A Sorte e o Azar disputam um homem

Budismo · Temporada 14 · Episódio 7 de 20 — em ordem cronológica

Duas deusas, Sorte e Azar, batem à sua porta neste exato momento. Qual delas você vai convidar para morar com você?

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Transcrição

Imagina que duas deusas aparecem na porta da sua casa no meio da noite. Uma é a sorte, radiante e perfumada, vestida de luz. A outra é o azar, sombria, e ela diz que veio pra ficar. E as duas brigam, ali na sua soleira, sobre qual das duas você merece. Quem decide quem fica? A resposta a essa pergunta, nesse conto, não está nas mãos das deusas. Está nas suas. Deixa eu te contar. Esse é um dos de atacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, ainda estava caminhando, vida após vida, se tornando aquilo que viria a ser. A gente chama esse viajante de Bodhisatta.

Às vezes ele aparece como um animal na floresta, às vezes como um rei, às vezes como nesse conto, como um homem comum de coração firme. E é justamente o coração firme dele que vai resolver a disputa das duas deusas. Conta a história que vivia, na cidade de Benares, um homem rico chamado Anatapindika, conhecido por todos o generosidade. A casa dele tinha as portas sempre abertas. Quem tinha fome, comia ali. Quem não tinha onde dormir, dormia. Os monges passavam. Os mendigos passavam. Os viajantes cansados passavam. E ninguém saía dali de mãos vazias. O Bodhisatta, nessa vida, era esse homem.

E ele dava não porque sobrava, mas porque dar era, pra ele, a forma mais natural de respirar. Agora repara num rei. Toda casa, dizia o povo daquele tempo, tinha um espírito que morava nela, uma divindade guardiã. E a casa de Anatapindika tinha a sua, uma deusa que vivia ali em cima do portal da entrada. E essa deusa, deixa eu te dizer, estava incomodada. Porque cada vez que um monge sagrado, um daqueles que seguia o Buda, cruzava aquele portal, a deusa que morava bem ali em cima sentia que tinha que morar no seu lugar por respeito. Subia, descia, subia, descia. E ela começou a achar aquilo um transtorno.

Então, um dia, ela criou coragem e foi falar com o dono da casa, aparecendo a ele numa luz trêmula. "Você está gastando tudo o que tem", ela disse. "Você dá, dá, dá. E não pensa no amanhã. Sua riqueza está mingando. Para com essa generosidade toda. Cuida do que é seu. Junta, cuida, e a sua fortuna vai voltar a crescer". Anatapindika olhou para ela com calma. E o que ele respondeu é o coração desse conto. "Esse é o único caminho que eu conheço", ele disse. "Eu não vou parar de dar por causa de um conselho como esse. E se foi isso que você veio me dizer, então você não pode mais morar debaixo do meu teto.

Procura outro lugar. Esta casa é uma casa que dá. A deusa ficou sem chão, expulsa, e olha o que acontece quando a gente confunde com mesquinhas. Ela saiu, vagou sem rumo, sem casa, sem portal, sem lugar nenhum no mundo. Porque uma divindade sem morada é como o azar andando solto. A flita, ela foi pedir ajuda. Foi atrás de outros espíritos, de seres mais poderosos. E por fim chegou até um sábio conselheiro, alguém que entendia das coisas profundas. E esse sábio disse para ela a verdade que ela não ia ouvir. Você falou, Matolice. Você confundiu a sorte com o azar. Aquele homem não estava se arruinando.

Ele estava plantando. Vai lá, se humilha, e pede para voltar. E é aqui que entram as duas deusas da disputa, a sorte e o azar, que na velha sabedoria daquela terra eram chamadas de Siri e Calacani. Porque o que o conto está dizendo no fundo é isto. A sorte e o azar disputam todo o tempo todo. E a deusa que foi embora descobriu, tarde demais, que enquanto ela morou naquela casa generosa, ela era a sorte. No instante em que ela pregou a vareza, virou o azar. A mesma deusa. As duas faces moram dentro da mesma escolha. Ela voltou então encolhida e implorou ao homem que a deixasse morar de novo no portal.

Mas a nata a pendica, sabe o que era, não se deu fácil. Ele a foi ao ar que tinha entendido. Ela teve que recuperar, com esforço e com humildade, a riqueza que o medo dela tinha desperdiçado. E teve que reconhecer, em voz alta, que a generosidade não esvazia. Ela enche. Só depois disso, vendo o coração dela genuinamente mudado, é que o homem a recebeu de volta. E ela voltou a morar sobre aquela porta que nunca se fechava pra ninguém. Agora repara no que esse conto está dizendo. A deusa do medo te diz uma coisa que parece sensata, racional até, guarda, segura, não dá tanto, pensa em você primeiro.

E hoje essa voz tem um volume altíssimo. Ela vem em forma de aplicativo que conta cada centavo. Em forma de primeiro eu me garanto, depois eu vejo o outro. Em forma de uma cultura inteira que mede o valor da gente pelo tamanho do que a gente acumula. A gente vive convencido de que segurar essa abedoria e que abrir a mão é risco. Mas o conto vira essa lógica do avesso. Ele diz que a avareza não é prudência, é o azar passado de bom senso. O homem que dá não está se esvaziando, ele está sendo a própria casa onde a sorte escolhe morar. Os budistas chamam isso de dana, a generosidade.

E dizem que ela não é o que sobra depois de cuidar de você. Ela é ela mesma, o cuidado, é a riqueza que não enferruja, que ninguém rouba. E que volta por caminhos que a gente nem consegue mapear. E tem uma sutileza fina aqui que é fácil deixar passar. O homem não venceu o azar lutando contra ele. Ele venceu como ele era, sem se deixar abalar pelo conselho do medo. A firmeza dele não foi teimosia, foi clareza. Ele sabia, no osso, que a vida que vale a pena viver é a vida de portas abertas. Doua o que doer no bolso. E foi essa firmeza que transformou o próprio azar de volta em sorte.

Porque o medo, quando a gente não obedece a ele, às vezes aprende. Às vezes ele se ajo ele e volta como benção. Aqui vai uma coisa pra hoje. Pensa numa pequena generosidade que você vem adiando porque as pessoas dentro de você sussurra, guarda, você vai precisar. Pode ser dinheiro, pode ser tempo, pode ser uma ajuda, um perdão, uma atenção. Hoje, faz esse gesto pequeno, sem esperar nada de volta. E sem deixar o medo ter a última palavra. Repara em quem mora na sua porta depois disso. Talvez você descubra que a sorte e o azar são, no fim, a mesma deusa. E que é você quem decide qual das duas fica.