Os males da paixão (o pequeno Kunala)

Budismo · Temporada 20 · Episódio 1 de 10 — em ordem cronológica

Sua paixão é real ou você adora uma imagem? Descubra quem fica no galho quando a febre da vida chega.

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Transcrição

Imagina um pássaro que viu tanto, que voou por cima de tantos jardins e de tantas histórias de amor que deram errado, que um dia abre o bico não para cantar, mas para avisar. E o aviso é duro. Cuidado com a paixão que cega. Você ouviria um pássaro falando isso? Ou ia achar que ele é só um bicho amargurado sem entender nada da vida? A resposta a essa pergunta é meio que o coração desse conto, porque o pássaro que fala que não é amargurado, ele é sábio, e há uma diferença enorme entre as duas coisas. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda não era o Buda, quando ele ainda estava no longo caminho de se tornar Buda.

Nessas histórias, o futuro Buda, o Bodhisatta, aparece às vezes como gente, às vezes como bicho, e nesse conto repara só, ele aparece como pássaro, um pássaro chamado Kunala, o pequeno Kunala, lá nos altos do Himalaia, conta-se que, bem no alto das montanhas, perto de um lago de águas claras, vivia esse pássaro chamado Kunala. E o Kunala não era um pássaro qualquer, ele era o rei de uma revoada enorme, cuidado e servido por milhares de outras aves que voavam à volta dele, que faziam sombra para ele quando o sol apertava, que traziam para ele as frutas mais doces e o néctar das melhores flores, era uma corte inteira no ar, mas o Kunala tinha um jeito de olhar para esse mundo todo que era diferente, ele tinha visto muita coisa, tinha visto ao longo dos seus dias como a paixão arrebatada, aquela que chega como uma onda e leva a pessoa junto, costuma terminar, e ele não tinha pressa nenhuma de se afundar nisso.

Agora, perto da Lí, vivia outro pássaro rei, amigo do Kunala. Esse outro chamava-se Punamuka e era de um temperamento mais aberto, mais entregue às alegrias do amor, e um belo dia o Punamuka adoeceu, caiu de cama por assim dizer, ardendo em febre, fraco, sem conseguir voar, e todas aquelas aves que viviam à volta dele, todas as companheiras que ele tanto adorava, que ele tinha mimado e protegido, o que é que fizeram, sumiram, foram embora atrás de outro rei, atrás de outra corte, atrás de outras frutas, largaram o Punamuka doente, sozinho, a beira da morte, num galho qualquer. Quando o Kunala soube, ele voou até lá, pousou ao lado do amigo febril e com cuidado, com remédios das montanhas, foi cuidando dele dia após dia até que a febre baixou, e a vida voltou.

E quando o Punamuka já estava de pé, recuperado, o Kunala olhou para ele e disse, mais ou menos assim, repara no que te aconteceu, repara em quem ficou e em quem foi embora. E foi aí que o pequeno Kunala abriu bico para falar não como quem reclama, mas como quem ensina. Ele começou a contar histórias, uma atrás da outra, histórias de gente que tinha se deixado levar pela paixão e se perdido, reis que enlouqueceram por amor e perderam o reino, pessoas que confiaram cegamente, que entregaram tudo num arrobo, e que depois se viram traídas, vazias, sozinhas no galho, como o Punamuka tinha ficado.

E o ponto do Kunala, presta atenção, não era dizer que o amor é ruim, não era, o ponto dele era outro, e é mais fino que isso. Ele estava falando da paixão cega, daquele estado em que a gente para de enxergar a pessoa real e passa a adorar uma imagem que a gente mesmo inventou. Daquele estado em que a gente joga fora o bom senso, joga fora os amigos verdadeiros, joga fora a própria paz, tudo em nome de uma onda que no fundo nem promete ficar. O Kunala tinha visto a paixão prometer o céu e entregar o abandono, tinha visto a corte inteira do amigo desaparecer no primeiro sinal de fraqueza, e ele estava dizendo, com toda a ternura de quem cuidou de um doente, não confunda a multidão que te cerca quando você está forte com o afeto que fica quando você está caído, não confunda o ardor que cega com o cuidado que enxerga, e o Punamuka ouviu.

Curado por dentro e por fora, ele entendeu, entendeu que ser amado de verdade é uma coisa, e ser objeto da paixão de alguém é outra bem diferente, uma fica no galho com você na febre, a outra voa embora atrás da próxima fruta, agora, repara no que esse conto está dizendo pra você, hoje, aqui, agora, a gente vive num tempo que é quase uma fábrica de paixão cega, tudo é feito pra te dar aquela onda, a tela desliza e te entrega rosto atrás de rosto, perfil atrás de perfil, cada um mais perfeito que o outro, cada uma imagem montada com cuidado pra te fisgar, e a gente engole isso achando que está conhecendo gente, achando que está amando, quando muitas vezes está só adorando uma imagem igualzinho às aves que cercavam o rei enquanto ele estava forte e bonito, e aí vem a febre da vida, vem o dia ruim, vem a fraqueza, vem o momento em que a gente não está no nosso melhor, e é nesse momento que se descobre quem é Kunala e quem era só multidão, quem fica no galho e quem voa embora, o budismo tem uma palavra dura e honesta pra essa fome que nunca se sacia, tanha, assede, o desejo que arrasta, não é que o desejo seja um pecado, é que ele é cego, ele quer mais e mais e mais e nunca olha de verdade pra quem está na frente, o conto do pequeno Kunala não está te pedindo pra fechar o coração, está te pedindo pra abrir os olhos enquanto o coração está aberto, que é a coisa mais difícil do mundo eu sei, porque o Kunala não era um pássaro que tinha desistido de amar, ele era um pássaro que sabia a diferença entre amar uma pessoa e ser arrastado por uma onda, e essa diferença meu amigo, é a diferença entre cuidar de um amigo na febre e abandoná-lo no galho, aqui vai uma coisa pra hoje, pensa numa pessoa que hoje ocupa muito da sua cabeça, alguém por quem você sente aquele puxão forte, aquela onda, e faz pra você mesmo a pergunta do pequeno Kunala, com toda honestidade, eu estou enxergando essa pessoa de verdade, com defeitos e tudo, ou estou adorando uma imagem que eu mesmo montei, e mais uma, a pergunta que separa a paixão do afeto, essa pessoa ficaria comigo no galho, na febre, no meu pior dia, e eu ficaria com ela, se a resposta for sim, cuide disso como o Kunala cuidou do amigo, se for não, talvez seja só uma onda, e onda, você já sabe, vai embora atrás da próxima [MÚSICA DE FUNDO]