Imagina que você ama alguém de verdade, mas essa pessoa só vai aceitar ficar com você se você acertar o nome dela, e ela jura, com um sorriso que nunca te disse, só que na verdade ela já te disse o nome inteiro, várias vezes todos os dias. Você só não ouviu. Esse conto é sobre uma pergunta que parecia impossível, e sobre como a resposta estava bem na frente do nariz o tempo todo. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, mas estava no longo caminho de se tornar um. A gente chama esse ser de Bodhisatta, o Buda em formação, que renasce vida após vida pulindo as virtudes.
E nessa história, ele aparece como um jovem eremita que vivia na floresta. Calmo, atento, com aquele jeito de quem reparou que o mundo fala sem parar e quase ninguém escuta. Pois bem, no alto de uma montanha, longe de tudo, vivia um Aceta Santo, um homem que tinha largado os prazeres do mundo, havia muito tempo e morava sozinho numa cabana de folhas perto de uma fonte. E um dia naquela fonte, aconteceu uma coisa que ele não soube explicar. Uma grande flor de lotos brotou da água fechada, cheia, viscosa, e ela não murchava. Dia após dia, a flor continuava ali intacta, esperando alguma coisa.
Curioso, o velho Aceta se aproximou, e quando as pétalas finalmente se abriram, lá dentro havia uma menininha, uma criança recém-nascida, dormindo no meio da flor como quem dorme num berço de luz. O velho olhou aquilo e o coração dele se encheu de ternura. Não tinha como deixar ali. Pegou a menina nos braços, levou para a cabana, e a criou como filha. Alimentou ela com o leite que vinha por benção dos seus méritos, cuidou dela, ensinou ela a viver. E como ela tinha nascido de uma flor, deu a ela um nome guardado no coração, um nome que ele mesmo manteve em segredo. A menina cresceu e virou uma jovem de uma beleza que parecia não ser deste mundo.
E aí deixa eu te situar. Foi por essa época que o nosso Bodhisatta, o jovem Eremita, passou por aquela floresta e fez amizade com o velho Aceta. Os dois conversavam, trocavam ideia sobre a vida, sobre o desapego, sobre o que importa de verdade. E o jovem, claro, reparou na moça, mas não foi a beleza dela que o prendeu. Foi outra coisa, era uma pessoa serena, de fala mansa, criada na pureza da floresta. Um dia o velho Aceta, já sentindo o peso dos anos, chamou o jovem e disse mais ou menos assim "Eu vou partir desta vida em breve". Essa menina foi um presente que a água me deu, eu queria deixá-la com alguém de bom coração.
Fica com ela, cuida dela como esposa, e o jovem aceitou, com respeito. Mas o velho, que era um sábio com seu que de brincalhão, acrescentou, só tem uma condição, eu nunca disse a ninguém o nome dela. Se você descobrir o nome, ela é sua, se não descobrir, terá que seguir o seu caminho sozinho. Parece simples, não parece, era só perguntar. Mas o velho Aceta, antes de partir, conversou em segredo com a moça e combinou com ela. Ela jamais revelaria o próprio nome, e ela prometeu. Então o jovem ficou diante de um enigma, como descobrir um nome que ninguém quer dizer. E começou ali uma dança curiosa, todos os dias o jovem chegava perto da moça e tentava adivinhar.
Ele ia jogando nomes, um atrás do outro, na esperança de acertar por sorte. Será que é Lotus, será que é Estrela, será que é Aurora, Mel, Pérola, e ela, a cada palpite, sorria de leve e balançava a cabeça. Não, não, não é esse. Elas viraram semanas, e o rapaz que era um eremita acostumado a ter paciência, foi ficando exausto. Centenas de nomes, e nenhum acertava, mas repara no que ele fez então, porque é aqui que o conto gira. Em vez de continuar tentando adivinhar de fora, ele parou, ficou quieto, e começou a escutar. Escutar de verdade a moça falar, no dia a dia, sobre as coisas dela.
E ela, sem perceber, vivia repetindo uma palavra. Quando ele perguntava se ela ia querer alguma coisa, ela respondia, eu duvido. Quando ele propunha um plano, ela dizia, ah, eu desconfio. Ela vivia com a dúvida na boca, vivia desconfiando, vivia em certa de tudo. O jovem reparou que a palavra "assanca", que quer dizer justamente isso, a duvidosa, a incerta, aquela que desconfia, estava o tempo todo na fala dela. E aí ele entendeu. O velho aceta tinha dado a menina o nome "assanca", a duvidosa, e ela carregava esse nome na própria maneira de falar, sem nunca ter dito que era o nome dela. O segredo nunca tinha sido escondido.
Ele estava exposto, repetido, óbvio, pra quem tivesse o silêncio interno de escutar. No dia seguinte o jovem olhou pra ela e disse com calma, eu sei o seu nome, você é assanca. E a moça surpresa soube que tinha sido encontrada, não por adivinhação, mas por atenção. E assim os dois ficaram juntos. Agora repara no que esse conto está dizendo. Por muito tempo o rapaz tentou resolver o enigma do jeito que a gente quase sempre tenta resolver as coisas, falando, palpitando, empurrando resposta atrás de resposta. Foram centenas de tentativas. E nenhuma funcionou, porque ele estava ocupado demais falando pra conseguir ouvir.
A virada só veio quando ele se calou e prestou atenção. A virtude no centro dessa história é exatamente essa. Essa escuta atenta esse cuidado de reparar no que está bem na frente. O budismo chama de sati, atenção plena, a qualidade de estar presente o bastante pra notar o que o barulho da pressa esconde. E olha como isso bate forte hoje. A gente vive a era do palpite, cada um soltando opinião, chute, resposta rápida, sem nunca parar pra escutar de verdade quem está do outro lado. A gente interrompe, completa a frase do outro, já vai respondendo antes mesmo da pessoa terminar. E aí passa a vida toda jogando nomes errados num enigma que o outro já tinha respondido, baixinho, todos os dias.
As pessoas que a gente ama estão sempre dizendo quem são, do que precisam, do que tem medo. Só que a gente, ocupado demais adivinhando, não ouve. Aqui vai uma coisa pra hoje. Escolhe uma pessoa próxima, alguém com quem você convive. E na próxima conversa, em vez de pensar no que você vai responder, fica só escutando. Repara nas palavras que ela repete sem perceber. No tom, no que ela diz quando acha que não está dizendo nada importante. Aposto que ali escondido a vista, está o nome verdadeiro daquilo que ela está sentindo. E quem escuta com calma sempre acaba descobrindo.