Os dez deveres de um rei justo

Budismo · Temporada 20 · Episódio 5 de 10 — em ordem cronológica

Você tem poder sobre a vida de muita gente. A pergunta que aperta é: você vai construir ou esmagar?

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Transcrição

Imagina que você acorda um dia e descobre que tem poder sobre a vida de muita gente. Não precisa ser um rei de coroa. Pode ser que você chefia uma equipe que cuide de uma casa cheia, que tome decisões que mexem com o bolso e com o sono dos outros. A pergunta é simples e ela aperta. O que faz alguém usar esse poder para construir e não para esmagar? Esse conto antigo tenta responder isso com uma lista. Dez coisas. E o curioso é que nenhuma delas têm a ver com força. Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas. Os contos das vidas passadas do Buda. De quando ele ainda não era o Buda. E estava só se tornando vida após vida aquilo que um dia ia despertar.

A gente chama essa figura de Bodhisatta. Às vezes ele aparece como um animal. Às vezes como um homem comum. E às vezes, como nesse conto, ele nasce príncipe vira rei. Mas repara. Ser rei, aqui. Nunca é o prêmio. É a prova. Nesse jataca, o Bodhisatta nasce filho de um rei. E recebe o nome de Jana Sanda. Desde menino ele foi diferente. Enquanto os outros príncipes brincavam de mandar, ele observava. Reparava em quem tinha fome no canto do pátio. Reparava em quem chegava ao palácio com a roupa puída pedindo justiça. E voltava para casa sem nada. Porque ninguém quis ouvir. E aquilo ficava nele.

Como uma pedrinha no sapato que a gente não consegue ignorar. Quando o velho rei morreu, Jana Sanda subiu ao trono. E aí muita gente esperava o de sempre. Festa. Impostos novos. Vaidade. Mas ele fez outra coisa. Mandou erguer salões de doação nas quatro pontas da cidade e mais um no coração dela. E todos os dias de manhã, distribuía comida, roupa e remédio para quem precisava. Dana, a generosidade, virou a primeira pedra dele e é aqui que o conto vira quase um discurso. Porque Jana Sanda reúne o povo e fala. Não ameaça, não se gaba. Ele ensina, ele explica, com paciência, quais são os deveres de quem governa de verdade.

A tradição guardou isso como os dez deveres do rei justo e vale a gente passar por eles devagar, porque cada um é um espelho. O primeiro é a generosidade. Dar, não o dar que sobra, mas o dar que abre a mão de propósito. O segundo é a conduta correta. Manter os preceitos. Não matar, não roubar, não mentir, não trair a confiança de ninguém. O terceiro é a renúncia. Abrir mão do próprio conforto pelo bem dos outros. Governar sem usar o cargo para se encher. O quarto é a honestidade. Falar a verdade e ser a mesma pessoa por dentro e por fora. O quinto dever é a gentileza. Tratar as pessoas com brandura, mesmo quem está errado.

O sexto é a autodisciplina. A austeridade. Não se entregar ao luxo enquanto o reino aperta o cinto. O sétimo é não ter raiva. Governar sem deixar o rancor virar política. Porque um líder com ódio no peito assina sentenças que ele mesmo calmo jamais assinaria. O oitavo é a não violência. Evitar causar dano. Escolher sempre o caminho que machuca menos. O nono é a paciência. Cante. Aguentar a crítica. A demora. A ingratidão. Sem revidar. E o décimo é a não oposição. Não ir contra o que é justo. Não brigar com a verdade só para não perder a razão. Dez deveres. E Janassanda não só falava.

Ele vivia cada um. O reino sob ele ficou conhecido como um lugar onde até o mais pobre dormia tranquilo. Porque sabia que existia alguém lá no alto que governava como quem cuida. Não como se oe. E o conto conta que com o tempo Janassanda começou a se entristecer. Não por fracasso, mas porque ele percebeu uma coisa dura. Por mais que ele desce sempre haveria fome de novo amanhã. Por mais que ele fosse justo, a velhice viria, a doença viria, a morte viria, para ele e para todos. Então ele entendeu que governar bem é necessário. Mas não basta. E voltou seu coração também para dentro.

Para cultivar a bondade não como tarefa de rei, mas como caminho de despertar. Esse é o detalhe que faz o jataca ser budista de verdade. A virtude do lado de fora e o trabalho do lado de dentro andam juntos. Agora repara no que esse conto está dizendo para a gente hoje. A gente vive num tempo que confunde liderança com volume. Quem grita mais alto, quem é mais duro, quem não leva a desaforo. Esse é vendido como forte. E a lista de Janassanda bate de frente com ele. Olha de novo. Generosidade, gentileza, paciência. Não ter raiva, austeridade, honestidade. Não tem nenhum imponho a respeito, nenhum seja temido.

O poder nesse conto não é medido pelo medo que você causa. É medido pelo sono tranquilo das pessoas que dependem de você. E isso desmonta uma ideia bem nossa. Há de que esses deveres só valem para quem manda e muita gente. Não valem para o presidente, para chefe, para rei. Você exerce poder na fila do mercado, no grupo da família, no jeito que responde uma mensagem quando está com raiva. Toda vez que alguém é mais frágil que você naquele instante, você é, por um momento, o rei daquela cena. E a pergunta de Janassanda continua de pé. Você vai governar esse instante com a mão fechada ou aberta.

A gente também adora o dar quando é fácil, quando sobra, quando rende uma foto. O conto pede mais. Pede o dar que renuncia, que abre mão do próprio conforto. E pede a paciência, que talvez seja o mais difícil de todos para nós, viciados em resposta imediata, em revidar na hora, em ter a última palavra. Aqui vai uma coisa para hoje. Escolhe um único dever da lista de Janassanda, o que mais te incomodou da cena, o que mais doeu. Pode ser não ter raiva, pode ser a paciência, pode ser a generosidade que renuncia. E por um dia só, governa a tua vida por ele. Quando vier o impulso de revidar, de cortar, de fechar a mão, lembra, naquele instante você é o rei da cena.

E rei justo nesse conto é o que escolhe a brandura quando teria todo o poder de escolher a dureza. Um dever, um dia, começa por aí.