O espírito da grande árvore sacrificada e a lição de empatia

Budismo · Temporada 20 · Episódio 2 de 10 — em ordem cronológica

Sua vida está prestes a desabar. Você a derrubaria de uma vez, esmagando tudo ao redor, ou aceitaria uma queda mais lenta e dolorosa para poupar quem está embaixo?

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Transcrição

Imagina que um rei resolve construir, sozinho, o palácio mais alto que o reino já viu. Um palácio sustentado por um único pilar. E pra esse pilar ele precisa de uma única árvore, a maior e mais perfeita da floresta. Agora imagina que essa árvore é a sua casa. E não só a sua. É a casa de centenas de famílias que dependem de você pra viver. O que você faria se pudesse falar, sabendo que o machado já está a caminho. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava se tornando Buda. Vida após vida, nascendo hora como homem, hora como animal, hora como espírito, sempre acumulando virtude.

Nessa aqui, ele nasceu como espírito de uma árvore. Uma árvore-sala enorme, a maior de todas, chamada Bada-sala, era sim. Em Benares reinava um rei que um dia decidiu erguer um palácio de um pilar só. Chamou os carpinteiros e eles foram à floresta procurar uma árvore que servisse. Acharam várias retas e altas, mas todas tinham algum problema. Pra chegar até elas, seria preciso atravessar terrenos difíceis, arrastar o tronco por léguas. Aí lembraram que, bem ali no Parque Real, no bosque sagrado do rei, havia uma árvore-sala gigantesca, perfeita, reta como uma coluna. Voltaram e contaram ao rei.

E o rei disse, pois é essa, cortem, só que aquela árvore não era uma árvore qualquer. Nela morava um espírito poderoso, o Bodhisatta, o futuro Buda, e ao redor dela, em árvores menores, viviam centenas de outros espíritos, mais jovens, mais fracos, todos parentes e companheiros dele. Aquela grande sala era o centro, o sustento e a proteção de uma floresta inteira de seres invisíveis. Os carpinteiros foram até a árvore com oferendas, fizeram os ritos de costume e avisaram, com sete dias de antecedência, que no sétimo dia voltariam para derrubá-la, por ordem do rei. Quando o grande espírito ouviu aquilo, o coração dele apertou.

Não tanto por si, ele sabia que, ao cair, a sua morada de tantos anos se acabaria. Mas o que pesava mesmo era outra coisa, a árvore dele era enorme. Quando um tronco daquele tamanho desabar, ele não cai limpo, ele arrasta tudo em volta, e em volta estavam todas as árvores menores, com todos os espíritos jovens dependendo dele. Se ele tombasse de qualquer jeito, levaria junto as casas e as vidas de toda sua gente. Repara que detalhe, a dor dele não era a própria morte, era a morte dos outros junto com ele. Os espíritos menores vieram, aflitos, perguntar o que fazer, e aqui o conto se abre num gesto bonito.

"E se ofereceram, disseram, vamos todos pedir aos nossos próprios poderes, juntos, para desviar esse machado. E surgiram ideias, um espírito mais jovem, cheio de força, disse, eu assumo a forma de um touro gigante e assusto os carpinteiros para longe. Outro disse, eu vi uma serpente enorme e ninguém chega perto. Cada um queria usar o que tinha de poder para salvar a árvore mãe. Mas o Bodhisatta, com calma, recusou todos esses planos, porque assustar, amaldiçoar, usar os homens, mesmo para se salvar, era plantar dor. Era responder a violência com violência, e isso não estava no caminho dele.

Ele não ia comprar a própria sobrevivência com o medo e o sofrimento dos outros, nem mesmo dos homens que vinham com o machado, então ele pensou num jeito que não ferisse ninguém. E no dia marcado, quando o mestre carpinteiro se aproximou, o grande espírito apareceu diante dele. Não com fúria, não com ameaça, mas com uma serenidade que desarmava. E fez um único pedido, disse mais ou menos assim, eu aceito ser cortado, não vim impedir o trabalho do rei, só te peço uma coisa, não me cortem de uma vez só, com um único golpe na base, cortem-me primeiro o topo, depois aos poucos, em pedaços, de cima para baixo.

O carpinteiro estranhou. Ora, cortar de cima para baixo é muito mais trabalhoso, muito mais demorado e perigoso para a gente, derrubar pela base é mais fácil. Se você quer o jeito mais difícil para você mesmo, e o espírito respondeu, e essa é a alma do conto, eu peço assim justamente porque, se eu cair inteiro de uma vez, vou esmagar todas as árvores pequenas que crescem ao meu redor. Vou destruir as casas e ferir todos os espíritos jovens que vivem nelas, os meus, que não fizeram nada e não merecem morrer comigo. Se você me cortar aos poucos, em partes, eu posso cair manso sem arrastar ninguém junto, o espírito mais dor para mim, com tanto que poupe os outros.

O carpinteiro ficou parado, aquilo atravessou, pensa só, ele disse para si mesmo, esse é apenas o espírito de uma árvore, e está disposto a sofrer mais, golpe por golpe, para não machucar os companheiros. E eu, que sou homem, com coração e razão, ia derrubar essa árvore só pelo capricho de um palácio, sem pensarem mais ninguém, ele largou o machado, voltou ao rei e contou tudo, palavra por palavra, e o rei, como ouvido, mandou suspender a obra. A grande sala foi poupada, e dali em diante o rei passou a honrar o espírito da árvore e a governar com mais cuidado, lembrando que toda escolha sua derrubava ou poupava muita gente que ele nem via.

Agora, repara no que esse conto está dizendo. A virtude central aqui não é só coragem, nem só sacrifício, é empatia que enxerga longe. Esse grande espírito não pensou apenas na própria queda, ele pensou na trajetória da queda, em quem ia estar embaixo quando ele caísse. Em budismo a gente chama de caruna, a compaixão, mas tem um tempero a mais aqui, que é a consciência de que a gente nunca cai sozinho, tudo o que somos está enraizado junto de outras vidas, e é aí que o conto cutuca a gente, com gentileza, porque hoje o nosso modo de cair é quase sempre de uma vez só, pela base, do jeito mais fácil para a gente.

A gente toma a decisão que alivia o nosso peso e nem olha quem fica embaixo. A pessoa pede demissão no impulso e esquece a equipe que vai segurar a falta dela. Larga uma relação com uma mensagem seca porque é mais rápido, sem pensar em como o outro vai receber. Fala a verdade na cara de alguém num grupo inteiro, derrubando o tronco de uma vez, quando podia ter cortado aos poucos, em particular com cuidado. A gente busca o caminho que dói menos para a gente, mesmo quando ele é o que dói mais para os outros. O espírito da árvore fez o contrário, escolheu doer mais, ele, para poupar os pequenos ao redor.

Aqui vai uma coisa para hoje, pensa numa coisa que você precisa fazer e que vai mexer com outras pessoas. Uma conversa difícil, uma mudança, uma decisão, um basta, você provavelmente já tem na cabeça o jeito mais rápido e mais cômodo de fazer o golpe na base, antes de dar esse golpe, faz uma pergunta só, quando isso cair quem está embaixo, e pergunta a seguir, existe um jeito de cortar de cima para baixo, mais devagar, mais trabalhoso para mim, mas que poupem quem está ao redor. Avisar com antecedência, falar a sós, dar tempo, amparar a queda, quase sempre existe, custa mais a você, é verdade, mas é exatamente esse custo, aceito de bom grado, que transforma uma derrubada qualquer num gesto de compaixão.