Imagina que o mensageiro chega o fegante na porta da sua casa e te diz que o trono ficou vago. A coroa é sua. Basta dizer sim e o reino inteiro se curva aos seus pés. E imagina que ao ouvir isso, a primeira coisa que cresce dentro de você não é alegria. É um aperto no peito, como se alguém estivesse te oferecendo uma corrente de ouro muito pesada. E se eu te dissesse que existe um homem que, recebendo exatamente essa oferta, escolheu continuar descalço, andando pela floresta sem nada além de uma tigela de barro. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, quando ainda estava se tornando Buda, vida após vida, lapidando o coração.
Nesses contos ele aparece às vezes como um animal, às vezes como um homem comum, às vezes como um rei. E nessa história aqui ele aparece como um eremita silencioso de nome Darimuka, alguém que já tinha visto o suficiente para saber o que vale a pena. A história começa muito antes, na cidade de Benares, com dois meninos. Um era filho do rei, o príncipe Brarmadata. O outro era filho do conselheiro real, o sacerdote da corte, e o nome dele era Darimuka. Os dois cresceram juntos, lado a lado, comendo do mesmo prato, brincando no mesmo pátio, aprendendo as mesmas lições. Sabe aquela amizade de infância que é quase irmandade? Era essa, os dois eram inseparáveis.
Quando ficaram moços, foram juntos como se fazia naquele tempo estudar com um grande mestre numa cidade distante, Takasila. Aprenderam tudo, as artes, os números, a forma de governar, a forma de pensar. E quando terminaram, pegaram a estrada de volta para casa, os dois sozinhos conversando pelo caminho como dois jovens que acham que o mundo inteiro cabe na palma da mão. Numa certa tarde, chegaram a uma cidade pequena, daquelas com um descanso a beira do caminho para viajantes. E foi ali, sentados à sombra, que a vida deu uma virada que nenhum dos dois esperava. Chegou um homem correndo, da capital de um reino vizinho, com uma notícia urgente.
O rei daquele reino tinha morrido sem deixar herdeiro, e havia um costume antigo quase um ritual para escolher o novo soberano. Soltava-se a carruagem real, sem cocheiro, puxada por cavalos enfeitados, e seguia-se para onde ela parasse. Quem ela escolhesse, esse seria o rei. A carruagem rodou pela cidade, deu a volta, e foi parar bem na frente do descanso onde os dois amigos estavam sentados. E aqui vem o detalhe. Ela parou diante de Brahmadatta, o príncipe, os ministros, os músicos, o povo, todos se ajoelharam. Salve o rei. Borrifaram a água da consagração ali mesmo, e num piscar de olhos, o menino que tinha saído de Benares como filho de rei-centro no virava, de fato, monarca de um reino inteiro.
Repara no que aconteceu na cabeça dele naquele instante. A fortuna caiu do céu, e a primeira coisa que ele pensou foi no amigo. Brahmadatta se virou para Daremuka e disse, com o coração aberto, vem comigo, esse reino é tão seu quanto meu. A gente sempre dividiu tudo, divide isso também, vem reinar ao meu lado, e aí meu amigo, está o coração dessa história. Porque Daremuka olhou para aquela carruagem dourada, para aquela multidão de joelhos, para aquela oferta que faria qualquer um perder o sono de tanta cobiça, e sentiu uma coisa estranha. Não inveja, não desejo, sentiu medo, um medo limpo-lúcido, ele olhou para o trono e não viu o poder.
Viu uma armadilha bonita? Ele pensou, tudo isso é prazer que passa, e todo prazer que passa cobra seu preço. Os reinos pedem guerras, as coroas pedem mentiras, o poder pede que você machuque para se manter no alto. E no fim de tudo, quando a morte chegar, e ela chega para rei e para mendigo igual, nada disso vai junto. Ele viu, com uma clareza que doia, que aceitar aquele trono era amarrar correntes douradas nos próprios pulsos. Então ele disse não, calmamente, sem drama, sem desprezar o amigo, disse eu não quero meu irmão, rei na você, eu vou seguir outro caminho. E saiu dali, deixou a estrada da capital, embrenhou-se na floresta, e tornou-se eremita.
Trocou o que poderia ter sido um palácio por uma cabana de folhas. Trocou os músicos pela voz do vento nas árvores, e ali, na quietude, ele encontrou uma riqueza que nenhum reino podia dar, a paz de quem não precisa segurar nada com força, anos depois, já desperto para uma serenidade profunda. Darimuka voltou, não para cobrar nada do amigo, mas por compaixão. Apareceu no palácio sereno, descalço, e o rei o reconheceu na hora, e o recebeu com orras. E foi o eremita quem falou primeiro, com aquela doçura de quem não tem mais nada a perder. Os prazeres do sentido são lama e lodo, são raiz de medo.
Eu vi isso, e por isso me afastei, não te invejo, meu amigo, eu só queria que você visse também. Agora repara no que esse conto está dizendo, bem de mansinho, no nosso ouvido moderno. A gente vive correndo atrás da carruagem, a promoção, o cargo mais alto, a casa maior, o reconhecimento, o trono que seja. E a gente aprendeu que dizer não a uma oferta dessas é loucura, é fraqueza, é não saber aproveitar. O mundo todo se ajoelha diante de quem aceita a coroa. Ninguém aplau de quem recusa, mas Darimuka não recusou por preguiça nem por desprezo pela vida. Ele recusou por quem enxergou o preço escondido.
Ele tinha o que a gente quase nunca tem. A coragem de olhar para uma coisa brilhante e perguntar, quanto da minha paz isso vai me custar. Isso na tradição budista tem nome. É a sabedoria que vê o desapego não como perda, mas como liberdade. Não se trata de odiar o que é bom, se trata de não ser escravo daquilo que parece bom. E olha, o conto não está te mandando largar tudo e ir morar numa floresta. A maioria de nós não vai fazer isso. E tudo bem, a virada aqui é mais sutil. É lembrar que nem toda a carruagem que para na sua porta é um presente. Algumas são correntes muito bem pulidas.
Aqui vai uma coisa pra hoje. Pensa numa carruagem que está parando na sua frente agora. Uma oportunidade que todo mundo diz que você seria louco de recusar. Pode ser um trabalho, um cargo, uma compra, um compromisso. Antes de dizer sim, no automático, senta um mim em silêncio e faz a pergunta de Darimuka. Quanto da minha paz isso vai me custar? Não pra recusar tudo. Só pra escolher com os olhos abertos. Porque a pessoa mais livre não é a que tem mais tronos. É a que sabe sem medo dizer não a um.