Imagina que você ganhou exatamente o que mais queria na vida. O reino, a fortuna, a pessoa, o cargo, e que, na manhã seguinte de ter tudo isso na mão, você acordou e percebeu que já não bastava, que faltava mais. Como é que pode? Você acabou de conseguir, e a fome voltou maior do que antes. Esse conto é sobre essa fome que nunca enche e sobre um homem que arriscou tudo, duas vezes, três vezes, porque uma voz dentro dele dizia o tempo todo. Ainda não é o suficiente. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava se tornando Buda, vida após vida, hora como o homem, hora como o animal, juntando aos poucos a sabedoria que um dia o despertaria por inteiro.
Nesse aqui, o futuro Buda, o Bodhisatta, não aparece no começo. Ele chega depois, como um sábio, e é dele que vem a virada da história. Mas para entender o que o sábio vem dizer, a gente precisa primeiro acompanhar a queda de outro homem. Havia, num reino antigo, dois irmãos, filhos de um homem rico que tinha morrido. O irmão mais velho herdou a parte que lhe cabia, mas, em vez de ficar satisfeito, olhou para a terra do mundo inteiro e pensou, porque só isso. Largou a herança, largou o conforto, e foi para o campo, para a fronteira do reino, com a ideia de abrir uma roça e crescer a partir do nada.
Não havia nada de errado nisso, repara. Trabalhar a terra é digno, mas o que movia o coração dele não era o trabalho. Era a fome de ter mais. A primeira coleita veio boa, e o homem, em vez de respirar e agradecer, já pensou. Se uma roça rende isso, duas rendem o dobro. Pegou o que ganhou e investiu em mais terra. A segunda coleita veio melhor ainda. E aí a coisa virou uma roda que não parava de girar dentro dele. Quanto mais ele tinha, mais ele queria. Quanto mais conseguia, menos aquilo lhe parecia bastante. Os anos foram passando e o homem ficou de fato próspero. Tinha celeiros cheios, gado, criados, casa grande, qualquer pessoa olhando de fora diria.
Esse aí venceu na vida. Só que por dentro ele não tinha um mim de paz. Vivia calculando, vivia comparando o que tinha com o que o vizinho tinha, e o do vizinho sempre parecia maior. A noite, deitado, em vez de descansar, ele media na cabeça o que ainda faltava, e faltava sempre. Porque o desejo, esse desejo que em palície chama a cama, o apego ao prazer e ao ter, ele não tem fundo. Você joga coisa dentro dele a vida inteira e ele nunca enche. É um poço sem fim. Aí o homem teve uma ideia maior que todas as outras. Pensou. Se eu já tenho tanto, por que não disputar o próprio reino? Por que não ser rei? E começou a juntar gente, a armar tropa, a conspirar contra o trono, tudo o que ele tinha construído, a roça, os celeiros, a casa, ele estava agora disposto a apostar numa guerra, pra ganhar uma coisa maior ainda, não porque precisasse.
Ele já tinha mais do que dez famílias precisariam, mas porque a fome tinha tomado conta dele inteiro, e a fome não pergunta se você precisa, ela só pede mais. Foi nesse ponto que o adoecimento do desejo se mostrou no corpo. O homem ficou doente, gravemente doente, daquela doença que vem quando a mente nunca para, quando a pessoa se consome por dentro num desassossego sem trégua, e na cama, ardendo em febre e delirando, ele não pedia água, não chamava pelos filhos, ele falava de terras, ele gritava ordens pros criados, mandava plantar aqui, comprar ali, atacar a colar, estava morrendo e ainda estava querendo.
A fome ia levá-lo embora antes que ele se desse conta de uma coisa só. E é aqui que entra o Bodhisatta. Naquele tempo ele tinha nascido como um grande sábio, conhecido na região pela serenidade e pelo discernimento. Chamaram no abeira do leito daquele homem rico e atormentado. O sábio chegou, olhou pra aquele rosto consumido, escutou aqueles delírios de conquista, e não brigou, não condenou. Sentou-se ao lado dele e falou baixo, com firmeza e ternura ao mesmo tempo. Dice mais ou menos assim, os desejos sensuais, meu amigo, são doces na aparência e amargos no fim, são como a água salgada do mar.
Você bebe pra matar a sede, e quanto mais bebe, mais sede sente. Quem se entrega a eles é como um homem carregando uma tocha contra o vento, cedo ou tarde, se não largar, a chama volta e queima a própria mão. E o sábio continuou. Tudo o que você ajuntou a vida inteira, você não vai levar nenhum grão de arroz quando partir. A terra fica, os celeiros ficam, o reino que você sonhou, ainda que fosse seu, ficaria. A única coisa que você leva é o estado da sua mente na hora de ir, e olhem que estado a sua mente está agora. Dizem que aquelas palavras alcançaram o homem no último instante, que a fome pela primeira vez em décadas ficou quieta dentro dele, e que ele conseguiu, enfim, soltar, não soltar as terras, que essas já não importavam, mas soltar o querer, e que partiu mais leve do que tinha vivido.
Agora repara no que esse conto está dizendo, porque ele fala direto com a gente. A gente vive num tempo que transformou a fome insaciável em virtude, chama de ambição, de crescimento, de não se acomodar, tem aplicativo medindo passo, medindo seguidor, medindo conta no banco, tudo desenhado pra te fazer sentir que o número de hoje precisa ser maior que o de ontem, sempre e pra sempre. A próxima compra, o próximo cargo, a próxima viagem, a próxima versão do celular. E a promessa é sempre a mesma, quando você chegar lá, aí sim você descansa. Só que o conto avisa, com dois mil e tantos anos de antecedência, não existe esse lá.
O desejo é água salgada, o lá se afasta na mesma velocidade que você corre, e muita gente vai chegar ao fim da estrada, igual aquele homem na cama, ainda gritando ordens pra plantar mais uma roça que nunca vai colher. O budismo não te pede pra não ter nada. Repara bem. Não é isso. Ele pede pra ver o desejo pelo que ele é, pra não confundir a sede com a felicidade. Você pode ter terra, casa, trabalho, e estar em paz. O problema nunca foi ter. O problema é certido, é ser carregado pela fome em vez de carregar a sua vida. Aqui vai uma coisa pra hoje. Pega uma única coisa que você anda querendo muito agora, aquela que você jura que vai te dar sossego quando vier.
E faz uma pergunta honesta, quando eu consegui a última coisa parecida, quanto tempo durou sossego? Foi um dia? Foi uma tarde? Senta com a resposta sem fugir dela, porque no instante em que você enxerga que a água é salgada, você já não precisa beber o mar inteiro pra descobrir. E aí pela primeira vez, você pode escolher o que vale a sua sede.