O barqueiro que cobrou a tarifa na hora errada

Budismo · Temporada 14 · Episódio 1 de 20 — em ordem cronológica

Quando cobrar a passagem: antes de remar ou depois de chegar? A resposta a essa pergunta boba separa quem se frustra de quem se dá bem na vida.

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Transcrição

Imagina que você é um barqueiro. Passa o dia inteiro levando gente de uma margem à outra de um rio largo. Daqueles que descem cheios na época das chuvas. E aí aparece um homem na sua frente querendo atravessar. Quando é a hora certa de cobrar a passagem dele, antes de remar ou depois de chegar. Parece uma pergunta boba, né? Mas segura essa, porque a resposta separa um barqueiro tranquilo de um barqueiro que apanha no meio do rio. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas. Os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era Buda. E estava só caminhando, vida após vida, juntando virtude.

Às vezes ele aparece como rei, às vezes como bicho, às vezes como nesse aqui, como um homem simples que ganha o pão com o suor do braço. E é justamente desse homem simples que sai a lição. Naquele tempo, o Bodhisatta, o futuro Buda, tinha nascido numa família humilde, a beira de um grande rio, cresceu remando. Conhecia cada redemoinho, cada banco de areia, cada hora do dia em que a correnteza ficava brava. E ele trabalhava como barqueiro nessa travessia, levava lavradores, mercadores, peregrinos, gente de toda espécie, de uma margem para outra. Mas tinha um defeito, esse barqueiro, um só, mais grande.

Ele tinha o hábito de levar as pessoas primeiro, atravessar o rio inteiro, deixar o passageiro na outra margem e só então cobrar a tarifa. Trabalho feito, e depois a conta. Você há de dizer, mas isso parece até honesto. E é, o problema não é a honestidade, o problema é a hora. Porque repara, do outro lado do rio, o passageiro já tem o que queria, já chegou, já pisou em terra firme, e aí, na hora de pagar, é que começava a confusão. Um dizia que não tinha trazido moeda, outro chorava miséria, outro discutia o preço, achava caro, regateava como se estivesse na feira, e mais de um simplesmente dava as costas e ia embora, rindo do barqueiro que ficava lá, sem o dinheiro e sem o passageiro.

O Bodhisatta passava perto, brigava, às vezes voltava para casa com menos do que merecia, e mesmo assim treimava no costume. Leva primeiro, cobra depois, um dia depois de uma travessia dessas, em que o homem que ele tinha levado se recusou a pagar e ainda o xingou, o barqueiro chegou em casa de cabeça baixa, a esposa que era uma mulher de bom senso percebeu logo, e disse uma coisa que ficou. Ela falou mais ou menos assim, marido, o seu erro não está em cobrar, o seu erro está em cobrar tarde, de quem já chegou aonde queria, você não tem mais nada para oferecer, você perdeu a sua força no instante em que o pé dele tocou esta margem, cobra antes, quem ainda precisa da travessia, paga de bom grado, quem já atravessou, não deve mais nada no coração, barqueiro ouviu, e o que a mulher disse era a pura verdade.

A tarifa cobrada na hora errada não é tarifa, é esmola que você implora, cobrada na hora certa, é um acordo justo entre duas pessoas, o mesmo dinheiro, o mesmo serviço, só que a hora muda tudo, a partir daí dizem, o barqueiro mudou o jeito. Antes de soltar o barco da margem, ele combinava o preço, óleo no olho, e recebia a passagem, e só então pegava o remo, e o que acontecia, acabaram as brigas, acabaram os calotes, as pessoas pagavam, atravessavam contentes, e ele as deixava do outro lado em paz, sem nenhuma palavra azeda, porque o combinado tinha sido feito quando ainda havia confiança nos dois lados, quando os dois ainda precisavam um do outro.

Agora repara no que esse conto está dizendo, porque ele é bem mais fundo do que parece, não é um manual de cobrança de barqueiro, é uma lição sobre o tempo certo das coisas, o que os budistas chamam de saber agir na hora oportuna, existe a coisa certa, e existe a hora certa de fazer a coisa certa, e uma sem a outra não funciona. E olha como a gente vive errando nisso hoje, a gente tem o costume de deixar as conversas importantes para depois, a gente atravessa o rio inteiro de um relacionamento, de um trabalho, de uma amizade, sem combinar nada, sem dizer o que precisa ser dito, e depois, quando já chegou na outra margem, quando o outro já tem o que queria, ou quando a gente já está magoado e cansado, aí a gente vem cobrar.

Vem dizer mas eu fazia tudo por você, mas eu esperava isso de você, e é tarde. A força daquela conversa já foi embora com a correnteza, a esposa do barqueiro entendeu uma coisa que custa anos para muita gente entender, o momento de pedir, de combinar, de deixar claro o que você precisa, é antes, é enquanto ainda há vínculo, enquanto os dois ainda estão no mesmo barco, no meio do rio, não depois que cada um já desceu para o seu lado, falar na hora errada não é falar de mais. É falar quando a palavra já não tem mais para onde ir, e tem outra camada aqui também, mais gentil. O barqueiro não ficou amargo, ele não passou a desconfiar de todo mundo, não virou um homem duro que tratava os passageiros como ladrões, ele só mudou a hora, continuou levando os mesmos rios, as mesmas pessoas, com o mesmo cuidado.

A virtude não foi ficar esperto, a virtude foi colocar cada coisa no seu tempo, para que a relação entre ele e quem ele servia continuasse limpa sem ressentimento dos dois lados. Aqui vai uma coisa para hoje. Pensa numa cobrança que você está carregando por dentro daquelas guardadas, um eu fiz tanto e ninguém reconheceu. Repara se você não está fazendo o que o barqueiro fazia, prestando o serviço calado e deixando para cobrar lá na frente quando já é tarde. E aí, da próxima vez, antes de remar, combina. Diz o que você espera, diz o que você precisa, com calma e com clareza, enquanto ainda estão os dois no mesmo barco.

A tarifa cobrada na hora certa não é briga, é só justiça, dita em voz mansa, no momento em que ela ainda cabe.