O cão negro de Yama que vem punir o mundo corrupto

Budismo · Temporada 20 · Episódio 6 de 10 — em ordem cronológica

No meio do dia, o céu escurece. Um cão preto gigante, com olhos de brasa e presas de lança, fareja no portão da cidade: será que ele veio te buscar?

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Transcrição

Imagina que o céu inteiro escurece de uma vez, como se alguém tivesse apagado o sol no meio do dia. E, no portão da cidade, surge um cão preto do tamanho de um cavalo de guerra, com olhos de brasa e presas como pontas de lança, rosnando baixo, como um trovão que ainda não decidiu cair. E ele para. Ele cheira o ar, ele está procurando alguém. E aí você se pergunta, num arrepio, será que ele veio me buscar? Deixa eu te contar. Esse é um dos jatacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava se tornando Buda, vida após vida, aprendendo a ser sábio. Às vezes ele aparece como um homem, às vezes como um animal.

E nesse aqui ele aparece em um lugar bem alto, como o próprio saca, o rei dos deuses, aquele que olha de cima e repara em tudo o que a gente faz quando acha que ninguém está vendo. A história é assim, houve um tempo em que o mundo dos homens estava torto, não torto de um jeito espetacular, com guerras e desastres. Torto de um jeito miúdo, cotidiano, que é o jeito mais perigoso de todos. As pessoas tinham parado de respeitar os pais, os monges e sacerdotes, que deveriam viver da virtude, viviam da ganância. Os mercadores enganavam no peso, os fortes pisavam nos fracos e ninguém achava aquilo estranho.

E o pior, tudo isso tinha virado normal, ninguém corava mais. A vergonha de fazer o errado, aquilo que impalia a gente chama de iree, e o receio das consequências, o atapa, tinham simplesmente evaporado do coração das pessoas. Lá do alto saca, o rei dos deuses, que é o nosso Bodhisatta, olhava aquilo e o coração dele apertava, porque um deus sábio não fica feliz em ver os homens se afundando. Ele queria que eles acordassem, e ele sabia de uma coisa que a gente esquece, pessoas que não respeitam mais nada costumam respeitar ainda, uma única coisa. O medo, então saca tomou uma forma terrível.

Ele se vestiu de caçador vermelho como brasa, com um arco enorme nas costas, e uma aljava cheia de flechas. E ao lado dele ele fez surgir um cão. Mas que cão? Maracanha, o grande negro, um cão preto como fundo de um poço gigante, com quatro presas que brilhavam como metal, a língua de fogo pendurada, e uma corrente grossa no pescoço que saca segurava com uma somão. Dizem que era o cão de Yama, o Senhor da Morte, aquele que vem farejar os corruptos, e os dois desceram até o portão da cidade. O cão soltou um único latido, um só. E aquele som não era som de bicho, era como se a terra inteira tivesse gemido.

As janelas tremeram, os pássaros caíram do voo, as pessoas largaram o que estavam fazendo e correram, se trancaram em casa, e mesmo trancadas sentiam o chão vibrar. O rei daquela cidade, tremendo no palácio, mandou fechar os portões com barras de ferro, mas o cão deu outro latido, e as barras de ferro racharam como gravetos. Aí o rei, branco de pavor, subiu na muralha e gritou lá pra baixo, pro caçador vermelho. "Caçador, por que esse teu cão está latindo? O que ele quer? Por que ele veio?" E saca, na figura do caçador, respondeu com uma calma que era mais assustadora que qualquer grito.

"O caçador está com fome, então eu te dou comida," disse o rei. "Eu mando trazer arroz, carne, tudo o que ele quiser, eu encho a barriga desse cão, é só dizer." E o caçador balançou a cabeça devagar. "Não, o rei, esse cão não come arroz, esse cão não come carne de boi nem de carneiro, esse cão só come um tipo de gente, ele veio comer os homens que viraram as costas pra virtude." O rei sentiu sangue gelar, porque ele sabia exatamente de quem o caçador estava falando. E quem são esses homens? Ele perguntou com a voz fina. E o caçador com o cão de fogo rosnando ao lado, começou a recitar e foi recitando, um a um, todos os jeitos que o mundo tinha encontrado de se corromper.

Ele falou dos que enganam quem confia neles, falou dos juízes que recebem por baixo do pano e torcem o que é justo, falou dos que amam dinheiro mais do que amam a própria mãe e o próprio pai, falou dos sacerdotes que prometem o céu e cobram a entrada, falou dos que escondem o defeito da mercadoria e juram que está nova, falou dos que falam doce na frente e cospi-veneno por trás. E a cada coisa que ele dizia, o cão dava um passo à frente e a cidade inteira encolhia, é por causa dessa gente que o cão está com fome, disse o caçador, e é por causa dela que eu vim. Se o mundo continuar assim, eu solto a corrente, e aí não tem muralha que segure.

O rei caiu de joelhos na muralha. E entendeu, aquilo não era uma ameaça gratuita, era um aviso, era a última chance que estava sendo dada antes da corrente se soltar. E ele jurou, ali em voz alta, que ia mudar, que ia governar com retidão, que ia honrar os pais, proteger os fracos, punir a desonestidade, viver de acordo com o que é certo. E quando o juramento saiu sincero, do fundo, o caçador vermelho sorriu e foi se transformando. O vermelho virou luz, o cão monstruoso se dissolveu no ar, e ali ficou saca, o rei dos deuses, resplandecendo. Ele disse, vivam com vergonha do errado e com receio das consequências, e nenhum cão de yama vai precisar bater no portão de vocês.

E subiu de volta pro céu. Agora, repara no que esse conto está dizendo. Ele não está falando de monstros, o cão preto gigante é só a embalagem da mensagem. A mensagem é sobre uma coisa muito mais discreta, aquilo que a gente sente ou deixa de sentir quando faz o errado. Iri e Otapa, a vergonha interna, e o receio das consequências. Os antigos chamavam esses dois de "os guardiões do mundo", porque enquanto eles estiverem vivos dentro da gente, o mundo se segura sozinho, sem precisar de cão nenhum, e a gente vive num tempo que com o maior carinho eu preciso dizer "anda meio surdo pra esses dois guardiões".

A gente aprendeu a chamar a corrupção miuda de esperteza, levar vantagem virou inteligência, mentir um pouco virou se vender bem, e o mais sintomático, a gente perdeu a capacidade de corar. Faz o errado online, na frente de milhares sem piscar. O cão do conto não late por causa dos grandes vilões da história, ele late por causa do acúmulo silencioso de pequenas froshidões, a sua, a minha, a de todo mundo cada uma se achando inofensiva, a boa notícia é que o conto não termina em castigo, termina em mudança. Bastou um homem se ajoelhar de verdade pra corrente continuar presa. A virtude não pede heroísmo, pede só que a gente volte a sentir.

Aqui vai uma coisa pra hoje, pensa numa única atitude sua, dessas pequenas, que você sabe que está torta, mas que virou o hábito de tão repetida, aquela que você já nem questiona, o peso que você ajeita a seu favor, a meia verdade que você conta sem culpa. E hoje, só hoje, antes de repeti-la, faz a pergunta do conto. Se o cão negro de Yama estivesse farejando no seu portão, ele pararia na sua porta se a resposta te incomodou um pouquinho, ótimo. Esse incomodo tem nome, chama Iri, é o guardião do mundo acordando dentro de você, não faça ele dormir de novo.