A montanha de ouro que iguala corvos e gansos

Budismo · Temporada 14 · Episódio 4 de 20 — em ordem cronológica

Imagine um lugar onde tudo que você toca vira ouro. Parece um paraíso, mas é uma armadilha que apaga quem você realmente é.

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Transcrição

Imagina que existe uma montanha tão cheia de ouro que, quando você se aproxima dela, o seu próprio corpo começa a brilhar, a sua pele fica dourada, as suas penas, se você fosse um pássaro vira um ouro puro. Tudo que toca a luz daquela montanha vira da mesma cor. Agora me responde, isso é um paraíso ou é uma acilada? Porque o que essa montanha faz, no fundo é apagar a diferença entre você e qualquer outro. O corvo mais sujo e o cisne mais belo, lado a lado, brilham igualzinho. E aí eu te pergunto, você ia querer ficar num lugar assim? Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda e estava se tornando o Buda ao longo de muitas e muitas existências.

A gente chama esse ser de Bodhisatta, o futuro desperto, que ora aparecia como homem, ora como rei, ora como bicho, e nesse conto repara, ele aparece como pássaro, um ganso real da queles dourados, que voam alto e enxergam longe, diz a história que o Bodhisatta nasceu como um ganso de plumagem de ouro e que vivia com o irmão mais novo numa região tranquila, os dois eram ganços lindos, fortes, do tipo que cruza o céu em formação e faz a gente parar para olhar. Um dia, esses dois irmãos resolveram voar bem longe, atrás de comida, atrás de novas terras, do jeito que os ganços fazem quando o vento chama, e foi nesse voo que eles avistaram.

No horizonte, uma montanha diferente de todas as outras. Ela reluzia, de longe já dava para ver aquele clarão dourado subindo do chão até o céu. Era a montanha de ouro, que numa das versões antigas tem o nome de Nehru. E o irmão mais novo, encantado, falou, "olha aquilo, vamos descansar ali, deve ser um lugar abençoado", os dois pousaram nas encostas da Nehru, e aconteceu uma coisa curiosa. Assim que tocaram a montanha, a luz do ouro envolveu os dois, e o corpo deles, que já era dourado, ficou ainda mais reluzente. Mas não só o deles, repara nisso porque é o coração do conto. Ali na montanha viviam outros bichos, corvos, garças comuns, pássaros cinzentos, pretos, sem graça nenhuma, e todos eles, banhados pela luz da Nehru, também brilhavam, todos cor de ouro, o corvo virava ouro, a garça virava ouro, não dava mais para distinguir quem era quem.

O irmão mais novo achou aquilo maravilhoso, "olha aquele lugar generoso", ele disse, "aqui todo mundo vira da mesma cor, aqui não tem feio nem bonito, aqui o corvo é tão belo quanto a gente, vamos ficar". Mas o Bodhisatta, o irmão mais velho, ficou quieto, observando, e depois de um tempo ele disse uma coisa que vale a pena guardar, ele falou, "mais ou menos assim, justamente por isso a gente vai embora". O irmão mais novo não entendeu, "como assim, vamos embora, aqui é confortável, aqui a gente brilha, aqui ninguém é melhor que ninguém", e o Bodhisatta respondeu com aquela calma de quem enxerga longe, ele disse, "a melhor das montanhas é aquela em que cada um aparece pelo que realmente é, onde o digno é reconhecido como digno e o medíocre como medíocre, aqui na Nehru, o ouro cobre tudo igual, o corvo, que rouba e grasna, brilha do mesmo jeito que o ganso que voa reto e vive limpo, e onde não se enxerga a diferença entre o nobre e o vil, ali não há honra que valha, onde os bons e os maus recebem o mesmo tratamento, o lugar perde o sentido.

Eu prefiro a montanha mais pobre, onde meu valor seja meu, e não o empréstimo da luz alheia, e os dois gansos levantaram voo e foram embora da montanha de ouro, deixaram para trás o brilho fácil, foram procurar um céu onde voar bem ainda quisesse dizer alguma coisa. Agora, repara no que esse conto está dizendo, porque ele é mais afiado do que parece. A gente costuma achar que um lugar onde todo mundo é tratado igual é sempre o lugar mais justo, e muitas vezes é mesmo, quando essa igualdade nasce da compaixão, do reconhecimento de que todo ser merece respeito e cuidado. Isso o budismo defende com força, com aquilo que a gente chama de meta, o amor que não escolhe a quem ama.

Mas o conto da Nehru está apontando uma armadilha diferente, é a igualdade que vem do apagamento, a igualdade preguiçosa que não distingue o esforço da malandragem, a honestidade da trapaça, o cuidado do descaso. Quando ouro cobre tudo, o ladrão e o santo ficam com a mesma cara. E aí, sem querer, a montanha premia o corvo e rouba do ganso aquilo que ele construiu. E olha como isso fala com o nosso tempo. A gente vive numa época de brilho emprestado, as redes douram todo mundo igual, o filtro deixa qualquer rosto perfeito, a legenda esperta faz o preguiçoso parecer sábio, e o sábio se perder no meio do barulho.

A gente entra em ambientes que prometem que ali todo mundo é incrível, todo mundo é especial, todo mundo merece o mesmo aplauso só por aparecer, e sai de lá com a pele dourada sim, mas sem saber mais quem a gente é por baixo do ouro. O Bodhisatta não foi embora por orgulho, repara, ele não disse eu sou melhor que os corvos, ele disse uma coisa mais sutil, eu quero viver num lugar onde aquilo que eu sou de verdade ainda apareça, onde a virtude que eu cultivo com tanto trabalho não seja confundida com o verniz que cobre qualquer um, porque virtude que ninguém destingue de fingimento acaba virando enfeite, e o futuro Buda não estava ali pra ser enfeite, estava ali pra ser verdadeiro, tem uma dignidade silenciosa nisso, a coragem de abrir mão do brilho fácil pra continuar sendo gente de verdade, mesmo que sem o Lofote, mesmo numa montanha mais simples e mais cinza.

Aqui vai uma coisa pra hoje. Pensa num lugar, num grupo, numa rede onde você anda passando o tempo, e onde você sente que está sempre brilhando, sempre sendo elogiado, sempre dourado, e faz a pergunta do Ganso Sábio, esse brilho é meu, ou é da montanha, se eu saísse daqui, o que sobraria de mim? Hoje, em algum momento, faça uma coisa boa que ninguém vai ver, que ninguém vai aplaudir, que não vira post, uma gentileza calada, um trabalho bem feito que só você sabe que foi bem feito. Esse é o seu ouro de verdade, o que brilha em você mesmo no escuro, sem precisar de nenhuma montanha pra emprestar a cor.