Imagina que você naufraga e, contra toda a esperança, a marete joga numa ilha verdejante, cheia de frutas doces, água fresca, sombra macia, parece o paraíso depois do horror do mar. E aí alguém te avisa, baixinho, que essa ilha vai afundar antes do amanhecer. Você acredita nesse aviso ou você se deita na areia, exausto, e decide que merece descansar? A resposta a essa pergunta, nesse conto, separa quem se salva de quem some embaixo das águas. Deixa eu te contar, esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era Buda, mas estava no longo caminho de se tornar um.
Nessas histórias ele aparece como o Bodhisatta, o futuro desperto, e às vezes ele é rei, às vezes é animal, às vezes é um homem comum no meio de outros homens comuns. Nessa aqui, ele é uma divindade que vela por gente que está prestes a tomar a pior decisão da vida delas. A história começa com um grupo de mercadores que parte em busca de fortuna. Eram muitos, centenas de famílias, gente cansada de uma terra apertada, com vontade de recomeçar. Eles juntaram o que tinham, construíram uma grande embarcação e se lançaram ao oceano atrás de uma costa nova onde pudessem se estabelecer.
E o mar, como o mar faz, não pediu licença. Veio à tempestade. As ondas subiram como montanhas, o casco rangê-o, as cordas estouraram e num estrondo o navio se partiu, mas a sorte, ou algo parecido com ela, levou aqueles náufragos até uma ilha. E que ilha, quando eles chegaram à praia molhados, com os pulmões ardendo, encontraram um lugar que parecia feito para acolher exatamente quem tinha perdido tudo. Tinha árvores carregadas de frutas, mangas suculentas, jacas, bananas, palmeiras altas, tinha riachos de água limpa, tinha lagos calmos com flores de lotos abrindo na superfície, tinha terra fértil, sombra brisa, os mercadores olharam aquilo e pensaram, com toda a razão de quem quase morreu, aqui é o nosso lugar.
A gente chegou, acabou o sofrimento, e eles fizeram o que qualquer pessoa faria, comeram até se fartar, beberam até saciar, se deitaram à sombra e começaram a sonhar com a cidade que iam erguer ali, com as casas, com os filhos correndo entre as árvores. Só que tinha uma coisa que eles não sabiam, aquela ilha não era terra firme de verdade, era uma daquelas ilhas que afloram do mar por um tempo e depois afundam de novo, sugadas pela água quando a mar é grande e sobe, era bonita por fora e condenada por dentro, e o pior é que ela tinha um ritmo, quando muitos seres pisavam nela, quando ela se enchia de vida e de peso, a água vinha a buscá-la de volta, agora, sobre aquela ilha velavam duas divindades, uma delas era boa, cheia de compaixão, e essa era o Bodhisatta, o futuro Buda, a outra era cruel, daquelas que não se importam se as criaturas vivem ou morrem, a divindade boa olhou para aquela gente confiante, deitada na areia, fazendo planos, e o coração dela se apertou, ela sabia o que vinha, sabia que na lua cheia seguinte a maréia subir e cobrir tudo, e que cada homem, cada mulher, cada criança ali ia se afogar dormindo, então ela desceu, brilhou no ar acima deles, no meio da noite, e falou "mercadores, escutem com atenção, esta ilha em que vocês estão tão felizes é uma armadilha, daqui a pouco a água vai voltar e vai engolir esta terra inteira, e ninguém que ficar aqui vai sobreviver, não se deixem enganar pela beleza dela, reunam a madeira do navio quebrado, construam uma jangada forte e estejam prontos para partir antes da maré grande, não fiquem, por favor não fiquem", e ela falou ainda uma coisa importante, que havia sim um caminho de salvação, mas que era preciso preparar agora, enquanto havia tempo e não na hora em que a água já estivesse subindo pelos tornozelos, mas aí a outra divindade, a cruel, apareceu, e ela disse o contrário, com voz doce, voz de quem te oferece exatamente o que você quer ouvir, não escutem essa aí, não tem perigo nenhum, olhem em volta, tem fruta, tem água, tem sombra, vocês passaram por tanta coisa, vocês merecem descansar, por que se cansar construindo jangada num lugar perfeito assim? Fiquem, aproveitem, o medo é que é o seu inimigo, não a ilha e os mercadores se dividiram, repara nisso, porque é o ponto inteiro do conto, eles se dividiram, um grupo, o menor, ficou inquieto com o aviso, esses pensaram, pode ser que ela esteja certa, não custa nada preparar a jangada, se a ilha afundar a gente se salva, se não afundar a gente perdeu só um pouco de trabalho, então eles trabalharam, recolheram as tábuas, amarraram tudo com fibra, fizeram a embarcação, encheram de provisão, e ficaram de prontidão, o outro grupo, o maior, ficou com a voz que era mais gostosa de escutar, riram dos que estavam trabalhando, disseram que era exagero, que era medo atoa, que enquanto eles se matavam de cansaço, a vida boa estava ali, ao alcance da mão, e continuaram comendo, bebendo e deitando na areia, veio a lua cheia, veio a maré grande, e o mar não negociou, a água subiu, subiu, num rugido só, e a ilha inteira foi sugada pra baixo da superfície, com tudo que tinha em cima dela, os que estavam na jangada, prevenidos, se afastaram remando com força, e cruzaram para outra margem, vivos, os que ficaram, confiando na beleza e na voz que os acariciava, esses afundaram com o paraíso falso, agora, repara no que esse conto está dizendo pra você, ele não está falando só de uma ilha lá longe, ele tá falando das ilhas em que a gente se deita hoje, porque a gente vive cercado de vozes doces que dizem exatamente o que a parte preguiçosa da gente quer ouvir, você merece descansar, deixa pra amanhã, não precisa se preocupar com isso agora, aproveita, a vida é curta, e olha, descansar é bom, aproveitar é bom, o problema não é a fruta da ilha, o problema é confundir uma coisa boa e passageira com chão firme, a sabedoria budista chama isso de apamada, que é a vigilância, o cuidado, o não se deixar embalar pela ilusão de segurança, e o conto mostra uma coisa fina, a divindade boa não disse não comam, não descansen, não sejam felizes, ela disse preparem a jangada enquanto há tempo, a diferença entre os que viveram e os que morreram não foi prazer contra sofrimento, foi previsão contra negação, foi quem ouviu a verdade desconfortável contra quem escolheu o consolo de fechar os olhos, e hoje a gente tem tantas ilhas que afundam, a dívida que parece confortável até a maré da conta chegar, a saúde que a gente adia cuidar porque agora está tudo bem, o relacionamento que a gente deixa podrecer sem conversar, porque dói olhar de frente, a gente se deita na areia e ri de quem está construindo jangada.
Aqui vai uma coisa pra hoje, pensa numa área da sua vida onde alguém ou alguma voz dentro de você já te avisou de um perigo que você está preferindo não enxergar, pode ser o corpo, o dinheiro, um vínculo, um hábito, e em vez de decidir tudo de uma vez, faça só a sua jangada, dê hoje um passo pequeno e concreto de preparação, uma consulta marcada, uma conversa começada, uma planilha aberta, uma economia guardada, não porque a maré já chegou, mas justamente porque ela ainda não chegou, quem prepara a jangada com um mar calmo é quem atravessa quando ele se levanta.