O jovem abutre que voou alto demais

Budismo · Temporada 14 · Episódio 6 de 20 — em ordem cronológica

Você já voou alto demais, achando que a força era infinita? Existe um ponto no céu onde o vento vira inimigo, e ninguém te avisa até ser tarde demais.

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Transcrição

Existe uma altura, no céu, em que o vento deixa de ser amigo e vira inimigo, um lugar onde as asas mais fortes do mundo simplesmente não aguentam, e quase ninguém sabe que esse lugar existe até o momento em que já está nele, sem volta. Você já parou para pensar quantas vezes a gente sobe rápido demais, achando que a força que tenha é suficiente para qualquer altura. Deixa eu te contar. Esse é um dos já atacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava se tornando Buda, vivendo vida após vida como pessoa ou como animal, aprendendo de dentro para fora aquilo que um dia ele ensinaria ao mundo.

Naquele tempo, lá nas montanhas, num desfiladeiro de pedra que os mais velhos chamavam de Monte Gihakuta, o Monte dos Abutris, vivia uma grande comunidade dessas aves, e o rei dos Abutris, o líder daquele bando todo, era o Bodhisatta, o futuro Buda, nascido naquela forma, era uma ave enorme, de olhos calmos, asas largas como velas de barco, e uma coisa que os outros não tinham, experiência, ele já tinha voado por todos os ventos, já tinha sentido na pele cada corrente de ar daquele mundo, e por isso ele sabia de uma coisa que os jovens não sabiam, ele tinha um filho, um Abutri jovem chamado Migalopa, e que ave magnífica era esse filho, forte de um jeito que assustava.

Quando Migalopa abria as asas, o vento parecia se curvar, ele subia mais alto, mais rápido, e com mais facilidade do que qualquer outro Abutri do bando, os mais novos olhavam pra ele com admiração, e o pai, o velho rei sábio, olhava pra ele com admiração também, mas com uma ponta de preocupação no coração, porque o pai reparava numa coisa, Migalopa não voava só pelo prazer de voar, ele voava pra provar, sempre que subia, era pra ir um pouco mais alto que o irmão, um pouco mais alto que os outros, um pouco mais alto que ele mesmo no dia anterior. A força tinha virado fome, e fome de altura não se enche nunca.

Um dia, o velho rei chamou o filho e os outros Abutris jovens e disse, com aquela voz pausada de quem já viu muita coisa, filhos, voem onde quiserem, o céu é largo, vai longe, mas escutem uma única coisa do pai de vocês, quando chegarem àquela altura de onde a terra inteira lá embaixo parece do tamanho de uma folha, do tamanho de uma poça d'água, parem, daquele ponto, não subam mais um palmo, voltem, Migalopa ouviu, mas você sabe como é ouvir sem escutar, a advertência entrou por um ouvido, e o orgulho do jovem já estava preparando a saída pelo outro, ele pensou, lá com suas penas, o velho está cansado, o velho tem medo, eu não, eu sou mais forte do que ele jamais foi, porque eu pararia justo de onde tudo fica interessante, e veio o dia, os Abutris jovens subiram juntos, cortando o ar, brincando com as correntes, subiram, subiram, e a terra foi ficando pequena, as montanhas viraram rugas no chão, os rios viraram fios de prata, e chegou aquele ponto, aquele exato ponto, em que a terra inteira parecia uma folha solta lá embaixo, os outros, lembrando da voz do velho rei, fizeram a curva e voltaram, Migalopa, não, Migalopa olhou para cima, pro azul que continuava convidando, e pensou, é só isso, eu tenho muito mais, e subiu, subiu além do limite, subiu para dentro daquela faixa de céu de onde nenhum Abutri nunca tinha voltado, e foi aí que ele descobriu que o pai sabia, lá em cima, o vento não acariciava mais, o vento batia, vinha de todos os lados, ao mesmo tempo, gelado, furioso, cortando como lâmina, as correntes que lá embaixo sustentavam suas asas, ali em cima as rasgavam, Migalopa tentou bater as asas com toda a sua força, e a força, a sua tão orgulhosa força, não significava nada, o vento o pegou, o virou, o quebrou, e o jovem Abutri, que voou alto demais, despencou, despedaçado pelo próprio céu que ele quis conquistar, e nunca mais voltou para a montanha, agora repara no que esse conto está dizendo, com toda a gentileza do mundo, não é uma história contra a força, Migalopa era forte de verdade, e isso era lindo, é uma história sobre uma virtude que a gente quase esqueceu de chamar pelo nome, a humildade que sabe reconhecer um limite, os budistas falam muito em conhecer a medida das coisas, em não se deixar levar pelo orgulho, esse mana que infla o coração e cega o olho, o velho rei não proibiu o filho de voar, ele só pediu, conhece o teu limite, e respeita a sabedoria de quem chegou antes de você, e olha como isso bate aqui, no nosso tempo, a gente vive numa cultura que só sabe dizer vai mais alto, supera teus limites, não aceita teto, quem para é fraco, a gente transforma o cansaço em troféu, e o excesso em virtude, trabalha até o corpo gritar, depois posta a foto da noite virada como se fosse uma medalha, e quando alguém mais velho, mais experiente chega de mansinho e diz olha, daqui não convém subir mais, a gente faz igual ao Migalopa, pensa, esse aí está cansado, esse aí tem medo, eu sou diferente, só que tem ventos lá em cima que não perguntam quão forte você é, o esgotamento, a queda, a quebra, eles não negociam com o seu orgulho, a sabedoria do velho abutre não era pessimismo, era amor, era um pai dizendo, eu já estive onde você quer ir, e de lá não se volta, aqui vai uma coisa pra hoje, pensa numa área da sua vida onde você está subindo no automático, sempre querendo um pouco mais, um pouco mais alto, sem nunca perguntar onde fica o ponto de voltar, pode ser o trabalho, pode ser uma cobrança que você faz de si mesmo, e hoje faz só isso, identifica, em voz alta ou no papel, qual é a sua altura da folha, aquele ponto a partir do qual subir já não te faz bem, só te quebra, e quando você chegar perto dele, lembra do velho rei dos abutres, faz a curva com calma e volta pra montanha, não é fracasso, às vezes voltar é a coisa mais forte que existe.