Imagina que alguém chega perto de você, todo sorriso, e começa a dizer as coisas mais lindas a seu respeito, que você é especial, brilhante, diferente de todo mundo, e vai chegando mais perto enquanto fala. A pergunta é simples. Você consegue, no meio de tanto elogio, perceber que aquilo é uma armadilha? Nesse conto, a vida de um galo depende exatamente disso, de saber que nem toda voz doce quer o seu bem. Eu te contar, esse é um dos de atacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava se tornando Buda, vida após vida, juntando virtude como quem junta gota a gota até encher um pote.
Às vezes ele aparece como rei, às vezes como mestre, e às vezes, como nessa história, como um simples bicho do mato que carrega, dentro do peito, uma sabedoria bem maior do que o tamanho dele. Dessa vez o Bodhisatta nasceu como um galo. Não um galo de quintal, manso e gordo, acostumado a comer da mão das pessoas. Esse era um galo selvagem, daqueles que vivem na floresta, líder de um bando grande, centenas de aves que dormiam empoleradas no alto de uma árvore enorme, no meio da mata fechada. Ele tinha aprendido, com a própria vida, a desconfiar. Sabia que a floresta é bonita de dia e perigosa o tempo todo.
Por isso ensinava o bando a se recolher cedo, a se manter junto, a ficar atento aos barulhos. E principalmente ensinava uma coisa que parecia simples, mas era a mais difícil de todas. Não acreditar em quem aparece falando bonito demais. Acontece que, perto dali, vivia um falcão, faminto, esperto e cansado de caçar do jeito difícil. Ele tinha reparado naquela árvore cheia de galos, e tinha pensado, ali tem comida pra muito tempo, mas os galos eram rápidos e voavam pra dentro do mato no primeiro sinal de ameaça, pegar uma força bruta era quase impossível. Então o falcão decidiu usar outra arma, a mais antiga de todas, a voz.
Ele pousou num galho mais baixo, bem perto do galo líder, e começou a falar com a voz mais macia que conseguiu fazer. "De ave magnífica você é", ele disse. "Olha o brilho dessas penas, olha a cor dessa crista, eu vou essa floresta inteira, de ponta a ponta, e nunca vi criatura mais bonita do que você. É um desperdício você viver escondido aqui, no meio do mato escuro, sem ninguém pra admirar tanta beleza", o galo não respondeu. Ficou ali, quieto, escutando. O falcão tomou o silêncio como interesse e foi em frente, derramando ainda mais mel. "Eu vim de longe só pra te conhecer", ele continuou.
"Desce um pouco, vem cá perto, lá embaixo naquela clareira o sol bate de um jeito lindo, a gente podia passear juntos, lado a lado, e o mundo inteiro ia ver a ave mais esplêndida da floresta, porque você fica aí em cima, sozinho, longe de tudo, vem comigo, você merece coisa melhor", e aí o galo, que tinha escutado cada palavra com muita calma, finalmente falou, sem raiva, sem medo, com a tranquilidade de quem já entendeu tudo. "Falcão", ele disse, "eu te agradeço pelos elogios, são tantos e tão bonitos que quase me fizeram esquecer uma coisa, mas eu não esqueci". O falcão ficou imóvel, e o reparei, continuou o galo, que quem fala doce demais, em geral, está com fome, e que ninguém atravessa uma floresta inteira pra elogiar a beleza de outro bicho.
"Você não veio admirar minhas penas, você veio pelo que tem debaixo delas, pela minha carne". O falcão tentou protestar, abrir o bico pra continuar com a lábia, mas o galo cortou. "Existe um tipo de amigo", ele disse, "que aparece falando só aquilo que a gente gosta de ouvir, que concorda com tudo, que elogia tudo, que nunca te diz um não, esse não é amigo, esse é caçador, o amigo de verdade às vezes te diz coisa que dói, porque quero o seu bem". O bajulador te diz só o que é doce, porque quer o seu mal, e quanto mais perto ele pede pra você chegar, mais longe você deveria ficar, e dizendo isso, o galo bateu as asas e subiu, voltando pro alto da árvore, pro meio do bando, pra segurança da altura.
O falcão ficou ali embaixo, com fome e com a lábia inútil pendurada no bico, e foi embora sem nada. Agora, repara no que esse conto está dizendo, porque ele fala diretamente com a gente, hoje a gente vive cercado de falcões bajuladores. Só que eles não tem mais penas, tem telas, tem anúncios que dizem que você merece, que você é especial, que você precisa daquilo pra ser feliz, tem aquela voz que aparece exatamente quando você está pra baixo, dizendo só o que você queria ouvir, pra te puxar pra um lugar onde alguém vai lucrar com a sua descida. A bajulação virou uma indústria, e ela funciona justamente porque é gostosa de escutar, e tem o outro lado, mais delicado.
A gente também aprendeu a querer só aplauso, a gente coleciona gente que concorda, e foge de quem discorda, monta a vida de um jeito que só chega a elogio, e aí perde a capacidade do galo, a de ouvir a voz doce e ainda assim perguntar, calmamente, o que será que essa pessoa quer de mim? O budismo tem um nome pra essa firmeza serena diante do elogio e da provocação, é uma forma de upeca, equanimidade, não é frieza, é não se deixar virar pelo vento das palavras, nem as que afagam, nem as que ferem, o galo não odiou o falcão, não saiu gritando, não fez escândalo, ele só viu com clareza, e não se moveu.
Essa é a virtude aqui, não é desconfiar de tudo e de todos, amargurado, é enxergar a intenção por trás da palavra, e manter os pés, ou melhor, as patas, firmes onde é seguro. Aqui vai uma coisa pra hoje, pensa na última vez que alguém, ou alguma propaganda, ou alguma mensagem na tela, te encheu de elogio e, logo em seguida, pediu que você descesse um pouco, que comprasse, que clicasse, que confiasse, que se aproximasse, e faz a pergunta do galo, sem raiva nenhuma, só com calma, essa voz quer o meu bem, ou quer a minha carne, se for elogio de verdade, ele aguenta a pergunta, se forisca, ela se desmancha na hora, e você continua, tranquilo, no alto da sua árvore.