemunha, o servo levantou a espada do próprio senhor, o rei que confiara nele a vida inteira, mal teve tempo de entender, o servo o matou ali mesmo e escondeu o corpo, depois voltou tranquilo, contou a rainha que estava tudo resolvido, e os dois passaram a viver como se fossem marido e mulher naquela cabana, criando juntos a criança que nasceu, o filho do rei morto, mas tem uma coisa que o servo não sabia, naquele dia do crime escondido entre as árvores, alguém viu tudo, não um homem, um chacal, e o tempo passou, o menino cresceu, e o servo, agora dono da casa, dono da mulher, dono de tudo o que estava, foi virando um homem nervoso, irritado, daqueles que não conseguem ficar quietos por dentro, quem carrega um segredo de sangue não dorme em paz, vivia a rispido, gritava com a rainha, gritava com o menino, e ela por sua vez, foi se cansando dele, como a gente se cansa de tudo que conseguimos por um caminho torto, um certo dia, o servo pegou de novo a velha espada, e disse que ia para o rio, lavar-se exatamente como naquele outro dia, e pediu que o menino fosse junto, carregar a arma, a rainha ouvir aquilo, sentiu um frio, era a mesma cena, o mesmo rio, a mesma espada, e uma voz dentro dela, fininha, perguntou, será que ele vai fazer com o meu filho o que fez com o pai dele, foram os dois para a mata, e foi então que do meio das árvores surgiu um chacal, o mesmo ou um igual não importa, um chacal que parou, olhou aqueles dois homens indo para o rio com uma espada, e soltou um uivo, mas não um uivo qualquer, naquele conto o chacal falou, falou que ninguém nunca tinha dito em voz alta, parântapa, uivou o chacal, chamando o rei morto pelo nome, parântapa foi morto a beira deste rio, a mão que segura essa espada é a mão que matou o seu senhor, o servo gelou, o menino que estava à arma, ouviu, e entendeu, de repente o ar pesou, o homem que ia talvez repetir o crime percebeu que a floresta inteira sabia, que o segredo que ele guardara a vida toda nunca tinha sido o segredo coisa nenhuma, a natureza tinha visto, e a verdade mesmo enterrada tinha ficado ali esperando o seu dia de uivar, e nesse momento o aviso era duplo para o menino que entendeu de usar, e para o servo que entendeu tarde demais, que o que se esconde não some, só espera, e o bodhisatta, nesse conto, a presença sábia, a voz que vê o oculto e diz a verdade no instante exato, é justamente essa criatura da floresta, o futuro buda, mais uma vez, aparecendo onde menos se espera, para lembrar que a verdade tem um jeito teimoso de vir à tona.
Agora, repara no que esse conto está guardando, a gente vive achando que dá para esconder as coisas, que se ninguém viu, então não aconteceu, que se a gente não fala, fica tudo guardado num cofre lá dentro, sem peso, sem custo, e o budismo vem, gentil, e diz não é bem assim, toda ação deixa rastro, tudo o que você faz fica primeiro dentro de você, mexendo no seu sono, na sua paz, no seu jeito de olhar as pessoas, o servo conseguiu o trono, a mulher, a casa, e mesmo assim virou um homem rancoroso, incapaz de descansar, porque o crime não vai embora só porque ninguém apita, e olha que coisa atual, hoje a gente apaga a mensagem, esconde a aba do navegador, dá uma versão para um e outra para outro, vive editando a própria imagem como quem edita uma foto, e acha que controla a narrativa, mas igual ao servo, a gente esquece do chacau, sempre tem um chacau, pode ser uma testemunha que vem viu, pode ser a sua própria consciência que huiva de madrugada, a verdade não precisa de muita gente para aparecer, às vezes basta um bicho na beira do rio, aqui vai uma coisa para hoje, pensa numa única coisa que você está escondendo agora, alguma versão que você anda contando e que não bate com o que de fato aconteceu, não precisa expor tudo para o mundo, calma, mas hoje diz essa verdade em voz alta para você mesmo, sozinho, sem maquiar, foi isso que eu fiz, sentir o peso da coisa, sem disfarce, já é o começo de soltar ela, porque a paz não nasce de enterrar o corpo bem fundo, nasce de não precisar mais fugir do huivo.