O avarento Kosiya curado por Sakka e os deuses

Budismo · Temporada 20 · Episódio 7 de 10 — em ordem cronológica

Ele tem todo o dinheiro do mundo, mas come escondido. O que o faz tremer de pavor de ter que dividir?

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Transcrição

Imagina um homem tão rico que poderia alimentar uma cidade inteira por anos e que mesmo assim come escondido com medo de que alguém peça um bocado. Um homem que sente o cheiro de comida assada na casa do vizinho e fica irritado porque aquilo de algum jeito torto parece um roubo contra ele. O que será que dói tanto no fundo, num coração assim? Deixa eu te contar. Esse é um dos de atacas, os contos das vidas passadas do Buda, de quando ele ainda estava se tornando Buda vida após vida, às vezes como pessoa, às vezes como animal, sempre aprendendo alguma virtude pelo caminho. Nesse aqui, o futuro Buda aparece como saca, o rei dos deuses, e a história gira em torno de um homem chamado Kossia, um avarento daqueles de doer.

Kossia tinha de tudo, celeiros transbordando de arroz, baús pesados de moedas, terras que se perdiam de vista e não dava nada. Nem para um mendigo, nem para um monge, nem para a própria família. Ele acreditava, com toda a sinceridade do mundo, que dar era perder, que cada grão que saísse da sua mão, era um grão a menos para ele, e vivia apertado, magro, desconfiado, sempre contando, sempre escondendo, um dia bateu nele uma vontade enorme de comer arroz cozido no leite, daquele rico doce com mel e açúcar, a boca encheu de água, mas aí veio o pensamento que sempre vinha, se eu mandar cozinhar aqui em casa, vai dar cheiro, e o cheiro vai chamar os vizinhos, e os vizinhos vão querer um pouco, a ideia de dividir o doía mais do que a fome.

Então ele esperou. Esperou ficar doente quase, de tanto desejo guardado, e quando não aguentou mais, fez um plano, pegou um pouco de arroz, um pouco de leite, um potinho de mel, e mandou que a coisa toda fosse levada para dentro do mato, bem longe, onde ninguém o visse comer, lá sozinho escondido como um ladrão da própria fartura, ele acendeu o fogo para preparar o seu prazer secreto. Ora, lá do alto saca, o rei dos deuses observava, e os deuses não gostam de ver um coração se fechar até esse ponto, porque a avareza no fim é uma doença, a pessoa endurece e encole, e morre infeliz no meio da própria abundância.

Então saca resolveu curá-lo, não com sermão, com uma cena que cozia nunca esqueceria. Saca chamou quatro deuses e disse, vamos descer disfarçados de brama nespedintes, vamos até a panela do avarento, e desceram. O primeiro braman apareceu na clareira, faminto, de mãos estendidas pedindo um pouco daquele arroz com leite, cocia quase teve um troço, não tem, vá embora, procura comida no outro lugar. O bramane sorriu, e então diante dos olhos dele, subiu pelos ares e ficou ali pairando brilhando. Cocia gelou, mal teve tempo de entender, e já vinha o segundo, e o terceiro, e o quarto, cada um pedindo cada um se elevando no ar quando recusado, todos resplandecentes, virando coisas estranhas e luminosas, um deles tomou a forma de um cão que corria em círculos e cuspia fogo, outro mudava de cor como o céu ao entardecer, cocia, tremendo, percebeu que não estava diante de mendigos comuns.

E aí o último deles, que era o próprio saca, falou com a voz mansa de quem já viu muita gente sofrer a toa, cocia, de onde vem essa riqueza tua, veio do nada, ou veio de alguém que um dia te deu, te plantou, te sustentou, tudo o que você tem, alguém deu primeiro. E você não devolve nem um punhado de arroz cozido, repara, a riqueza guardada que ninguém aproveita é igual a um lago de água doce no meio do deserto que ninguém pode beber, de que serve, a água parada apodrece, o bem que não circula adoece o dono, e saca mostrou a ele, com palavras simples, o que o avarento tinha medo de ver, que ao não dar nada, cocia não estava se protegendo, estava se condenando, estava colhendo solidão, desconfiança e um aperto no peito que nenhum baú resolvia, e que o caminho de volta era um só, abrir a mão, começar a repartir, dar do arroz, dar do ouro, dar do tempo, e descobrir que a mão aberta recebe mais sol do que a mão fechada.

Alguma coisa cedeu dentro de cocia, talvez o susto, talvez a verdade, ele caiu de joelhos, prometeu mudar, mandou abrir os celeiros, montou casas de distribuição de comida e passou a dar a quem precisava, e dizem que, pela primeira vez na vida, comeu o seu arroz com leite em paz, porque dessa vez ele dividiu, e a doçura, repartida, ficou maior. Agora, repara no que esse conto está dizendo. A avareza não é só sovinice com dinheiro, é um jeito de viver fechado, medindo tudo, com medo de que o outro leve o nosso pedaço, e a gente hoje vive cercado de versões finas dessa mesma doença. A gente acumula coisas que nem usa, segura a informação, guarda elogio, racionaliza carinho, a gente posta a abundância mas tem dificuldade de dar de verdade, de doar tempo sem cobrar, de ajudar sem postar, de repartir sem calcular o retorno, e, igual ao cozia, a gente come escondido, consome sozinho, no fone de ouvido, na tela, com medo de que dividir significa ter menos.

A virtude que esse conto celebra tem nome em palí, dana a generosidade, e o que saca em sina é que dana não empobrece ninguém, ela cura, quem dá, se solta, quem reparte, respira. Escolhe uma coisa para hoje, escolhe uma coisa que você normalmente guardaria só para você, pode ser comida, pode ser tempo, pode ser uma habilidade sua, e dá um pedaço dela, hoje, para alguém, sem esperar nada em troca, e sem contar para ninguém. Pode ser dividir o seu almoço, ensinar algo de graça, ouvir alguém com calma, e enquanto faz isso, repara no peito, você vai sentir que não ficou com menos, ficou mais leve, e alívio é o começo da cura do cocia que mora, de algum jeito dentro de todos nós.