O falso asceta orgulhoso desmascarado

Budismo · Temporada 14 · Episódio 2 de 20 — em ordem cronológica

Aparência de virtude é uma armadilha. A sabedoria que você busca pode estar na pessoa que você mais despreza.

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Transcrição

Você já reparou como é fácil confiar em alguém só porque essa pessoa parece santa. Cabelo e maranhado, túnica gasta, olhar distante, palavras bonitas sobre renúncia. A gente baixa a guarda na hora. Mas e se toda aquela aparência de virtude for na verdade uma armadilha bem montada? A resposta a essa pergunta nesse conto separa quem enxerga a verdade de quem acaba enganado pela própria reverência. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava se tornando Buda, vida após vida nascendo às vezes como homem, às vezes como animal, e aprendendo devagar as virtudes que mais tarde o despertariam por completo.

Nessa história, o futuro Buda nasceu numa família de brâmanes, e cresceu cercado de muitos jovens estudantes, todos vivendo sob a mesma disciplina, num eremitério, dedicados ao estudo e à vida simples, e entre esses jovens havia um chamado Cetaqueto, ele era de família alta, orgulhoso do próprio nascimento, orgulhoso da própria casta, orgulhoso até da forma como amarrava o cabelo. Repara, Cetaqueto tinha a aparência de quem havia renunciado ao mundo, trazia os trajes de acet, recitava os versos, fazia as reverências certas na hora certa, por fora, era um modelo, por dentro, fervilhava de vaidade, de desprezo pelos que considerava inferiores e de uma fome enorme por reconhecimento.

Um dia Cetaqueto saiu caminhando pela estrada com alguns companheiros, e vindo na direção contrária estava um homem comum, um trabalhador de casta baixa, dessas que o orgulho de Cetaqueto mais detestava. Cetaqueto parou, cheio de pose, e gritou para o homem se afastar do caminho, não queria nem que o vento que passava pelo corpo daquele homem o tocasse. Mandou que o homem fosse para o lado de sota-vento, para baixo do vento, para que nem o ar que vinha dele alcançasse o nobre acet. O trabalhador, sem briga no coração, mas com uma certa esperteza tranquila, respondeu que faria isso sim, mas só se Cetaqueto respondesse uma pergunta antes, Cetaqueto, achando graça, concordou.

E o homem perguntou, mais ou menos assim, me diga, ó sábio, quais são as direções do espaço, quantas são, e o que cada uma significa, Cetaqueto abriu a boca e travou. Ele sabia recitar versos, sabia se vestir de santo, sabia humilhar os outros, mas diante de uma pergunta simples sobre o mundo, sobre as direções, sobre o que de fato sustenta a vida de uma pessoa, ele não tinha resposta nenhuma. Toda aquela fachada de conhecimento não cobria nada por baixo. E o trabalhador, então, respondeu por ele, falou que as verdadeiras direções da vida de um homem não são norte, sul, leste e oeste no sentido vazio, são as pessoas e os deveres que sustentam quem a gente é, os pais que são uma direção, os mestres que são outra, a esposa e os filhos, os amigos, os trabalhadores e servos, sim, até aqueles que Cetaqueto desprezava.

E o que está acima, o sagrado, os sábios verdadeiros, cada relação dessas é um ponto de apoio, uma direção que segura a casa da vida em pé, quem despreza qualquer uma delas está na verdade derrubando uma parede da própria morada, Cetaqueto ficou sem palavra, o homem que ele tinha mandado pra baixo do vento acabou de lidar uma lição que nenhum dos seus versos jamais tinha dado, o falso Aceta, todo orgulho e nenhuma substância, foi desmascarado ali, no meio da estrada poerenta, por um homem simples que ele julgava menos que poeira, e o futuro Buda, que conhecia bem aquele tipo de orgulho ouco, mais tarde usou essa história pra mostrar aos seus discípulos a diferença entre a aparência da virtude e a virtude de verdade, porque túnica qualquer um veste, verso decorado qualquer um repete, mas humildade, conhecimento real, respeito por toda a forma de vida, isso não se finge, isso se cultiva, devagar e aparece justamente nos momentos em que ninguém está aplaudindo, agora, repara no que esse conto está dizendo pra gente, hoje, vivemos numa época em que a aparência de sabedoria virou quase uma profissão, tem gente que coleciona os símbolos certos, a frase de efeito, a foto meditando, o vocabulário espiritual afiado, a pose serena, e a gente do outro lado da tela confia, acha que quem fala bonito sobre desapego deve viver desapegado, que quem posta sobre gratidão deve ser grato, mas o conto do setaqueto cutuca exatamente isso, a casta dele, o cabelo dele, os versos dele, nada daquilo o tornava sábio, o que o teste revelou foi o vazio, e tem um detalhe ainda mais fino aqui, o orgulho do setaqueto não era só vaidade boba, era um orgulho que desprezava o outro, que empurrava o ser humano comum para baixo do vento, e a virada do conto é justa, foi exatamente esse outro, o desprezado quem carregava a sabedoria de verdade, quantas vezes a gente faz isso, decide quem merece a nossa atenção pela roupa, pelo sotaque, pelo cargo, pela origem, e perde, sem nem perceber, a lição que estava bem ali, na pessoa que a gente nem olhou direito, a virtude budista no centro dessa história é a humildade unida ao respeito por toda vida, o oposto do orgulho de casta, o oposto do mana, aquela vaidade do eu que infla a gente e cega a gente ao mesmo tempo, o verdadeiro praticante não anda mandando os outros para baixo do vento, ele se senta no chão, ao lado de quem for, e escuta, aqui vai uma coisa para hoje, hoje, escolha uma pessoa que você normalmente passaria batido, alguém que o seu olhar costuma tratar como menos, quem te atende, quem limpa, quem entrega, quem você acha que não tem nada a te ensinar, e faça só uma coisa, pergunte algo de verdade a essa pessoa, e escute a resposta inteira, sem pressa, olhando nos olhos, não para parecer humilde, para descobrir, na prática, que as direções que sustentam a sua vida são feitas de gente, e que a sabedoria quase nunca vem vestida do jeito que a gente esperava.